<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464</id><updated>2012-02-17T00:45:30.868-02:00</updated><title type='text'>livrocomocultura</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>30</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-7006930125939092350</id><published>2011-10-17T15:09:00.003-02:00</published><updated>2011-10-17T15:16:06.358-02:00</updated><title type='text'>LIÇÕES DE FILOSOFIA PRIMEIRA DE J. A GIANNOTTI</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-Twu2dZSYq2E/Tpxijc0CGEI/AAAAAAAADeM/OXQLKyLVX8o/s1600/giannotti4.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 288px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-Twu2dZSYq2E/Tpxijc0CGEI/AAAAAAAADeM/OXQLKyLVX8o/s400/giannotti4.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664510792494618690" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parte I &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui seguem alguns fragmentos desse ótimo livro, para quem quer se familiarizar com essa ciência. Não farei um resumo, como de costume, pois se trata de um assunto que não domino, mas refleti muito e resolvi escrever algumas de suas impressões, pois foram de grande valia para minha vida pessoal. Essa obra é bastante enriquecedora e deve ser lida por completo, para que se tenha uma noção mais apurada pelo assunto e continuar seguindo ou não por esse caminho. Na introdução ele diz “Espero ter escrito uma introdução à filosofia, não às opiniões deste ou daquele filósofo, mas à maneira pela qual eles pensam determinados problemas.”&lt;br /&gt;Tales (625-458 a.C.) é o primeiro filósofo de acordo com a tradição grega. É dono de senso prático e “admirado porque manipula ideias abstratas, importantes e divinas.” Platão e Aristóteles “fizeram desse estranhamento o autêntico espanto diante das coisas, o empuxo para a reflexão filosófica.” A filosofia ocidental nasceu na Grécia (séc.VII a.C.) quando a cidade-estado, a pólis, se formava. “Somente quando a polis entrou em decadência eles criaram escolas propriamente ditas – lugares de ócio (skolê em grego), onde não se praticava o neg-ócio...  visando lhes abrir o caminho para uma vida feliz, contemplativa...” Pólis desaparece com conquistas de Alexandre o Magno, integrando o império romano.&lt;br /&gt; Os filósofos tornam-se cosmopolitas. Com o cristianismo, os padres da Igreja tornaram-se filósofos, nem sempre obedientes ao Vaticano.  No Renascimento dá-se a conciliação entre fé e saber. Francis Bacon- n.1561, René Descartes- n.1596, Hobbes –n.1588, Locke, Hume, Bekerley, Leinbniz, Kant- n.1724, Rousseau- n.1722, Espinoza- n.1632, Schopenhauer- n.1788. No século XIX passam a ser principalmente professores: Russel- n.1872, Heidegger- n.1889, Wittgenstein- n.1889. &lt;br /&gt;“A FILOSOFIA é uma forma de saber raciocinador, que se ocupa do cosmo, da linguagem (do logos), do sentido e dos limites do conhecimento científico, do significado de outras práticas e da política. Nasce, desde logo, opondo-se ao pensamento mitológico.” A filosofia tem mais de dois mil anos de tradição. &lt;br /&gt;“O estudioso moderno desde logo se confronta com a tarefa de reconstruir, de compor os textos antigos.” “Os Cidadãos – entre eles não se incluíam as mulheres, os escravos e os estrangeiros – participavam do poder reivindicando o direito da isegoria, isto é, a possibilidade de pedir a palavra na assembléia comunal, e aquele da isonomia, de ser tratado igualmente perante a lei.” “A nobreza, armando o tecido das trocas, faz circular objetos preciosos...” “Mutatis mutandis, o poder também circula... passa a ser compartilhado... até abranger todo cidadão adulto, desde que estivesse ligado a um demos, por assim dizer um distrito. Daí o nome “democracia” para essa forma de governo...” No lugar de um palácio centralizador, surge a cidade murada protegendo cidadãos e estrangeiros e recebendo os camponeses do redor. Esse saber público encontra raízes do pensamento indo-europeu. “É interessante notar que a substituição do rei mago (o anax) por uma assembléia de pares, inclusive com poderes religiosos, necessita da intermediação de um sabedor (sophos), de um sábio dos meandros da polis ideal.” Em geral os sábios eram legisladores na Grécia antiga. O ser pode dotar-se de um movimento de ascensão. Como pensar o uno no múltiplo e vice-versa. Qual a natureza do uno? Seria da fonte do múltiplo. Martin Heidegger sugere: “De onde as coisas têm seu nascimento, para lá também devem afundar-se na perdição, segundo a necessidade; pois elas devem expiar e ser julgadas pela justiça segundo a ordem do tempo.” ”O tempo é pensado como circular, voltando sempre ao mesmo ponto de partida, os entes retornando à unidade do indefinido para recomeçar tudo de novo.” Tudo o que é... é; e o que não é não é. &lt;br /&gt;“A razão grega... permite agir sobre os homens, não transformar a natureza.”pg.37.Horrível descartar os pobres e restringir os cidadãos (411 a c.) Durante o século V a.c. a cidade é conduzida por políticos de grande envergadura, Péricles. Dúvida da existência dos Deuses, Protágoras. Distinção do VERDADEIRO E FALSO. Sobre todos os assuntos existem dois argumentos antiéticos entre si. PENSAR é discursar sobre o REAL, tomando o homem como medida para todas as coisas. Importa-lhe conhecer e praticar o bom juízo, as sabedorias no que concerne aos assuntos privados e públicos. Zeus cria os homens. Princípio básico da democracia: a isegoria e a isonomia aos cidadãos (MULHERES não eram CIDADÃS como os escravos e estrangeiros). SÓCRATES acredita na imortalidade da alma. É um homem rude, mas leva ao limite a busca da consciência moral. Na modéstia Sócrates escondia um grande orgulho. A certeza de trilhar o caminho da verdade. (Como Jesus?) Em 399 a.c foi acusado de corruptor da juventude. Morreu tomando cicuta e Platão vem a ser seu maior discípulo. TALES, PROTÁGORAS, SÓCRATES, PLATÃO. Sócrates não confia na força da amizade. Faz inimigos ao desvendar o falso saber deles. No dia da execução recusa a ajuda de amigos para fugir. Acreditando na imortalidade da alma bebe, serenamente, o cálice de cicuta. &lt;br /&gt;PLATÃO 425 – 394 AC. Escreve diálogos e os problemas filosóficos são desenhados por inteiro, através de seus personagens. Antes de indagar pela injustiça da ação, cabe indagar pelo sentido da alma justa. Acredita na Forma. Forma-justiça. Forma-pera, Forma-bondade, Forma-mesa, etc. O REPOUSO deve ser explicado na qualidade de PRINCÍPIO de qualquer mudança.  A Forma cunha a matéria como o sinete se imprime na cera. Só chega aos princípios quem for moralmente dotado e capaz de, a partir dele, proceder quase que AUTOMATICAMENTE. FILÓSOFO: facilidade de aprender, memória potente... e aspira pelas coisas justas e belas. Seria necessário redesenhar o mapa em que os gregos distribuíam deuses, seres humanos e viventes. Pensar é rememorar, ter reminiscência de um contemplar anterior à encarnação. Não há lugar para as lendas de Homero. A tarefa é legislar a polis. Aquele que se aproxima do divino tem a responsabilidade de voltar ao mundo das aparências e auxiliar seus cidadãos a se libertarem de seus ferros. Refere-se à lenda da caverna escura, com luz que modifica a forma real. Só poucos percebem isso – os iluminados. Platão viaja para disseminar sua filosofia, mas um rei se cansa dele e é quase escravizado. Cada um deve aprender o saber que lhe compete, e graças a ele, adquirir a virtude da TEMPERANÇA, o DOMÍNIO de seu oficio e de si mesmo. A justiça não é propriamente definida, tão só localizada no edifício do saber. Quatro VIRTUDES CAPITAIS: prudência, temperança, coragem e justiça. Em oposição se coloca o desejo, outra parte constituinte da alma. A VONTADE não possui uma essência de que os filósofos falam a partir de um ponto de vista. A CORAGEM tem uma posição difícil no desenho platônico da alma humana.  O lado apetitivo da alma se extravasa para se abrir à ponderação da razão. Bem supremo, Verdade, Beleza coincidem. O Bem é a parte mais luminosa do ser. Deus é o Bem. A dialética platônica visa o Bem, idêntico ao Belo e ao Verdadeiro. Parmênides. As Formas se friccionarem umas nas outras na medida em que essa possibilidade deixa pistas na própria aparência, nos fenômenos cotidianos. O sofista é um caçador de jovens atenienses ricos, pois podem ser capazes de pagar por suas aulas, assim como livres, porquanto se destinam a exercer poder político. ANTÍTENES (444 ac) foi fundador da escola cínica, assim chamada porque era muito crítica dos costumes atenienses e da filosofia de então. Foi discípulo de Sócrates. O ser é, mas enquanto ente particular ele se diferencia de outros porque possui em si mesmo poder diferenciador. O sofista faz do discurso o desvendamento do ser, inclusive tenta mostra como esse ser participa do não-ser. &lt;br /&gt;Pg. 78 Aristóteles rompe, aos poucos, com o Platonismo e descobre seus próprios caminhos. Ele distingue coisas homônimas de sinônimas. Fala de coisas e de suas essências;&lt;br /&gt;Cruzeiro – cruz e constelação. Animal - homem e boi. O tempo é quantificável, pois o tempo presente se une ao tempo passado. O mesmo acontece com o lugar, que, ao ser ocupado por um corpo é delimitado pelas partes que esse corpo passa a possuir. O tempo vem a SER na medida em que o movimento é essencialmente quantificável. ANTES e DEPOIS. Os nomes designam as coisas por convenção. Um nome que possui uma dimensão temporal é um VERBO. Somente no século 17 Galileu poderá considerar a natureza como um livro aberto escrito em caracteres matemáticos. O objeto natural deixa de ser potência para se tornar cruzamento de propriedade mensuráveis. A ciência moderna nasce quando quebra o privilégio conferido por Aristóteles à essência enquanto definição. A ontologia, a doutrina do ser (on), orienta a definição da forma lógica da proposição declarativa. O homem é mortal. Nela Platão vê o indivíduo que participa da Forma-homem e por causa disso também participa da Forma-vida. As palavras emitidas pela voz são símbolos de estados de alma e as palavras escritas, símbolos das palavras emitidas pela voz. Para Aristóteles o símbolo se constrói para que algo seja dito, e por fim conhecido, mediante combinações mentais e verbais. O DISCURSO executa as ações mais divinas, pois tem o poder de cessar o medo, retirar a tristeza, inspirar a alegria e aumentar a piedade. As coisas são finitas e as palavras são infinitas. Fica clara a necessidade da contradição, pois o discurso somente se efetiva quando os interlocutores estão visando a mesma coisa. Análise existencial/metafísica. O homem é animal racional... o homem é posto no gênero animal, mas se diferenciando totalmente dos outros animais, na medida em que vem a ser racional. A alma como forma do corpo... A alma articula as partes de tal modo que elas não existem separadamente. A forma se reduz a algo para que sua matéria seja consumida por as atividades, por sua energeia. As coisas sensíveis são móveis e separadas. Os números e as figuras geométricas, em contrapartida, são imutáveis e inseparáveis das coisas onde estão. Erro dos platônicos: não entenderam que a matéria próxima e a forma constituem uma unidade, mas se diferenciam conforma essa unidade muda de sentido. Matemática/filosofia. (Incrível ver com na Idade Média estudou-se tanto sobre filosofia, fato tão abstrato e que necessita de reflexão constante e diálogo.) Todo homem deseja conhecer por natureza. Mas o que se quer conhecer equivale, em número, ao que se entende: que, porque, se é, o que é. (O homem é homem, mas passa a ser designado por outros atributos) O acidente não é apenas o concomitante, mas se torna demonstrável, ou melhor, por si mesmo.  Em vez de diálogos Aristóteles passa a escrever tratados. É da natureza da razão chegar à verdade das coisas, mas para isso ela precisa se mover, ativar e ordenar a linguagem para que suas mediações se evidenciem. O universal... se encontra na articulação das próprias coisas tal com vêm a ser apreendidas pela razão. (felicidade- eudaimonia/ equilíbrio, ponderação, virtuosismo, moral e prudência. Aristóteles observa que o freqüente está entre o necessário e o acidente. (sequência: Tales, Sócrates, Platão, Aristóteles). A alma é definida como a forma do corpo. Pg.123. A alma se desdobra em passiva e ativa. O intelecto se mostra passivo para que o intelecto ativo o mobilize. (metafísica/ ciência teórica, a primeira delas). Os corpos celestes não possuem matéria no sentido mais comum; posto que se movimentam circularmente, existem por si próprios enquanto forma autônoma. Como pura atividade são, por fim, divinos. Os Deuses de Aristóteles transcendem o mundo, mas não se escondem. (Deus/primeiro motor/Bem/Deus objeto de seu próprio pensamento/Sumo Bem). Os platônicos fazem da alma o princípio do movimento, cada gênero possuindo movimento próprio mas integrando-se no movimento promovido pela alma do mundo. Os círculos moventes dependem de um motor imóvel, energia pura que mobiliza outras formas de movimento. A filosofia primeira está destinada a se confrontar com a ontologia e com a teologia...&lt;br /&gt;(Os estóicos opõem-se à tradição platônico-aristotélica – ponte entre pensamento grego e cristão... estóicos ligados aos temas da cidade estado grega. Grécia conquistada pelos romanos em 146 a.C. Instalam-se na Capadócia, Mediterrâneo, Espanha. Alexandria se torna centro cultural importante e Atenas, desprovida de seu império, volta-se sobre si mesma e institucionaliza de vez a riqueza de seu pensamento, abrigando uma rede de escolas filosóficas e científicas. .. O saber perde a unidade antiga e as ciências encontram definitivamente seus próprios caminhos.  (geometria, matemática, astronomia, física, mecânica, medicina) Euclides, Apolônio, Arquimedes, Hipócrates, Galeno.  Os primeiros estóicos... se reuniam num pórtico (stoa) de Atenas. Zenão funda a primeira escola em 322 a.C., Cleanto sucede e depois CRISIPO, o grande arquiteto do pensamento estóico. Com ele  a filosofia pretende definir a finalidade da vida feliz e transmitir a arte de viver conforme esse objetivo. Adquirir e ensinar a arte de viver. Isso comporta três partes – lógica, física e moral. Isso está sempre interligado com Deus e o Bem). O ser (einai) é existência individualizada, corporificada... O passado e o futuro apenas subsistem. Mas o presente não existe em bloco na medida em que o passado e o futuro o comem pelas bordas. O ser sensível, corporal, é a única existência. Crisipo sustenta que o contínuo pode ser dividido ao infinito, nunca a divisão chegando a um elemento atômico, indivisível. Pg. 135. Nos últimos anos, multiplicaram-se os estudos sobre a lógica antiga... tendem a ver na lógica estóica os primeiros passos da lógica da proposição e da dedução contemporâneas. A proposição é o exemplo mais evidente de um dizível... Se tudo é perpassado pelo sopro da racionalidade divina, de onde poderia surgir o Mal? (As catástrofes, feras e seres que infernizam nossa vida estariam a serviço da ordem divina a fim de ressaltar o equilíbrio do todo?) (Os indivíduos interagem entre si segundo suas causalidades próprias)... a alma cede à evidência, mas por si mesma, sem nada deliberar. Deus se resolve numa causa motriz infinita e racional. O ser humano possui alma divina, sopro natural e constante que percorre todo o seu corpo... É modelo de si mesmo... usa de suas representações para ser feliz, encontrar a tranqüilidade da alma.  Para o estóico a exigência de perfeição não pressupõe que a felicidade aumente conforme ela mais dure. &lt;br /&gt;Nem sempre o que percebemos, o que imaginamos, o que pensamos se mostra verdadeiro, o falso espreita cada passo da investigação filosófica. Sócrates afirmava que nada sabia, sempre desconfiava daquilo que se lhe apresentasse como um saber, mas essa dúvida lhe dava o saber certo de que nada sabia. Descartes excluiu do domínio das certezas tudo o que pudesse vir a ser duvidoso. Se a percepção nos engana, então cabe recusar-lhe o estatuto de saber inevitável... Daí a afirmação “Penso, logo existo”, da qual Descartes pretende erguer sua filosofia. (Quem percorre o caminho da dúvida é dito um cético, portanto esse filósofo é um cético). Os filósofos helenistas se iniciam e terminam tendo o ceticismo como contraponto. Seu primeiro representante é Pirro 360-270 a.C. Acompanhou Alexandre à Índia e sofreu influência da filosofia oriental. Suas idéias não foram escritas, mas transmitidas por Timão, que dizia que quem pretende ser feliz deve considerar três coisas: 1- Como as coisas são por natureza? 2- Que atitude se deve adotar diante delas? 3- Qual será o resultado para quem assume essa atitude? Para os pensadores helenistas o conhecimento somente nos interessa quando nos traz ensinamentos morais... Os pirrônicos nunca afirmam que uma coisa é, mas que assim lhes parece. (Os céticos desejavam fazer da filosofia o caminho para a felicidade). (Os brasileiros faziam um mero relato das idéias filosóficas). A diafonia (desacordo) dos sistemas filosóficos é a mais diabólica do que uma simples dissonância, já que cada filósofo a pensa a partir de algumas certezas que às vezes ele nem sabe explicar. &lt;br /&gt;À medida que o pensamento grego se volta para o monoteísmo, diminui a presença de Deus no mundo (físico) ele o transcende embora se responsabilize pela racionalidade de seu travejamento (vigamento). O advento do cristianismo muda essa relação. De um lado, Deus transcendente cria o mundo a partir do nada, ex nihilo, de outro, Deus como Verbo se faz carne.  Transcendência e Imanência se cruzam e esse é um enorme desafio do ponto de vista da razão. Roma torna-se cristã sob Alexandria, a paz romana protege o Mediterrâneo. Em 312 d.C. Constantino se elege imperador. Converte-se e controla a igreja católica, convocando o concílio de Niceia. Filósofos se fazem cristãos. Há um longo ruminar dos temas tradicionais. Entre os patrísticas (doutrina dos Santos Padres), AGOSTINHO é o maior. Contudo é educado como um romano. Nasceu na África, Tagasta, e jovem vai a Cartago. Recebe influência platônica que permanecerá em sua vida.  Liga-se a maniqueístas que pregavam uma religião salvacionista. O Bem e o Mal eram duas substâncias antagônicas entre si.  Agostinho tendia a identificar ser e corpo, mas à medida que se cristianiza passa a entender Deus como espírito. Converte-se em 386, pondo-se a serviço da igreja. Submete corpo, vontade e alma a serviço da iluminação divina. Colabora assim para que a igreja encontre sua identidade ideológica. Retorna à África e como bispo é encarregado da diocese de Hipona. Atividade fisiológica e política de igreja misturam-se. Alguns líderes religiosos colocavam-se contra os desvios da Igreja. Para alguns a relação privada entre o homem e Deus era suficiente, sem intermediários. AGOSTINHO combateu em duas frentes repensando a encarnação do Filho de Deus e propondo um congresso com os dissidentes Não havendo consenso recorre à repressão do braço secular... O diálogo tem limites, além dos quais simplesmente impera a força. Em seu livro CONFISSÕES, relata a fé na existência das coisas e a fé na existência de Deus... Quanto mais o conhecer se torna verdadeiro, mais se aproxima da verdade, do Verbo divino, por conseguinte mais próximo estará da inefabilidade do todo. O que se diz de Deus não é mais finito. Se Deus é grande... tudo o que se disser dele é dito na universalidade, na generalidade máxima...  A figura mediadora do Filho é o Verbo... Se Deus cria o mundo por sua palavra, por seu Verbo, esse verbo se dá como total permanência e presença... A eternidade é a essência da Verdade. A razão humana é igual aos sintomas da divindade. Adão foi o homem que nomeia os animais terrestres e as aves, que lhe foram apresentados por Deus. Para ele importa a bipolaridade entre o Bem e o Mal, que por sua vez reflete apenas a monopolaridade do Verdadeiro. O FALSO traz consigo a marca do PECADO.  Do mestre é uma obra de Agostinho que dialoga com seu filho Adeodato, Filho de seu pecado... Não se entenda essa denominação com rejeição ao filho ilegítimo, mas simplesmente como uma forma de exprimir que todo o talento dele vem de Deus. Paulo coloca a Verdade como limite e o sentido profundo da investigação racional: Deus encarnado tem no homem o seu templo, Cristo habita o homem interior de sorte que essa Verdade interiorizada vem a ser o último critério do conhecimento. A exterioridade da linguagem e das ações se interioriza até encontrar Deus revelado e encarnado, cuja imagem inscrita na alma se apresenta por fim como o mestre absoluto de todo conhecer. Pg.187 Aristóteles dizia que as coisas homônimas são as que têm o mesmo nome que serve para identificar essências diferentes. (sujinho – sujo e sujinho, nome de restaurante). Para Agostinho a menção nominaliza. As ideias na alma humana são essências na medida em que foram criadas à semelhança dos pensamentos de Deus, constituem regras do conhecimento, critérios do Bem e do Mal, do verdadeiro e do falso, na medida em que se ligam à vontade humana de conhecer. Esta, no fundo, é nossa vontade divina de nos conhecer a nós mesmos e de conhecer Deus... A luz da verdade se encontra na alma. No mito da CAVERNA DE PLATÃO, os homens abandonam o fascínio da imagem e se voltam para a luz porque assim o querem. Mas essa vontade é um agir de acordo consigo mesmo, um atuar de bom grado... A transgressão moral nasce da falta de conhecimento.  A CRIAÇÃO altera esse cenário. O pecado conduziria à morte eterna se Cristo não se encarnasse para a remissão dos pecados. O mal se origina no livre-arbítrio. Deus é o mestre absoluto, assim termina o diálogo orientado pelos sábios. (isso, entretanto foi uma pena na minha visão, as duas coisas poderiam coexistir como hoje). Com a confissão você se analisa e tenta chegar ao Bem. (Acho que não é necessário ter um intermediário para se analisar um pecado). Agostinho foi uma criança e jovem normal, com todas suas falhas e acertos. Assim como todas as coisas são levadas por seus pesos a ocupar lugares naturais, cada um de nós é levado pelo amor residente em nós mesmos. A oração é a conversa com a divindade. A TRINDADE operou simultaneamente a vontade do Pai, a carne do Filho e a pomba o Espírito Santo. O TEMPO marca uma das dimensões da miséria humana, mas, quanto mais compreendemos seus limites, mais nos aproximamos do caminho que nos libera dela. A busca da natureza do tempo deságua na procura do “conhecimento” de Deus. A ciência se encaminha para a teologia... Embora Agostinho se aproxime de Platão, o fato da encarnação transforma seu platonismo ...num modo de pensar em que o Verbo encarnado é, ao mesmo tempo, norma e caso: o Cristo visível, corporal e falante, é também invisível e eterno. Deus é o “é” por excelência, como o Bem é o Bem de todos os bens. Em 140 Alarico invade e saqueia Roma. O antigo império treme... Não seria porque abandonou os antigos deuses do paganismo? ...O império que cada um carregaria consigo se fosse sábio, se converte na comunidade de todos aqueles seres humanos que, renunciando aos pecados se integram na comunidade, na comunhão com Deus. Distingue a cidade humana da divina, onde, pela primeira vez no Mediterrâneo todos os seres humanos, convertidos ou pagãos, possuem o mesmo título de cidadania. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARTE II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NIETZCHE é o primeiro filósofo anticristão. A filosofia requer a simples busca pela verdade... Ele vem retirar o tapete por onde temos andado... Ele parece apostar todo o peso de seu pensamento na noção de vontade... o jogo da vontade depende de um processo de nomear onde a palavra-nome funciona essencialmente como representação... sua teoria é representativa, pois nome é imagem... Para ele o conhecimento é determinado por um impulso, que encontra na vida sua fonte e sua medida... equilibrações que resultam do jogo de indivíduos mais fortes com os mais fracos. O europeu havia se encantado com o niilismo pela exaltação da vita beata, plena entrega à contemplação do eterno... Tivemos a crise da modernidade... Em vez do princípio da razão suficiente, temos o fluxo vital.  A verdade tem sentido porque corresponde a uma vontade, a uma afirmação de um ponto de vista... Porque não querer o falso? ... Daí a importância para nós de nos livrar das oposições entre verdadeiro e falso, bom e mau, que emparelham os dois valores como se estivessem num mesmo nível... O que está por trás da verdade? Wer- quem e Was - o que. Ele substitui o DESEJO de conhecer da alma humana pelo VALOR que o verdadeiro ou o falso tem para que o HOMEM venha se firmar enquanto tal SUPERANDO-se a si mesmo. VIDA firma-se como vontade de ir além, capaz de transformar até mesmo a MORTE num momento de autoafirmação. Diz quanto à doença: fiz de minha vontade de saúde, de vida, minha filosofia... Pg 212... a vida no fundo das coisas... é indestrutivamente poderosa e alegre... A falsidade se resolve numa codificação da mentira, numa lógica falsificadora... Note-se que qualquer unidade é CONCERTAÇÃO, isto é, jogo resultante de relações desiguais entre forças desiguais... A gênese da verdade se faz, portanto, antes do verdadeiro e do falso a operar no contexto do juízo... O QUE É A VERDADE? Um batalhão de metáforas... uma soma de relações humanas.... transportadas... após longo uso, parecem para um povo sólidas, canônicas:... as verdades são ilusões, metáforas que se tornam gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie.... entram em consideração como metal, não mais como moedas... O mais forte aceita a existência do mais fraco na medida em que dele precisa para continuar a exercer sua potência... Graças a esses níveis de equilibração das imagens, as coisas ganham unidade, mas somente os mais fortes é que têm o direito de nomeá-las. A estabilidade das coisas e palavras provém de um acúmulo de erros... benéficos para os homens; estabilidade que os fortes e fracos aceitam para cada um exercer a potência que lhe cabe, sem que um anule o outro...(sobre a vontade)...a VONTADE não é pensada como faculdade capaz de fazer com que suas representações se transformem em regras criando seus casos, empuxo configurando coisas... Consiste apenas num fundo sem fundo, num quantum de potência se relacionando com outro quantum, vontade de usar da violência e de se precaver contra ela, que se apresenta para nós como pathos, cujas unificações, seguindo os moldes da criação artística e do estilo, vão permitir a aparente ordem do mundo e da linguagem... O pensamento racional é um interpretar segundo um esquema que não poderíamos abandonar... Pg. 225 Na base de toda crença está a sensação do agradável ou doloroso, em referência ao sujeito da sensação. Uma nova e terceira sensação, resultante das duas sensações singulares precedentes, é o JUÍZO em sua forma inferior... Sabemos que a SEMELHANÇA é vista como uma relação que junta duas coisas já existentes, enquanto a IGUALDADE indica uma coisa posta, em geral, mediante dois nomes diferentes. (Para Nietzsche não havia ARTE sem a condição filosófica da embriaguez (Rauch)... não há arte sem isso... A arte nos lembra a condição do vigor animal... “a arte nada mais pode ser do que a afirmação do mundo... Niilismo, mancha da vontade de potência, que herdamos dos ensinamentos de Sócrates e de seus discípulos décadents... a verdade e o conhecimento somente se fazem compreender completamente no nível das avaliações morais... Nietzsche não está negando a importância da gramática na vida cotidiana, apenas vê nela uma carapaça instituída pelo intelecto e pela imagem, que esconde as pulsões da vontade de potência... Nossa primeira dificuldade está em compreender como é possível pensamento sem gramática... Nietzsche nos serviu de fio condutor para ler alguns filósofos da antiguidade... O mundo que nos interessa é falso, isto é, não é um fato, mas uma fantasia e um ajuntamento de uma escassa soma de observações; ele é fluido... como uma falsidade que continuamente se desvia, que não se aproxima nunca da verdade, porque não há “verdade” alguma. O constante sobrepujar não é infinitamente linear, em virtude de uma desmedida entre o tempo infinito e a finitude da força... Considerar a existência como eterno retorno do mesmo? Cada ação haveria de se integrar num dos anéis do grande anel do eterno retorno do mesmo... O grande fato novo é a morte de Deus... Não é por isso que a religião desapareceu... os europeus continuam buscando divindades. Contra essa ilusão, Nietzsche transforma o profeta ZARATUSTRA (filósofo da observação dos astros) no mensageiro do eterno retorno do mesmo: “Pois teus animais bem sabem, Ó Zaratustra, quem tu és e tem de se tornar: vê ,tu és o mestre do eterno retorno – e esse é o teu destino!” (Assim falou Zaratustra). Nem mesmo Nietzsche deixa de sentir a presença do Deus morto.  Abatido pela loucura, assina sua cartas como “o Crucificado”. &lt;br /&gt;No século 19 os filósofos foram surpreendidos pela possibilidade de traduzir as regras lógicas em termos matemáticos... As ciências passavam por grande revolução... As MATEMÁTICAS lideram esse movimento.  O número diz o modo de uma sucessão existente... cada um se distinguindo do outro simplesmente por seu outro, no interior do conjunto, de uma classe determinada. Prepara, assim, um entendimento melhor da noção de função, isto é, de uma relação que liga um elemento de C a um ou mais elementos do mesmo C. E a noção de função é uma das chaves da álgebra e da aritmética modernas. Giuseppe Peano. São três os conceitos primitivos dessa aritmética: zero, número e sucessor. Zero é um número. O sucessor de um número é um número. Dois números nunca têm o mesmo sucessor. Zero não é sucessor de nenhum número. Toda propriedade que pertença a zero e ao sucessor de um número que tenha a mesma propriedade pertencerá a todos os números... A lógica passa a ser ciência, no moderno sentido da palavra, pois ganha um domínio próprio a ser focalizado... As leis naturais são o que há de geral no acontecer natural, às quais este sempre se conforma... Das leis do ser verdadeiro extraem-se então prescrições que devem ser acatadas e com as quais o acontecer nem sempre se põe de acordo. Quando falamos de leis morais e políticas, entendemos prescrições que devem ser acatadas... As leis naturais são o que há de geral no acontecer natural, às quais este sempre se conforma... Das leis do ser verdadeiro extraem-se então prescrições para tomar como verdadeiro o pensar, o julgar, o raciocinar. Pg. 251. Se uma proposição fosse verdadeira apenas para aqueles que a tomam por verdadeira, nada impediria que fosse falsa para outros. A oposição entre verdade e falsidade se converteria, assim, numa questão de gosto... para Frege que procura circunscrever uma área de objetos verdadeiros, os pensamentos, ela (a lógica) é a ciência das ciências.  Frege pgs. 254 a258. Em 1910 Bertrand Russel publica com Alfred Whitehead o primeiro volume dos Principia Mathematica... que apresenta a primeira tentativa  de expor a nova lógica... A linguagem é uma forma de experiência e, quando se altera uma forma de vida, uma nova linguagem precisa se composta e experimentada. Não foi o que aconteceu quando o Ocidente se tornou cristão? &lt;br /&gt;A filosofia será substituída pela lógica da ciência – pela análise lógica dos conceitos e das sentenças das ciências, pois a lógica nada mais é do que a sintaxe lógica da linguagem das ciências. (A lógica será uma ciência formal exata expurgada dos problemas metafísicos). (A partir dos anos 30 surgem novas lógicas como as teorias das deduções naturais, outras escapando dela)... São lógicas não clássicas. &lt;br /&gt;Em 1891, Edmund Husserl publica Filosofia da Aritmética, investigações psicológicas e lógicas e recebe duras críticas de Gottlob Frege...  Ato e objeto, na nova linguagem: noesis e noema conformam uma unidade indissolúvel, cabendo à filosofia, entendida como pura descrição de tais fenômenos, fenomenologia pura, examinar como se entremeiam. FENOMENOLOGIA trata dos acontecimentos da consciência de um ponto de vista em que esses acontecimentos se mostram necessários e independentes de uma certa experiência. A lógica se transforma na teoria dos objetos puros, isto é, na descrição pura de tais objetos e dos atos que os configuram com tal. Pg. 269 A PERCEPÇÃO é o ato mais simples da apresentação das coisas... Mas toda coisa percebida tem algo que lhe é o ser próprio; a sua INDIVIDUALIDADE... Pg. 270 A ciência é... trama de conhecimentos fundados em princípios evidentes.  O SOCIALISMO... se transformaria em técnica predisposta a dominar o mundo... Vivemos assim naturalmente habitando o mundo existente em suas várias dimensões: natural, social, cultural e assim por diante... (DÚVIDAS) O que acontece quando duvidamos? Não estamos suspendendo a crença...? Ao duvidar... estamos duvidando de seu ser homem ou bicho, perguntamos por sua identidade. Essa descrença não chega a suspender a crença na existência... pomos apenas em xeque a tese dessa existência. Para DESCARTES a dúvida é procedimento metodológico... “Penso, logo existo”.  Husserl parte da constatação de ser impossível duvidar de tudo. Pg.284... O recolhimento de si: a identidade do próprio Eu... Daí a importância do tempo, na constituição do eu, na consolidação de minhas vivências, de minhas cogitationes. O tempo é a primeira dimensão formal de todo ente... Não sou um polo de identidade vazia.&lt;br /&gt;Martin HEIDEGGER é controvertido no pensar de nas posições políticas. Linguagem intrincada... Ele se comprometeu com o nazismo... Engajou-se no movimento até se decepcionar porque não era tão radical como pensava. Aproximou filosofia de poesia, abandonado a tradição grega... (Seus trabalhos se relacionam com os problemas lógicos dos filósofos do inicio do século 20). (Rompeu com o catolicismo e se dedicou à filosofia). Em Husserl, a consciência do tempo assegura a unidade da consciência pura doadora de sentido... o próprio ser que se temporaliza e se historializa para o ente homem. (Ser e tempo são uma unidade absoluta). Ele não se interessa pelo novo cálculo lógico... chegando a tomá-lo... como sintoma da decadência do Ocidente, exemplo de um modo de considerar o ente exclusivamente pelo viés da calculabilidade. Em Heideger o ser é um gênero universal cobrindo todos os entes, não é tomado como fundamento, nem mesmo é sinônimo de Deus... o ser se resolve de maneira temporal... o próprio ser se historializa. Pg. 303-304. Heidegger não se reconhece no existencialismo de Sartre... fazendo da existência o fulcro (sustentáculo-apoio) da análise da essência. (Kant  refutava a prova  da existência de Deus, concebida pelo filósofo medieval Anselmo de Cantuária)... Caracteriza a existência humana estar se jogando entre os entes, isto é, no mundo... Perguntar-se pela existência do mundo exterior é, para Heidegger, um contrassenso, pois o ato existente do perguntar já implica estar junto ao mundo... Dasein  (ser) e mundo são determinações que se completam. A existência só pode ser decidida e esclarecida pelo próprio Dasein. Heidegger escreve: A substância do homem é a existência (Existenz)... não é possível suspender a tese do mundo, porque o homem sempre está nele... está sempre com os outros, sem que isso obscureça a determinação de que o SER, sempre em jogo, seja MEU SER.  Pg. 316-317. O Dasein decai (verfallen). Mas Heidegger recusa explicitamente ligar essa queda com o pecado. O pensamento teórico retirou o colorido do mundo, suas múltiplas dimensões existenciais... Espinoza dizia que a respeito das coisas humanas é preciso, em vez de enaltecer ou ridicularizar, sobretudo ENTENDER... Furcht-Medo Quando a coisa, o instrumento ou o outro, aparecem quebrados, quando uma con-juntura e uma sintonia se rompem, aparece o medo. Pg.329 Angst-Angústia quebra a familiaridade com o mundo e puxa o ser humano para si mesmo sem detectar aquilo que o está apavorando. Ela coloca em questão o próprio estar no mundo... a vontade e desejo se enraízam ontologicamente na cura...quanto à vontade,... ela sempre se reporta a algo desejado que revela para o Dasein (ser), assim, se conecta a uma estrutura significante...Por isso mesmo... percebe-se como está fundada no existencial mais geral da cura. (cura, vontade e desejo). A MORTE desvela-se como a possibilidade mais própria, irremissível, insuperável. Como tal ela é um independente privilegiado. Se não fossem as circunstâncias da vida cotidiana, estaríamos sempre presenciando a morte como o término da vida...  (TEMPO) Como entender... o “antes” e o “depois”? Para Husserl, o “agora” se estende conforme vai antecipando o agora futuro e retém o agora passado. Quando olhamos no relógio... nossa temporalidade no mundo, pois agora ainda tenho tempo para chegar à aula... O agora marca o tempo como oportuno, disponível, ou inoportuno, indisponível...  O tempo lido no relógio é sempre um tempo que revela uma falta de tempo, um contratempo (UNZEIT) e... está intrinsecamente ligado a um temporalização do mundo.  (tempo que revela falta de tempo). A con-juntura fundadora da linguagem vem sempre temporalizada, cobrindo o mundo dos manejáveis com o manto da oportunidade ou da inoportunidade das ações humanas... O agora do nascimento de Cristo demarca nosso calendário... antes desse nascimento, depois desse nascimento até um determinado momento... (origem do tempo)... temporalidade existencial do próprio Dasein, no modo pelo qual ele se temporaliza... ele chega a si mesmo na unidade respectiva da projeção para o futuro... ao se projetar para o futuro, ele se afasta de sim mesmo e como tal EXISTE.  &lt;br /&gt;WITTGENSTEIN e Heidegger, para o autor desse livro, formam os dois maiores filósofos do século 20. Wittegenstein pretendia resolver de vez a verdade como adequação da proposição à coisa e assim expulsar a metafísica do quadro das ciências bem-comportadas. O sentimento do mundo como totalidade limitada é o sentimento místico. A metafísica tradicional mergulha no místico. O livro Tractus se inicia como aforismo “O mundo é tudo o que é o caso”. O conceito do mundo é transcendental, estabelece uma condição de existência para que as proposições tenham sentido... Os objetos constituem a substância do mundo... O sujeito só pode ser então limite do mundo, sujeito transcendental. Nessas condições sou meu mundo, mas o mundo é tudo o que sou. Deixarei apenas mencionado esse limite que cruza o máximo realismo com o máximo de idealismo... Em suma, o mundo deve então, com isso, tornar-se a rigor outro mundo. Deve, por assim dizer, minguar ou crescer como um todo. O mundo do feliz é um mundo diferente do mundo do infeliz. Aforismo de Tractus: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. (Wittgenstein termina sua tarefa, abandonando a filosofia, a universidade e volta para Viena dedicando-se à jardinagem, ao ensino primário e ao desenho). Lá nascera em 1899, numa família principesca, requintada, de origem judia, mas convertida ao protestantismo. (Frege o aconselha a ir para Cambridge e estudar com Bretand Russel, tornando-se seu grande amigo). Mas volta a Áustria para servir na Primeira Guerra Mundial. Trabalhou o Tractus até mesmo no front... Doa sua herança, conserva para si o suficiente para viver modestamente... aceita voltar para Cambridge... Ele sempre teve uma vida regrada, muito cioso de suas tarefas, muito amigo de seus poucos amigos. Sofreu forte influência do pessimismo de Schopenhauer, que lhe obrigava a enfrentar os dilemas da vontade e da representação. Atrás da figuração se encontram, pois, costumes ligados a formas de viver... as proposições necessitam mostrar como se entranham na vida cotidiana, de sorte que a própria lógica da matemática passa então a ser considerada como um sistema lingüístico no nível de outros sistemas formais... Na base dos sistemas formais está o uso de variáveis. “Isso se relaciona (ou se comporta) assim e assim.” Os novos escritores foram um mosaico de reflexões onde, às vezes, transparecem os filósofos com quem dialogam, em particular Schopenhauer, Platão, Aristóteles e Agostinho. Rompem com o cálculo lógico, passando a compreender a linguagem como um jogo... E um jogo não funciona melhor do que o outro porque é mais verdadeiro, mas porque satisfaz necessidades diversas... Um jogo de LINGUAGEM precisa ter seu Witz, seu sabor próprio, sua graça... “O conceito geral de significação das palavras envolve o funcionamento da linguagem com uma bruma que torna impossível a visão clara – dissipa-se a névoa quando estudamos os fenômenos da linguagem em espécies primitivas do seu emprego, nos quais se podem abranger claramente a finalidade e o funcionamento das palavras”. Cada jogo é ensinado. Gritar “pedra” e receber uma pedra passa a valer como uma regra do jogo que os agentes devem dominar. Em geral se aprendem jogos e formas de falar deles. Mas essas formas estão igualmente enraizadas em técnicas... A filosofia aparece quando a linguagem entra em férias, por isso a investigação se trava antes de tudo no nível gramatical...  pg. 367 Um jogo de linguagem é um pensamento. Aplicar suas regras é pensar... A gramática não cria o fato, mas que este apareça como caso ou não-caso depende dela... Um jogo de linguagem pode ser não-verbal, como exemplifica um jogo de sinais de trânsito, a música ou a pintura. Cada um desses jogos possui o seu tipo de verdade... A linguagem funciona demarcando terrenos do dizer. E, se os limites não são absolutos, não é por isso que tudo é relativo. Qualquer jogo de linguagem pretende PERSUADIR.  &lt;br /&gt;De um lado, Heideger encaixa todos os sistemas na longa duração do esquecimento do Ser; de outro Wittgenstein os considera como sistematizações apoiadas em erros gramaticais, cuja história, se houver, não diz respeito ao núcleo da filosofia como terapia da linguagem... A linguagem heideggeriana é evocativa, enquanto a linguagem wittgensteiniana se resume numa rede solta de perguntas e respostas à procura de erros gramaticais que, sendo sanados, passariam a conduzir o pensamento humano dentro de seus limites... A promessa de Marx escrever uma nova lógica dialética nunca foi cumprida... Bloqueados por essa crença, muitos deles cegos ao totalitarismo vigente na União Soviética e nos partidos comunistas, contribuíram para que o marxismo fosse caracterizado como o ópio dos intelectuais.&lt;br /&gt;“O poeta encontra uma pedra no meio do caminho, nós, que continuamos a estudar filosofia, encontramos um muro de pedras, que pode fechar ou abrir caminhos...”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-7006930125939092350?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/7006930125939092350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=7006930125939092350' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7006930125939092350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7006930125939092350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2011/10/licoes-de-filosofia-primeira-de-j.html' title='LIÇÕES DE FILOSOFIA PRIMEIRA DE J. A GIANNOTTI'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-Twu2dZSYq2E/Tpxijc0CGEI/AAAAAAAADeM/OXQLKyLVX8o/s72-c/giannotti4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-7676495279618641861</id><published>2011-10-17T11:17:00.008-02:00</published><updated>2011-10-17T15:08:55.452-02:00</updated><title type='text'>THE DUKE'S CHILDREN DE ANTHONY TROLLOPE</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-77HssEcBKPI/Tpwr5EMIuCI/AAAAAAAADeA/T7EGC9Pnp64/s1600/aa57.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 264px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-77HssEcBKPI/Tpwr5EMIuCI/AAAAAAAADeA/T7EGC9Pnp64/s400/aa57.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664450690702424098" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-gyZtru4J58c/TpwryMK1sUI/AAAAAAAADd0/4qcgWHIfnHk/s1600/original_164_I_do_not_choose_that_th.gif"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 259px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-gyZtru4J58c/TpwryMK1sUI/AAAAAAAADd0/4qcgWHIfnHk/s400/original_164_I_do_not_choose_that_th.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664450572585382210" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-vS85xDxZInQ/TpwrpvRoXiI/AAAAAAAADdo/wVatBFLlv-g/s1600/original_65_Lady_Ongar_and_Florence.gif"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 256px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-vS85xDxZInQ/TpwrpvRoXiI/AAAAAAAADdo/wVatBFLlv-g/s400/original_65_Lady_Ongar_and_Florence.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664450427390287394" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Q7M9CA_j1f0/Tpwrjuv--MI/AAAAAAAADdc/BAEoHSz3-wA/s1600/original_40_She_managed_to_carry_her.gif"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 236px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-Q7M9CA_j1f0/Tpwrjuv--MI/AAAAAAAADdc/BAEoHSz3-wA/s400/original_40_She_managed_to_carry_her.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664450324169947330" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-VrFmLRxVcCQ/Tpwrc7mw2BI/AAAAAAAADdQ/dF7CzTkXaKI/s1600/hkhwr1.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 258px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-VrFmLRxVcCQ/Tpwrc7mw2BI/AAAAAAAADdQ/dF7CzTkXaKI/s400/hkhwr1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664450207361849362" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-8TptFePnKaE/TpwrSQIJJGI/AAAAAAAADdE/b4mTOTkEMIo/s1600/books.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 128px; height: 186px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-8TptFePnKaE/TpwrSQIJJGI/AAAAAAAADdE/b4mTOTkEMIo/s400/books.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664450023892001890" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;THE PALLISERS&lt;br /&gt;ANTHONY TROLLOPE&lt;br /&gt;THE DUKE’S CHILDREN&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antony Trollope nasceu em Londres, Inglaterra, no ano de 1815. Era filho de um barrister (advogado representativo) e de uma prolífica escritora, Frances. Aos 19 anos foi trabalhar no correio até galgar o posto mais alto.  Além de escrever novelas, a ele é creditado a invenção britânica Pillar Box (caixa postal). Sua primeira novela foi publicada em 1847 e a famosa série The Warden, em 1855. Na brilhante série de novelas políticas, The Pallisers, ele encontra seu personagem favorito, Plantagenet Palliser, Duque de Omnium e Primeiro Ministro da Inglaterra por três anos. &lt;br /&gt;Essa maravilhosa novela da época vitoriana é a última da série, porém todos os livros podem ser lidos separadamente sem que percamos o significado do todo.&lt;br /&gt;Plantagenet Palliser, Duque de Omnium e ex-Primeiro Ministro da Inglaterra por três anos, encontra-se viúvo. Sua mulher, Lady Glencora, morrera subitamente e era o personagem mais surpreendente da série. O duque está arrasado, pois deixara a educação dos filhos inteiramente aos cuidados de sua mulher, uma vez que sua vida era, na verdade, a política. Os dois rapazes mais velhos estão na casa dos vinte e poucos anos (Conde de Silverbridge, o mais velho e Lord Gerald Palliser). Lady Mary, a caçula está com 19 anos.  Esse homem que pouco convivia com os filhos, que para ele eram quase estranhos, está agora com a incumbência de guiá-los para a vida adulta. Sendo um homem íntegro, justo e nobre não sabe como lidar com os anseios modernos de seus filhos. Ele tivera uma adolescência e vida adulta inalterável, sempre seguindo os valores da aristocracia e da justiça com as pessoas comuns. Sua mulher, muito mais arrojada e sonhadora, pouco conseguira mudar seu marido, a quem admirava e respeitava. Lady Mary está totalmente apaixonada por um jovem plebeu, Tregear, que apesar de ter conseguido uma cadeira no Parlamento, não é aceito pelo Duque, não por falta de qualidades admiradas por Lady Glencora quando viva, mas pelo fato de ser uma pessoa comum e sem dinheiro e ter tido a ousadia de pedir a mão de sua filha em casamento. Os dois sofrerão até o fim da novela para serem compreendidos. Muito mais interessante é o comportamento de seus filhos, que apesar de riquíssimos e nobres se envolvem com pessoas sem caráter e em jogos de cartas, corridas de cavalo e caça desenfreada, como se esses fatos fossem toda a razão de suas vidas. Ambos não são alunos brilhantes e querem seguir um destino escolhido por eles, assim como a irmã que não se casará com ninguém mais a não ser com o amor de sua vida. O que mais entristece o Duque é não ter conseguido passar seus valores centenários aos filhos. Eles jamais poderiam querer ganhar dinheiro de forma ilícita, em jogos, tirando dinheiro do bolso de quem tinha pouco. Seus milhões não lhe importam que paguem por essas pequenas fortunas perdidas, mas é a atitude mesquinha que mais o enfurece. Conde de Silverbridge entra para a política no partido Conservador, o mesmo de Tregear, sendo que a família havia sido Liberal por gerações seguidas. Além disso, apaixona-se por uma americana e quer se casar com ela. Todas essas dificuldades serão resolvidas de alguma maneira, mas o melhor da novela é como ele terá de começar um doloroso trabalho de autoconhecimento e de abertura para o qual não se encontra preparado. Seu caráter e sua rigidez com relação a casamentos mistos são muito cristalizados para que ele abra mão dessa prerrogativa milenar. Claro que aceita como amigo ou oponente um plebeu, mas isso nunca poderia ultrapassar as barreiras que enfraquecessem o sangue real. É uma novela belíssima, com a característica do escritor de conversar com o leitor e colocá-lo ciente de coisas já ditas e talvez não memorizadas, de arquitetar um espaço para que possamos usufruir de seu lado de comédia e encantamento. As posições políticas são muito bem descritas, sem terem, todavia, nenhuma prioridade, assim como os encontros nas caçadas, nos bares londrinos de endinheirados ou nos bastidores do Hipódromo e do Parlamento. É um livro afetuoso e de grande substância psicológica.&lt;br /&gt;Sua primeira publicação foi em 1880 e é o sexto e último da série.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-7676495279618641861?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/7676495279618641861/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=7676495279618641861' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7676495279618641861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7676495279618641861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2011/10/os-pallisers-de-anthony-trollope.html' title='THE DUKE&apos;S CHILDREN DE ANTHONY TROLLOPE'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-77HssEcBKPI/Tpwr5EMIuCI/AAAAAAAADeA/T7EGC9Pnp64/s72-c/aa57.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-5835595184519667398</id><published>2011-06-09T14:34:00.001-03:00</published><updated>2011-06-09T14:36:23.335-03:00</updated><title type='text'>O CRIME DO PADRE AMARO - (1875)</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-i6RHuQCFDQg/TfEEY3plzLI/AAAAAAAAC_k/Hxx1M5CnlSI/s1600/404PX-%257E1.JPG"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 269px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-i6RHuQCFDQg/TfEEY3plzLI/AAAAAAAAC_k/Hxx1M5CnlSI/s400/404PX-%257E1.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5616275035609484466" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EÇA DE QUEIROZ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse espetacular romance realista do século dezenove, escrito por um dos maiores expoentes da língua portuguesa, nos traz muitas surpresas. A começar pelo estilo e sua narrativa. Trata-se de uma ácida crítica ao clero (em especial ao celibato), ao regime governamental da época e à hipocrisia humana, especialmente entre religiosos, beatos, governantes e seus seguidores. É um romance que desperta interesse mesmo nos dias de hoje. Eça apossa-se de dois personagens frágeis, o padre Amaro e a menina Amélia, para, em torno deles, desenhar a cultura portuguesa, em detalhes, e seu efeito nefasto sobre seus cidadãos. Amaro Vieira era um garoto pobre, nascido em Lisboa, filho de criados de um marquês. Cedo fica sob a tutela da marquesa viúva e é criado em um ambiente muito religioso e feminino. Sem vocação nenhuma para o clérigo, é obrigado a seguir esse caminho, mas nunca se conformará com ele, pois é como uma prisão em que não se pode ser livre. Chega à cidade de Leiria ainda jovem, bonito e inteligente, para substituir o pároco que morrera. Fora uma promoção ajudada por pessoas influentes. A cidade se encanta por Amaro, que passa a freqüentar a Rua da Misericórdia com seus convidados importantes, onde uma família o recebe como hospede. Sra. Joaneira, sua locadora, tem uma filha muito jovem, criada em um ambiente estritamente religioso e sem parâmetros com a realidade, pois vivia cercada de mulheres idosas e padres. Amélia apaixona-se por Amaro e é correspondida. A partir desse momento começam as dúvidas de consciência e retidão para ambos. Amaro, contudo, percebe que o clero não segue sua doutrina e suas regras, mas beneficia-se delas sem nenhum escrúpulo. Amélia também é atingida pelas mesmas angústias, mas ainda tem o trunfo de não ser uma religiosa e poder delinear, até certo limite, seus desejos sexuais. Desenrola-se entre eles um amor, ou melhor, um desejo implacável, que os faz perder a medida das situações e a se exporem desnecessariamente aos mexericos da cidade.  Permeando os fatos que ocorrem, Eça de Queiroz pincela com cores muito fortes o pensamento retrógado e individualista do clero e do poder português, permitindo que ora nos indignemos e ora gargalhemos pela comicidade das teorias absurdas para explicar esses atos à sociedade e a si mesmos.  Amaro, com o convívio delituoso dos padres, vai se tornando uma vítima da situação que fora obrigado a seguir. O pároco transforma-se em um homem totalmente inescrupuloso, causando a perda e o fim da jovem Amélia, desprovida de preparo para encarar uma situação tão dramática quanto a que acaba se envolvendo. Seu despreparo para o mundo faz com que ela trilhe um caminho que não poderá suportar. Os aristocratas, políticos, sacerdotes e burgueses configuram um quadro de decadência e ruptura com a modernidade e a democracia. Podemos, em vários trechos, espelharmo-nos na sociedade portuguesa daquele século e descobrirmos a razão de certos hábitos ainda persistentes em nosso meio. Segue alguns trechos do livro – (Amaro e Amélia passariam a se encontrar com ajuda de um sineiro e um padre) 1- “Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas horas, de modo que as suas visitas caridosas à paralítica perfizessem ao fim do mês o número simbólico de sete, que devia corresponder, na idéia das devotas, às “Sete Lições de Maria”. 2 - “Foi aquele o período mais feliz da vida de Amaro. “Ando na Graça de Deus” pensava ele às vezes à noite, ao despir-se...” 3- (Amélia)  “Ajoelhava-se então aos pés da cama, arremessava orações sem fim para Nossa Senhora das Dores, pedindo que a alumiasse... Mas Nossa Senhora não respondia. Não sentia como outrora descer do Céu às suas orações... Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos santos.” 4- “Que é isso padre-mestre?” Ele responde a Amaro: “É a maroteira das maroteiras! É a infâmia!... O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!  5- (Senhora Joaneira, amante do cônego, dizendo que o reino de Deus era dos pobres) Responde o cônego: “Não, antes dos ricos... Que o céu é para os ricos; A Senhora não compreende o preceito Beati pauperes, bendito os pobres... quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que têm... sob pena de não serem benditos.” 6- “Aquela paixão, em que estava abismada e que a saturava, tornara-a estúpida e obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor pároco ou ao seu amor.” 7- “Diabos levem as mulheres, e o Inferno as confunda! – disse surdamente Amaro” 8- “Vinha-lhe, agora, sob a impressão fúnebre que se exalava da casa, o pressentimento que morreria de parto... e ali ficava rezando, pedindo a Nossa Senhora que não lhe recusasse o Paraíso...” 9- “Havia de tratar Amélia como uma sombra e fugir-lhe para ser seguido... - E o resultado delicioso ali estava – três páginas de paixão, com manchas de lágrimas no papel.” 10- “Foi então que Gertrude apareceu comovida... – Ai senhor abade, pobre criaturinha! ... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que nisso tudo anda um pecado e um crime!... O abade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.” 11- “Nos fins de maio de 1871 havia um grande alvoroço na Casa Havanesa, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam...  Tudo perdido! Tudo a arder!... Toda uma gralhada de vozes impressionadas, onde as palavras “Comunista! Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime! Internacional!” voltavam a cada momento, lançadas ao furor, entre o ruído das tipóias e os pregões dos garotos gritando “suplementos”... os episódios sucessivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris.” “O Chiado lamentava com indignação aquela ruína de Paris.” 12- “Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a vingança. Vadios pareciam furiosos “contra o operário que quer viver como príncipe”. Falava-se com devoção na propriedade, no capital.” 13-  “A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a Vossas Senhorias; mas enquanto neste país houver sacerdotes respeitáveis como Vossas Senhorias, Portugal há de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a Fé, meus senhores, é a base da ordem!”E assim, com muito humor e senso de realidade, Eça de Queiroz nos deleita com sua agudez e espírito de crítica inigualáveis.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eça de Queiroz (1845-1900) é considerado o maior romancista da prosa realista portuguesa e o mais popular do século XIX em Portugal. É uma referência em todo mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-5835595184519667398?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/5835595184519667398/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=5835595184519667398' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/5835595184519667398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/5835595184519667398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2011/06/o-crime-do-padre-amaro-1875.html' title='O CRIME DO PADRE AMARO - (1875)'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-i6RHuQCFDQg/TfEEY3plzLI/AAAAAAAAC_k/Hxx1M5CnlSI/s72-c/404PX-%257E1.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-3094694859692110833</id><published>2011-05-24T16:47:00.003-03:00</published><updated>2011-05-24T16:51:15.056-03:00</updated><title type='text'>GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-m8Jy7X3Y9Jo/TdwL_KFkSTI/AAAAAAAAC-Q/R3u-6q9dnPA/s1600/231822-630x495.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-m8Jy7X3Y9Jo/TdwL_KFkSTI/AAAAAAAAC-Q/R3u-6q9dnPA/s400/231822-630x495.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5610372415464163634" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE LEANDRO NARLOCH&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os jesuítas tentaram evangelizar os índios em 1646, no Rio de Janeiro, não obtiveram sucesso porque os engenhos produziam vinho e aguardente com os quais eles se embebedavam, causando graves problemas. Os religiosos mudaram as três aldeias para mais longe, contudo ao perceberem o embuste, índios e fazendeiros, juntos, incendiaram as cabanas dos padres. Índios e brancos gostavam do convívio mútuo. Os indígenas preferiam as vilas às escolas pela liberdade dada a seus vícios e, por sua vez, os portugueses gostavam de se misturarem aos índios nas aldeias, participando de seus hábitos nas festas, vestimentas e tendo diversas mulheres. “Em 1583... o conselho municipal de São Paulo proibiu os colonos de participarem de festas dos índios...” Estudos mais atuais comprovam que os últimos, em número infinitamente maior, muitas vezes tinham suas vontades aceitas pelos portugueses que precisavam de proteção. Os indígenas apreciavam o convívio com os brancos para usufruir a nova civilização, mas não eram acumuladores de valores. Grandes guerreiros e, em número muito maior, assustavam os invasores que precisaram fazer um grande esforço para conquistar-lhes a confiança.  Os índios da família linguística tupi-guarani eram originários da Amazônia e foram descendo para o Sul, provavelmente por alguma catástrofe ambiental. Na virada do primeiro século iam expulsando e exterminado os inimigos até chegarem a São Paulo. Em 1500, se espalharam de São Paulo à Amazônia e Nordeste. No território brasileiro atual, calcula-se que viviam de um milhão a 3,5 milhões de pessoas, divididas em 200 culturas. Um índio de uma determinada família considerava os outros tão estrangeiros quanto os portugueses e a idéia de assassinato e canibalismo não tinha a conotação cristã de pecado; muito ao contrário, demonstrava um ato nobre para suas crenças. A guerra fazia parte do calendário das tribos. “Sobretudo os índios tupis eram obcecados pela guerra.” Acreditavam assumir os poderes e perspectiva do morto, ou quanto mais forte o inimigo, mais direito a ter diversas esposas. Com relação às bandeiras, imagina-se que a influência indígena foi mais determinante do que a européia no seu modelo militar. Bandeirantes paulistas poderiam ser mestiços de primeira geração, pois tinham seus parentes mais próximos criados nas aldeias e pareciam mais índios do que europeus.  “Seus líderes estavam interessados na parceria para derrotar outras tribos” percebeu padre José de Anchieta em 1565. A longa guerra dos Tamoios foi um bom exemplo de índios exterminando índios, em 1556 a 1567. Eles ganhavam posições privilegiadas como colaboradores dos portugueses, tornando-se os índios coloniais, um personagem pouco estudado. Os índios que fossem escravizados por fazendeiros podiam requerer à liberdade, entrando na justiça, e ganhavam. Sua escravidão tinha sido proibida em 1680 pelo rei D. Pedro II de Portugal. Isso prova a “presença inegável dos índios nos sertões e nas vilas durante todo o período colonial, demonstrando, portanto, que eles jamais foram extintos, como afirmou a historiografia tradicional.” Na década de 1750 expulsaram os jesuítas do país. Até a chegada dos europeus, os índios não conheciam a tecnologia e a domesticação dos animais. Ao verem uma galinha ficaram apavorados. Permaneciam aquém da Idade do Ferro e Bronze e não conheciam nem mesmo a roda. A vinda dos europeus abriu-lhes significativos avanços. “Eles são na verdade heróis do povoamento humano no fim do mundo, a América, o último continente da Terra a abrigar o homem.” No início, a humanidade em sua caminhada seguiu para o norte da África, depois contornaram o Mediterrâneo, encontraram-se no Oriente Médio. Alguns foram para a península Ibérica, outros para a Ásia.  Acabando a era do Gelo viram-se separados por um grande oceano e já estavam na América, sem perceber. “Foi assim que chegaram ao Brasil, cerca de 15 mil anos atrás.” Isso ocasionou um isolamento cultural, diferente da comunicação entre europeus, asiáticos e africanos, pois o encontro desses povos ajudou na disseminação da tecnologia. Com a chegada dos portugueses o isolamento total desapareceu e “ao todo, foram 6500 anos de migração e melhoramento genético oferecidos aos índios brasileiros.” Plantas que são símbolos nacionais, na verdade vieram com os portugueses, que aqui encontraram um bom solo para plantá-las.  Jaca, banana, laranja, limão manga, carambola, graviola, inhame, maçã, abacate, café, tangerina, arroz, uva e até mesmo o coco não havia no Brasil! Tudo isso, mais a domesticação e introdução de muitos animais tornaram a vida mais fácil e enriquecida. Quando o cavalo chegou ao Brasil era muito mais evoluído do que nos seus primórdios. “Os índios ficaram estupefatos.” No século dezoito montavam os animais a pelo e, com lanças, tornaram-se grandes guerreiros, chegando a auxiliar o Brasil na Guerra do Paraguai. O cão que lembrava o lobo-guará, arredio, foi o grande encantamento. O cachorro, no século dezesseis, já havia sido treinado para o pastoreio, caça e guarda e os índios beneficiaram-se muito com isso. Tornaram-se amigos inseparáveis. O poder do fogo foi importantíssimo tanto para os índios quanto para os portugueses. A floresta era o pior inimigo dos índios pela sua densidade e quantidade de animais: grandes ou agressivos e pequenos - insetos, aranhas, formigas etc. Ainda hoje em dia, nas ocas, mantêm-se a fogueira acesa contra os insetos. Em quinhentos anos, algumas tribos indígenas foram responsáveis pelo desmatamento assim como o homem moderno. O fato do índio não acumular riquezas encantou os europeus, mas os primeiros não preservaram a natureza, quem o fez foi o europeu, no século dezesseis. O rei Manuel I proibiu a derrubada de árvores frutíferas em Portugal e suas colônias. Os habitantes da Ásia e África eram fisicamente mais fortes do que os portugueses e estes ao chegarem ao Brasil acreditaram que adoeceriam. Eles não possuíam defesas contra vírus e parasitas estrangeiros. Teresa Rodrigues narra que Lisboa sofreu crises de grande mortalidade provocadas por “epidemias importadas por via dos contatos marítimos e terrestres.” Todos os invasores estrangeiros que chegaram à América padeceram com essas doenças, espalhando-as pelo mundo. Os nobres europeus consumiam o tabaco brasileiro, desde suas primeiras exportações. Foi o segundo produto de exportação atrás apenas da cana-de-açúcar. Atualmente os bandeirantes são considerados quase malfeitores. Eram os mamelucos paulistas que viajavam sertão a fora em busca de ouro, pedras preciosas e índios. Antonio Raposo Tavares era o mais temido, no século dezessete, e acusado do extermínio e aprisionamento de mais de 100 mil além “da destruição de dezenas de aldeias jesuíticas.” Os padres, depois de perderem os índios para os paulistas, trataram de escrever cartas com relatos horríveis e falaciosos para a Europa.  Queriam lançar as autoridades européias contra os paulistas.  Em um livro de Jaime Cortesão ele diz: “O bandeirante utilizou a espada e o bacamarte. O jesuíta espanhol, se não desdenhou o bacamarte, serviu-se mais da intriga e da pena. E abriu feridas mais profundas; daquelas que levam séculos para fechar...” A divergência de número de mortos pelos bandeirantes indica que não houve um critério científico no trabalho. A língua falada em S. Paulo, antes do português, era a língua geral, uma mistura de dialetos indígenas. Somente no século dezoito, o português virou a língua oficial. Índios e mestiços se esforçavam para aprendê-lo. Domingos Jorge Velho mal falava a nossa língua. A maioria dos índios fugiu das missões por causa das regras cristãs muito duras e pelo cansaço. Os bandeirantes proporcionavam uma vida melhor perto da costa marítima. Tratava-se de revolta e não somente perda de confiança. Raposo Tavares, entre 1639 e 1642, percorreu uma distância imensa com seus homens. Foi à Bahia e Pernambuco ajudar na expulsão dos holandeses. De volta partiu para o norte do Paraguai, em 1648, com 1200 índios, mamelucos e brancos.  Chegaram à Amazônia peruana, por um desvio obrigatório. Navegaram pelos rios Mamoré, Madeira e Amazonas até Belém. Estavam seminus, famintos e sujos. Esses heróis enganavam a fome com formigas, gafanhotos e raízes. Conseguiram voltar em 1651, com 100 mil quilômetros de odisséia. Quando chegou, Raposo Tavares estava tão desfigurado, segundo Roberto Pompeu de Toledo, que “não foi reconhecido pelos parentes.” Alguns escravos, como José Francisco dos Santos (Zé Alfaiate,) voltaram à África depois de alforriados (cerca do ano de 1830). Tornaram-se traficantes de escravos. José passou a enviar para a América e Europa ouro, negros e azeite de dendê. Muito cruel ele marcava seus escravos com ferro incandescente. Chegou a ficar bem rico. Nessa época, atacar os inimigos e depois escravizá-los era prática comum na África. Em Minas Gerais e na Bahia isso também ocorria. Muitos negros africanos importantes e abastados, como reis, aqui se refugiavam e os filhos vinham estudar na Bahia. Na corrida do ouro em Minas Gerais e nas fazendas de tabaco da Bahia “era comum africanos ou descendentes escravizarem.” “Com os mais de quatro milhões de escravos que vieram forçados ao Brasil, veio também a África.” Eles não eram mais classificados como vítimas passivas. Isso já é um alento para seus descendentes. Eram “sujeitos da história, protagonistas da escravidão, ainda que não aquilombado, quando não cúmplice do cativeiro.” Zumbi, o herói, na verdade capturava escravos de fazendas vizinhas para trabalhar para ele na mesma condição de escravos. Sequestrava mulheres e executava quem quisesse fugir do quilombo. Viveu no século dezessete e na sua época isso não era imoral. De Angola e Congo veio a maioria dos africanos de Palmares, até o século dezenove. Com o Iluminismo, o sistema escravocrata começou a desmoronar e, na Inglaterra, os protestos populares contra isso foram determinantes. O quilombo tinha uma hierarquia rígida entre reis e servos, muito parecidos com o regime africano. Ganga Zumba, tio de Zumbi, foi o primeiro líder do maior quilombo brasileiro. Descendia de guerreiros muito temidos e moravam em vilarejos fortificados. A decisão de morar voluntariamente no quilombo era sem volta, não mais poderiam sair de lá. Apesar de todos esses fatos, Zumbi foi retratado por historiadores marxistas de maneira bem diferente, um representante de uma sociedade igualitária. No livro, Mulheres Negras do Brasil, estuda-se as mulheres livres de Minas Gerais, no século dezoito. Elas economizavam para comprar a própria alforria e em seguida compravam escravos para si mesmas. Com a corrida do ouro, milhares de pessoas buscavam fortuna, movimentando Mariana, Diamantina, Sabará, Vila Velha e Ouro Preto. Com mão de obra barata, essas escravas forras fizeram fortuna. Elas gozavam de uma liberdade e autonomia muito maior do que as brancas, por sua condição de independência do homem ou marido. A mais bem sucedida, com sete escravos, parcerias comerciais com políticos e empresários, foi Bárbara Gomes de Abreu e Lima, morando em um casarão em Sabará. “Em 1830, 43% das casas de negros livres tinham escravos.” Essas mulheres praticavam atos terríveis contra os seus irmãos, que marcaram a história. O pior era separar uma família e elas tinham esse hábito, quando lhes convinha. Na área rural, o número de negros e pardos escravocratas era bem menor. O fato de comprar negros significava que se havia subido na vida, tanto para brancos ou pretos. No Rio de Janeiro do século dezenove havia tantos negros, que o número impressionava os estrangeiros; parecia uma capital africana. Esse contingente assustava os senhores, pois em disputas jurídicas quase sempre levavam a melhor. Eram protegidos pela lei. Ter sido escravo não impedia a subida social de uma pessoa determinada. “Os brasileiros livres de cor não eram, definitivamente, um grupo isolado ou marginalizado, sem acesso aos recursos da economia de mercado”. Os ativistas do movimento negro, por vezes, preferem não relatar esses casos bem sucedidos. Isso só serviria para enaltecer os negros, tendo a certeza de que não eram somente vítimas sem recursos para se defenderem. Existiam, no Saara, filas enormes de escravos conduzidos pelo vendedor, também negro. Usavam forquilhas no pescoço e traziam carregamentos de marfim, ouro, algodão. Eram vendidos a reis árabes como trabalhadores forçados e as mulheres como concubinas. A escravidão era “um traço comum” nas culturas africanas. “Com a venda de escravos, alguns reinos africanos viraram impérios, como Kano, atual Nigéria. Entre 1500 e 1535, os portugueses precisavam de escravos para comprar ouro na África, pois era a moeda corrente para esse fim. Durante esse período adquiriram em torno de 10 mil escravos no golfo de Benin, para trocá-los pelo metal. Assim os portugueses aprenderam, na própria África, a vantagem da escravatura, “tornando-se escravistas”. Os africanos estavam ricos vendendo escravos para os povos árabes, mas lucraram ainda mais com o envio de negros pela costa atlântica. Trocavam pessoas por armas e aumentavam seus reinos e domínios. O rei controlava o preço dos escravos e, quando oportuno, fechava o país para os europeus. O reino de Daomé, atual Benin, foi um desses exemplos de império bem sucedido com essa prática. Para se comunicar com os portugueses, o rei negro usava escravos portugueses (chamado de meu branco). Esses intérpretes, escravizados por algum motivo, ajudavam os nobres africanos em negociações e viagens diplomáticas. Os diplomatas africanos eram recebidos com luxo em Portugal e no Brasil. Tratavam, principalmente, do monopólio de vendas aos portugueses e aqui se exilavam quando derrubados de seus poderes. Comentou Alberto da Costa e Silva: “Há quem pense que o interesse de alguns africanos na manutenção do tráfico era ainda maior do que o dos armadores de barcos negreiros ou dos senhores de engenhos e de plantações no continente americano.” Foi a Inglaterra que interferiu para romper o ciclo da troca de seres humanos por objetos, uma vergonha da humanidade.  “O ideal de liberdade dos negros... surgiu somente por causa dos protestos eufóricos e do poder autoritário dos ingleses.” O movimento abolicionista inglês tinha origem mais ideológica do que econômica, como alguns historiadores afirmam. Em 1787, foi organizado um movimento por 22 religiosos, homens comuns e mulheres defensoras do voto universal. Eles saiam batendo de porta em porta, com panfletos e abaixo-assinados. Os comitês arrecadavam fundos para a propaganda com discursos abolicionistas. As pessoas revoltadas com tal situação assinavam as petições apresentadas que chegaram, em 1833, ao número de 5000 e cada uma delas com centenas de milhares de assinaturas. “Esse radicalismo faria o tráfico de escravos ser extinto em 1807, forçando todo o Atlântico a tomar a mesma posição.” “Em 1787, um boicote dos abolicionistas ingleses ao açúcar feito por escravos conseguiu que 300 mil pessoas deixassem de consumi-lo na Inglaterra.”    &lt;br /&gt;Alguns escritores geniais defendiam, em sua juventude, causas sem embasamento algum e muitos, mesmo na velhice, perpetuaram seus erros. “as frutas pobres contam boas histórias sobre a época e a personalidade dos artistas – além de serem bem divertidas.” (Pg.114 do livro). Machado de Assis, por exemplo, aos vinte e seis anos era uma personalidade genial, respeitada e temida. José de Alencar dizia que ele “era o primeiro crítico brasileiro.” Ele dizia que “o teatro tinha um missão nacional, uma missão social e uma missão humana.” Machado foi nomeado censor do Conservatório pelo imperador D. Pedro II, tal a sua importância. Ele chegou a avaliar, entre 1862 e 1863, dezessete peças, proibindo três delas. O professor João Roberto de Faria, em um artigo, explica o critério de censura – “assuntos e expressões que ferissem o decoro” e “as contrárias à religião e às autoridades brasileiras.” Mas ele achava que deveria censurar também os textos de baixos níveis, assim foi “obrigado a aprovar várias peças em que não viu mérito literário algum.” Leandro Narloch cogita que, hoje em dia, Machado de Assis não seria nada mal, com tantos textos de baixo nível literário. José de Alencar era contra a abolição. Em 1867 publicou três cartas que defendiam a escravatura, as quais sumiram até 2008, quando foram descobertas.  Os motivos são simpáticos aos negros. Não os considerava uma raça inferior, como quase todos os seus pares. O senador Barreto de Vasconcelos, escravocrata, dizia que “A África civilizava o Brasil, portanto a imigração de negros africanos enriquecia a cultura brasileira.” José de Alencar via nisso “um potencial de crescimento e enriquecimento do país.” Nos negros, viu um grande potencial civilizatório e “sem a escravidão africana e o tráfico que a realizou, a América seria hoje um vasto deserto”. Dizia... “Desde as origens do mundo, o país centro de uma esplêndida civilização é, no seu apogeu, um mercado, na sua decadência, um produtor de escravos.” A partir daí discorre sobre as civilizações antigas. Jorge Amado, aos 28 anos, defendeu dois dos piores exterminadores da história mundial – Adolf Hitler e Josef Stálin, fazendo propaganda do nazismo já em 1940. Era redator de um jornal de propaganda nazista no Brasil, Meio Dia. O seu motivo era o pior de todos, “provavelmente financeiro”. Jorge tenta convencer Oswald de Andrade a escrever para os alemães, recusando 30 contos de réis. Isso surpreendeu o famoso baiano. Logo saiu do nazismo, mas continuou a venerar Stálin por mais 10 anos. Em O Mundo da Paz ele faz propaganda socialista louvando Stálin. Desse modo ficou famoso na União Soviética, contudo, em 1956, renegou a obra enaltecedora de Stálin. Até morrer apoiou o Nacionalismo e Regionalismo, chegando a adular o deputado nada eficaz, Antonio Carlos de Magalhães, no livro Navegação de Cabotagem. Graciliano Ramos, segundo Leandro, marcou um frango no futebol. Normalmente bons colunistas apontam tendências aos leitores, mas ele não acertou quanto a esse esporte. Em 1921, afirmou que o futebol não seria assimilável no Brasil, pois “não combinava com a personalidade bronca dos brasileiros.” Continuou, “Ora, parece-me que o football não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve.” Nos anos vinte o futebol era elitista assim como o turfe. Gilberto Freire, escritor de Casa Grande e Senzala, 1933, era, na verdade, um defensor do branqueamento do Brasil e contrário à mistura de raças. Esse antropólogo defendia essa questão como fizeram na Argentina. O livro mencionado foi uma mudança repentina para ele mesmo. Em sua defesa de tese na Universidade de Colúmbia, Estados Unidos, em 1922, elogiou os esforços dos cavalheiros da Ku Klux Klan americana. “Em 1964, quando sua dissertação foi republicada, os trechos condescendentes à KKK foram retirados. Nessa ocasião, Freyre divulgou o estudo como embrião de Casa Grande e Senzala. Ocorre que ele sentia falta da maneira aristocrática de viver. Adorava os hábitos sulistas (dos brancos) onde “havia lazer, havia fausto, havia escravos e havia maneiras gentis” antes de ser destruída pelo Norte industrial. Lamentava pela falta dos negros “fiéis”. Gregório de Matos, poeta barroco, apelidado de Boca do Inferno, por seus poemas satíricos contra a elite, teve a fama de um escritor libertino, o que não era. É-lhe atribuída a defesa dos escravos e pobres, mas não se sabe ao certo se são de sua autoria, pois a poesia barroca da época era de autoria coletiva. Assim tudo que falasse de baianidade foi atribuído a ele. A inovação que ele propôs seria reconhecida um século depois pelos poetas românticos. Alguns de seus poemas atacam os judeus e negros, principalmente os cristãos-novos. Desde 1591, a Bahia abrigava os agentes do Santo Ofício, os quais condenavam bruxas, homossexuais, judeus e hereges. Aqui não se usava a fogueira, mas outras punições cruéis. Os católicos de século 16 condenavam o banho na sexta-feiras, cruzar as pernas na igreja e ler a Bíblia em espanhol, prática luterana. As delações eram anônimas, facilitando essas ações. Euclides da Cunha, em 1909, ao saber que sua mulher, Anna, tivera um filho de seu jovem amante, Dilermando de Assis, campeão de tiro da Escola Militar, resolveu lavar sua honra. Pegou um revolver emprestado e encaminhou-se para a casa do jovem, desferindo-lhe três tiros, sendo que um atinge seu irmão. Contudo, Dilermando mesmo atingido pega sua arma e mata o grande escritor com apenas um tiro. Euclides, autor de Os Sertões, era um marido relapso que não se preocupava com a família. Isso faz com que Ana sinta-se solitária, abandonada e humilhada, decidindo ir morar com o amante. Entretanto esses fatos ainda são mal esclarecidos. Euclides lança Os Sertões, depois de testemunhar alguns fatos da Guerra de Canudos, Bahia. Seria consagrado com essa obra, descrevendo o sertanejo nordestino.  Em 1904, abandonando Anna e os filhos, partiu para a Amazônia, Acre, a fim de obter mais material para outro livro. Sua mulher, sem nenhum dinheiro ou casa, fica com o caçula em uma pensão barata do Rio e coloca os mais velhos em um colégio interno. “Euclides era um homem nervoso, temperamental, pouco generoso com a família.” O pai de Anna, major Sólon Ribeiro, reclamou-lhe da “forma estranha como tratas tua mulher e filhos.” Na pensão, Anna da Cunha conhece Dilermando de Assis, anos mais jovem do que ela, e se apaixonam. Viveram em paz por dois anos, até que Euclides chega do Acre. Ao descobrir a gravidez da mulher, ele começa um difícil período de agressões físicas e morais. Dando a luz, Anna é imediatamente separada do filho, não podendo amamentá-lo e, depois de uma semana, a pobre criança morre de inanição. Esse seria um assassinato bem sucedido. O irmão de Dilermando, atingido por ele na nuca, quando disparara seu revolver, fica paralisado e, em 1921, o jovem de 21 anos, deprimido, atira-se do cais de Porto Alegre e morre afogado. Segunda morte causada por suas ações. “O tempo e a fama de Euclides da Cunha apagaram essas sombrias relações familiares.” Enviado como repórter pelo atual Estado de São Paulo, para a Guerra de Canudos, não participa dela, mas mandava ao jornal notícias velhas e inverídicas. Ficou hospedado em Salvador, preparando sua expedição “a 30 quilômetros da guerra.” Mesmo ficando apenas duas semanas no campo de batalha, pode escrever Os Sertões, que foi reverenciado pela crítica e “ainda hoje é considerado um dos mais importantes do pensamento brasileiro.” Essa obra sempre foi difícil de ler pelas palavras complicadas, tempos parnasianos, termos científicos e frases muito longas.  “José Veríssimo, um dos críticos mais famosos daquele começo de século, elogiou o livro, mas alfinetou o estilo.” &lt;br /&gt;A origem do Carnaval cristão vem das festas pagãs da Roma antiga e da Idade Média. A inversão de papéis era aceita por um dia – os servos mandavam e os senhores obedeciam. Durante os primeiros carnavais no Brasil não havia tantas inversões de papéis. “Atiravam bolas de cera nos outros e faziam guerrinhas d’água pela rua.” Em 1832, Charles Darwin não gostou do que viu em Salvador. Considerou uma atitude indigna. Na época de Mussolini, os carnavais na Itália passaram a ser muito organizados e em filas, como um exército, exatamente como são hoje os desfiles das Escolas de Samba. Esse modelo foi copiado por Getúlio Vargas do líder italiano, pois sendo populista queria se misturar com o povo desse modo.  Vê-se então, que “a maioria das regras da apresentação moderna nasceu com o fascismo.” Em 1937, com Getúlio no poder, tornou-se obrigatório que os enredos homenageassem a história do Brasil. Primeiramente, os sambistas eram perseguidos pela polícia, pois ela reprimia as manifestações culturais dos negros. Depois disso, o governo observou que o samba fazia parte das festas dos ricos, mesmo antes dos desfiles das escolas de samba, resolvendo reconhecê-la como festa oficial. “Até mesmo em Portugal os músicos populares brasileiros eram bem recebidos.” O músico mulato “Caldas Barbosa encantou a corte de dona Maria I, a Louca, tocando lundus.” Os primeiros sambistas eram eruditos no quesito música e se inspiravam em estilos europeus e americanos. O samba atual dos morros cariocas é assunto mais recente que quase emudeceu as primeiras obras. Vianna em seu livro O Mistério do Samba diz: “Nunca existiu um samba pronto, “autêntico”, depois transformado em música nacional.” O samba não era folclórico. Pixinguinha e Donga, em 1917, registraram o primeiro samba brasileiro gravado. Começaram a tocar juntos em 1910, na casa da baiana Hilária Batista da Silva, tia Ciata, no centro do Rio.  O samba significava um evento e não uma canção e lembrava mais o maxixe. Em 1919 esses dois músicos criaram a banda Os Oito Batutas e se apresentavam na sala do Cine Palais. Os integrantes da banda tocavam piano, instrumentos de sopro e apresentavam-se elegantemente de terno e sapatos bem polidos. Pareciam mais um jazz band. Apresentava-se pelo mundo todo e quando a princesa Izabel se exilou com a família na França, tocaram para eles. Entre 1922 e 1923 apresentaram-se em uma boate parisiense, viajando em seguida para Buenos Aires. O flautista paulista, Sinhô, também era muito conceituado. Compôs valsas, maxixes, charleston, toadas e fados, acompanhado de orquestras. Sua marchinha Pé de Anjo foi um sucesso do carnaval de 1920. Assim foi até que o nacionalismo abraçou o Brasil. A imagem que os brasileiros tinham de sim mesmos era variável e insegura, pois fora alicerçada sob traumas. “Até a década de 1930, tudo aquilo que hoje achamos naturalmente brasileiro – o samba, a feijoada, a capoeira, o futebol – não eram ícones da identidade nacional.” O futebol era considerado estrangeirismo. Nas colônias imigrantes não se falava português e “os brasileiros não se reconheciam como um povo alegre e cordial.” Com a república, “o Brasil, sem a coroa, tinha ficado sem cara.”, Os intelectuais brasileiros apressaram-se em reconhecer que os problemas nacionais vinham da mistura de raças. Em 1933, com a publicação de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire esse conceito modificou-se. Para ele a mistura de negros, brancos e índios é que enriquecia a nação. “A absolvição dos mestiços era o que faltava para se fortalecer um novo nacionalismo no Brasil.” Todas as nações valorizavam o folclore, o mesmo ocorreu no Brasil, tentando resgatar as danças, melodias e projetos populares. “Era preciso defender a raça brasileira como Hitler defendia os arianos.” O escritor Mario de Andrade fez intensa pesquisa e criou a Sociedade de Etnografia e Folclore de São Paulo. Em 1937, organizou o Congresso da Língua Nacional Cantada. Almeida Júnior, pintor, inspirava-se no caipira tocando viola. Luiz Câmara Cascudo do nordeste escreveu tudo sobre temas populares do Brasil. O líder integralista, Plínio Sampaio, era muito ligado a esses modernistas. Menotti Del Picchia, poeta, e Guilherme de Almeida, escritor, também foram participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Foi criada a Escola da Anta, símbolo nacional. Esse nacionalismo acabou criando o “complexo de Zé Carioca.” Depois do folclore, os primeiros sambistas foram desprezados. Cruz Cordeiro, diretor da RCA Victor “não recomendou a seus leitores o disco que continha nada menos que Carinhoso, a obra-prima de Pixinguinha.” Afirmava que era um fox-trote e música popular yankee. Essa perseguição ideológica é o que ocorria nesses tempos.  Os intelectuais só apreciavam o “exótico” de nossa cultura. O samba do Estácio surgiu no final da década de 1920. Era a marcha, “pontuada em tamborins e surdos.” O samba tornou-se mais elementar, cheio de técnicas primitivas e improviso. Foi-se a bela era de Donga, Sinhô e Pixinguinha. Os novos sambistas, apesar de origem abonada, exaltavam a periferia e os morros. Braguinha, autor de tantos clássicos, estudava arquitetura e era filho de industrial. Noel Rosa, o melhor dos sambistas do Estácio, chegou a cursar medicina. “Noel vestiu rigorosamente o figurino do samba do Estácio e desconsiderou o resto.” Esse novo marketing da pobreza floresceu e, na década de 1930,  era um novo modo de retratar a cultura dos negros do morro. “Tinha se tornado folclore” e era preciso protegê-lo de estrangeirismos. Os primeiros sambistas, desiludidos, afirmavam que o novo ritmo era marcha e não samba. Outro mito é a origem da feijoada tão brasileira, feita por escravos com restos de carne e feijão. Também é européia, pois a técnica de misturar esses ingredientes vem do Império Romano, espalhando-se pela Europa latina.  Voltando ao samba do Estácio, ele fez muito sucesso pelas rádios e pela propaganda política de Getúlio Vargas. Imaginem que a Estação Primeira de Mangueira teve seus sambas transmitidos para a rádio nacional da Alemanha nazista. Os músicos lisonjeavam o presidente com o “samba-cívico”. “O Novo Estado veio para nos orientar. No Brasil não falta nada, mas precisa trabalhar” compunha Ataulfo Alves e Felisberto Martins. “Sua Excelência mostrou o que é de fato, agora tudo ficou barato, agora o pobre já pode comer, até encher”, outra quadrinha histórica. Mas, o mais famoso clássico do gênero foi composto por Ary Barroso: Aquarela do Brasil. “Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro, vou cantar-te nos meus versos.” Walter Disney produziu Alô Amigos, em 1942, tendo como trilha sonora essa bela composição. Pato Donald, Zé Carioca e Carmem Miranda sambam juntos nessa animação. Desse modo o Brasil ganhou notoriedade nos outros países. O “interesse de um presidente fascista e a influência de um desenho animado” nacionalizou-se. João Gilberto criou a bossa nova juntando samba com o jazz. Foi criticado. Ariano Suassuna criticava todos e só gostava do que era folclórico – a parte Chico.  Guerra do Paraguai – outro mito. Lê-se nos livros escolares: “O Brasil matou 95% da população masculina do Paraguai... a Inglaterra, devido a seus próprios interesses, levou o Brasil à guerra, temendo que o Paraguai, uma potência em crescimento, desafiasse seu imperialismo.” Nas escolas os professores tinham um discurso de esquerda “que criaram a base de senso comum dos anos 2000.” O historiador inglês Leslie Bethell, em 1995, afirmou que se a Inglaterra teve um papel nessa guerra foi o de tentar evitá-la. Francisco Doratioto, historiador e diplomata brasileiro, afirma que o Brasil não sabia do risco militar do Paraguai e não queria destruí-lo. Solano López foi insensato ao declarar a guerra e deveria ter se rendido em 1865. Os livros didáticos não mostram o lado cruel do ditador López. “A história do genocídio no Paraguai fazia parte de um discurso político.” (pg. 177) Essa guerra ocorreu pelo caráter de López. Poderia ficar em paz quando o Uruguai foi invadido pelos brasileiros. Em 1864 aquele país confiscou o navio brasileiro Marquês de Olinda. Perto do Natal, 7.700 soldados paraguaios invadiram o pantanal brasileiro, que estava desprotegido. A região era vigiada por apenas 875 militares. Em apenas dois dias, ganharam o de Forte de Coimbra, sul de Corumbá. Subindo o rio Paraguai, o barco brasileiro Anhambaí, superlotado, foi atacado e vencido. Nesse momento o Brasil certificou-se da necessidade de tentar abatê-los. O inimigo possuía 77 mil homens e o Brasil 18 mil. “O Brasil teve de reinventar seu exército, aumentando os salários e criando uma campanha nacional de soldados voluntários...” Reuniram-se em Uberaba no ano de 1865. Esses dois mil homens viajaram a pé até o Pantanal, marchando sob tempestades e com pouquíssima comida. Um terço morreu vítima disso e de epidemias, antes de chegarem ao destino. Lópes não quis fechar acordo com a Argentina e as tropas tiveram que cruzar províncias do norte argentino. Solano resolveu declarar guerra à segunda maior nação da América do Sul. Foi um grande erro. Os soldados paraguaios ao se depararem com a sofisticada Corrientes não puderam deixar de saquear suas casas. Isso fez com que os argentinos apoiassem o Brasil e em maio de 1865, Brasil, Uruguai e Argentina formaram a Tríplice Aliança. Avançando até o Paraguai por via fluvial, no rio Paraná, nove navios  brasileiros  depararam-se com uma emboscada. “O Paraguai acabou se atrapalhando no esquema tático e perdendo a batalha.” Ficou conhecida como a Batalha Naval do Riachuelo e o país ficou isolado. Outra derrota viria três meses depois. Em 1865, 50 mil paraguaios estavam mortos e 20 mil aliados.  O presidente argentino era Bartolomé Mitre e o imperador brasileiro dom Pedro II. López foi “um presidente louco.” Antes de entrar na guerra que o destruiria, o Paraguai era um país burocrático, atrasado e rural e os empresários da região, em 1820, tinham sido expulsos pelo ditador José Gaspar Francia e a exportação quase inexistente. A política quase paralisada, pois López ameaçava seus cidadãos e mandou matar seu irmão, por conveniência própria. Mas o fato é que apesar de alguns acadêmicos considerarem “Solano López um herói, ele agia como um general despreparado... O ditador sacrificou assim tropas inteiras, jogando soldados indefesos contra os brasileiros e argentinos.” (Pg.188) O Brasil, como sempre atolado em dívidas, foi à falência com a guerra. Quem saiu ganhando com o impasse foi a Argentina, pois grande parte da fortuna do Brasil foi para aquele país, a fim de abastecerem as tropas brasileiras. &lt;br /&gt;“Um personagem comum entre os artistas do romantismo é o belo-horrível.” Caso de Frankenstein da inglesa Mary Shelley, do conto popular francês a Bela e a Fera e, em 1831, Quasímodo, o corcunda do romance de Notre-Dame de Paris escrito por Victor Hugo. Aqui no Brasil, em 1858, um jurista e deputado estadual mineiro, Rodrigo Ferreira Bretas, resolveu escrever a biografia de Antônio Francisco Lisboa, um dos vários artesões que construíram as igrejas e imagens, na época da corrida do ouro em Minas Gerais. O escultor já havia morrido há cinquenta anos e dele só se sabia que, segundo um mito, tinha as mãos paralisadas por uma doença grave. Bretas resolveu publicar um “relato minucioso”, com vários detalhes e histórias sobre esse artista. Tudo era obra de suposições, então se formou o mito do Aleijadinho, que sem as mãos e pés, só conseguia andar de joelhos e conseguiu executar uma obra gigantesca em diversas cidades mineiras. “Bem a costume do romantismo, o estilo literário de seu tempo, o biógrafo criou a história de uma pessoa defeituosa e assustadora que teria executado com as ferramentas amarradas ao braço, as obras mais belas do barroco mineiro.” A verdadeira história desse personagem já foi tema de diversas controvérsias acadêmicas. Guiomar de Grammont, em 2008, escreveu como tema de tese o livro Aleijadinho e o Aeroplano. “Ela mostrou como as histórias contadas por Bretas e outros escritores são ecos de personagens e cenas da literatura.” Com esse personagem fantástico, Bretas ganhou de D. Pedro II o prêmio da Ordem da Rosa, dado apenas para grandes escritores do Brasil. Isso incentivaria o povo brasileiro a ter mais orgulho de seu país. Assim, Aleijadinho passou de lenda “à condição de documento de um personagem histórico.” Entretanto não era uma unanimidade, pois alguns achavam suas formas grosseiras, principalmente se comparadas à arte européia. A visão dos viajantes estrangeiros da época exibia preconceitos, obviamente. Contudo os modernistas gostaram de sua “brasilidade, do talento mestiço e popular do Brasil.” Oswald de Andrade, em 1923, propõe que “a arte mineira parecia encaixar-se bem na raiz popular da cultura brasileira.” Afirma que Aleijadinho tinha feito aquelas obras por que as queria daquele modo e não porque não saberia fazê-las melhor. Mário de Andrade opina que via em suas estátuas sua personalidade atormentada. “A deformidade imaginária virou um ponto essencial da crítica dos modernistas. A arte do período barroco era feita de modo coletivo “em louvor a Deus e não ao próprio artista”. Trabalhavam em conjunto, patrocinados por irmandades religiosas e amigos. O romantismo chega ao Brasil, no final do século dezoito, com os poetas. Há cinquenta anos 160 obras eram consideradas de Aleijadinho, hoje são três vezes mais. Em abril de 2009, encontraram mais sete obras para a alegria dos colecionadores.&lt;br /&gt; Em 2006, Evo Morales afirmou que a Bolívia dera o território do Acre ao Brasil, mas ele nos custou 2 milhões de libras esterlinas, em 1903. A Bolívia aproveitou de uma situação favorável a eles para livrar-se do Acre. Isso ocorreu por causa de seringueiros que não queriam deixar a região, pois a semente da borracha já se encontrava na Ásia, onde a extração era mais fácil, e já havia dominado o comércio mundial com preços mais atrativos. (pg.226) Luís Gálvez Garcia, um diplomata espanhol, resolveu fugir de seu país e vir para o Brasil, onde acalentou o sonho de arrendar o Acre para o  Anglo-Boliviano Syndicate e a Companhia de Borracha dos Estados Unidos. Eles dariam 60% do lucro das exportações para o governo boliviano.  “O caso virou manchete do jornal Província do Pará de 3 de julho de 1899 e incendiou a Amazônia.” Rui Barbosa chegou a comentar a questão dizendo que se repetiria aqui, o que havia acontecido no Havaí. Houve a reconquista do Acre, alertados que foram pelo ardiloso espanhol. As utopias de alguns grupos do século dezenove, na Europa, eram formar um estado socialista na América do Sul. Tentaram no Paraná e em Santa Catarina. “O espanhol deveria nutrir um sonho parecido para o Acre.” Euclides da Cunha escreveu, em 1905, o seringueiro “não se rebela”, “não murmura”, “não reza”, “não tem diluições metafísicas”  e é resignado o suficiente para acreditar que “os grande olhos de Deus não podem descer até aqueles brejais, manchando-se.” Pobres homens! Em 14 de julho de 1899, Gálvez se apoderou do território para formar um novo país, já que o governo não se incomodava com a região.  A capital era Cidade do Acre, hoje Porto Acre. Formaram um “conselho ministerial, uma bandeira e um selo comemorativo.” O palácio do governo era um barracão de madeira e havia a Força Pública Nacional e a Força da Instrução.  O novo imperador enviou um documento, anunciando a proclamação da nação com 6742 cidadãos, aos países da América do Sul. A Argentina reconheceu sua legitimidade. O governo brasileiro não queria incorporar o novo país e tentou se livrar dele pela terceira vez. Em 1900, navios de guerra brasileiros chegaram e desfizeram a República Independente do Acre. Luiz Gálvez foi preso e repatriado para a Espanha, via Pernambuco.   O Acre pertenceria aos americanos ou bolivianos não fosse pelo gaúcho José Plácido de Castro, militar da revolução federalista. Líder militar saiu derrubando instalações bolivianas e em janeiro de 1903 sua tropa venceu os bolivianos de Porto Acre. Agora era o Estado Meridional do Acre. No final de 1903, com o Barão do Rio Branco “os dois países fecharam um acordo.” Foi quando os 2 milhões de libras esterlinas foram pagas aos bolivianos.  A expressão “ir para o Acre” passou a ser sinônimo de “morrer”, pois 2 mil operários morreram na construção da ferrovia Madeira-Mamoré estipulada pelos vendedores. A exportação da borracha asiática, nessa época, passou de 45 toneladas em 1900 para 107 mil em 1915. O custo ACRE continua até os dias de hoje com prejuízo de milhões de reais por ano (400 milhões) superando muitas vezes essas cifras. Alagoas nasceu de um castigo, uma retaliação do governo brasileiro contra a Revolução Pernambucana de 1817. Perderam essa faixa de terra correspondente ao atual estado e Alagoas emancipou-se. Quarenta anos mais tarde foi a vez do Paraná, cujo espaço pertencia a São Paulo. “Em São Paulo, uma marcha de 1500 homens, chamada Coluna Libertadora, saiu de Sorocaba para derrubar o presidente (conservador) da província de São Paulo, José da Costa Carvalho, o barão de Monte Alegre.” Outras cidades paulistas apoiaram a decisão. Curitiba e Paranaguá, antes paulistas, nada fizeram e com o desagravo a São Paulo houve a separação em 1853. E “os paulistas não reclamaram”, pois se tratava de uma localidade que não dava dinheiro, devido ao seu isolamento. &lt;br /&gt;Alberto Santos Dumont, filho de um riquíssimo cafeicultor, era uma personalidade conhecida nos cafés e restaurantes de Paris, durante a Belle Époque. Eram tempos movimentados, o cinema fora inventado pelos irmãos Lumière, o expressionismo surgia nas telas dos pintores e Dumont fazia balões, que encantavam e alegravam as pessoas. Mas o mito de inventor do primeiro aeroplano é derrubado pela afirmação documentada dos irmãos Wright. Ocorre que Dumont, em novembro de 1906, ao voar no 14-Bis por 220 metros de distância, registrou esse vôo. Os aviões dos Wrights não saíam do chão usando a própria força, eram catapultados. “Já o 14-Bis de Santos Dumont realizou um vôo autônomo, impulsionado por um motor próprio.” “O Flyer I usa correntes de bicicleta, madeiras de construir casas e, exatamente como os aviões do futuro, hélices, um motor a gasolina e asas levemente curvas.” O Flyer não era um balão, mas “máquina de voar”. Os irmãos Wright queriam ganhar dinheiro para a fabricação de seu projeto e não se importavam com os prêmios que a França oferecia. Eles eram discretos quanto ao trabalho, porquanto temiam que alguém patenteasse o avião antes deles. Em 1904 já haviam realizado 45 minutos de vôo e chamaram testemunhas confiáveis para dar credibilidade ao feito. Em 1905 encerraram os testes e tentaram vender o projeto ao Departamento de Guerra dos Estados Unidos. Esses documentos existem e, em maio de 1906, registraram a patente sob o n°821393, “referente a controles de uma máquina de voar”. Mais uma contra o pobre Santos Dumont (pg. 253). A princesa Elizabeth I (1533-1603) já usava relógio de pulso e “em 1868, a Patek Philipe reinventou a peça, que também foi usada por militares nos campos de batalha do século 19, como na Guerra Franco-Prussiana.” Dumont percebe que os irmãos Wright já não se interessavam mais por balões e essa tecnologia era totalmente dominada por ele. Esse fato lhe rende prêmios e muitas homenagens. Mas, com o sucesso dos americanos passou a interessar-se pela nova metodologia. Em abril de 1907 ele voaria com o 14-Bis, mas foi um fracasso. Uma companhia aérea francesa resolveu comprar a patente dos projetos americanos e fabricas aviões. Em 1908 Wilbur Wright voa de Le Mans a Paris a trinta quilômetros de distância. Fora um feito e tanto. Contudo os irmãos usavam trilhos e uma catapulta para impulsionar o Flyer. Os técnicos franceses questionaram o uso da catapulta, mas Wilbur achou uma solução e consegui voar sem esses equipamentos. Nosso herói, finalmente com o projeto do Demoiselle, conseguiu fazer um verdadeiro avião, percorrendo a 90 quilômetros por hora, em setembro de 1909. O Demoisellhe N-20 inspirou o ultraleve. Dumont, nessa época, descobre que está com esclerose múltipla e isola-se em Benerville, Normandia. Depois da declaração da primeira Guerra Mundial, volta ao Brasil, onde foi reconhecido pelo povo como herói, mas ficou magoado pelo esquecimento a respeito dele pelos franceses. “Doente, deprimido e enraivecido, Santos Dumont se suicidou em 1932, num hotel do Guarujá, São Paulo, enforcado por duas gravatas vermelhas dos tempos de pioneiro dos céus de Paris.” Os professores de história mostram um Brasil de se envergonhar durante o século 19. Ensinavam que as mudanças ocorridas no Brasil deram-se por iniciativa da elite sem participação do povo. Já a América Espanhola, no século 19, fragmentou-se com as revoluções populares, destruindo a economia que viria a se revitalizar dezenas de anos depois. Os homens influentes desse século, no Brasil, iam estudar fora do país, em Portugal. Entre 1822 e 1831, todos os ministros brasileiros com ensino superior haviam cursado a Universidade de Coimbra, a melhor da época naquele país.  Com o iluminismo francês, ela isolou seus estudantes. Os livros de Voltaire e Rousseau eram contrabandeados. O iluminismo de Coimbra seria mais filtrado e cauteloso. Estudavam os livros de Adam Smith e de Edmund Burke, ambos ingleses. Esses autores foram traduzidos para o português por José da Silva Lisboa, visconde de Cairu. Os ex-alunos de Coimbra tornaram-se os líderes do Partido Conservador, que procuravam evitar revoluções e desordens no Brasil. Bernardo Pereira de Vasconcelos, o mais influente de nosso Parlamento, ator do Código Criminal de 1830 dizia vir “dos capitalistas, dos negociantes, dos homens industriosos, dos que com afinco às artes e ciências: daqueles que nas mudanças repentinas têm tudo a perder, nada a ganhar.” Mesmo os opositores tinham a mesma visão de comedimento “para garantir as liberdades individuais. A maioria era contra o absolutismo, mas ninguém queria as cabeças de padres e reis como acontecera na França a partir de 1789. Esses políticos são chamados de liberais-conservadores. Era uma ação consciente e raciocinada a fim de conservar a unidade e modernidade do Brasil, sem riscos maiores. O Império brasileiro teve muitas virtudes, que não são discutidas. Fazem acusações injustas contra a monarquia. 1) O Brasil foi o último da América a virar República. Um grupo liderado por marechal Deodoro da Fonseca proclamou a república e enviou a família real de volta a Portugal, em 1889. Entretanto um perspicaz observador, Raja Pául, presidente da Venezuela proferiu: “Foi-se a única república da América.” Com D. Pedro II a liberdade política atingiu seu ápice. Era notada pelos europeus e pelas repúblicas vizinhas a liberdade de imprensa. Tudo podia ser publicado nos jornais sem que houvesse processo contra os autores de tais artigos. “Os jornais publicavam dia a dia ilustrações satíricas – como a de D. Pedro II, sonolento, sendo atirado para fora do trono.” Mesmo assim ele era contra a censura. “Imprensa se combate com imprensa” era sua visão. Nesses 120 anos de República brasileira os presidentes são mais absolutistas do que os próprios reis. Contudo, “Nosso último monarca, chefe do Poder Executivo e do Poder Moderador , descendente dos Bragança e dos Habsburgo, duas das mais tradicionais famílias reais européias, atuou quase sempre com a humildade que os presidentes deveriam ter.”  Ao acumular os dois poderes, D. Pedro II poderia ter sido absolutista, mas não tomava decisões autoritárias. Acreditava que “seria melhor e mais feliz presidente da República do que imperador constitucional.” Homem muito severo com despesas, recebia uma dotação anual de 800 contos de reis para viver com sua família, mas nunca permitiu que ela fosse reajustada. Além do mais financiava com esse dinheiro os estudos de estudantes brasileiros no exterior, instituições de caridade, colégios e doou um quarto dessa dotação para a Guerra do Paraguai. Os estrangeiros não se conformavam com a simplicidade e franqueza de seus palácios. Tornaram-se decadentes e abandonados por falta de uso, principalmente o Paço da Cidade,  segundo a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. D. Pedro I, entretanto, era o oposto do filho, um homem rústico, temperamental, devasso e corrupto com o dinheiro da corte. Ele maltratava sua mulher, a imperatriz Leopoldina,  demitia seus ministros e dissolvia a Câmara sem qualquer motivo sério. Isso tudo causou uma revolta contra ele, exigindo que partisse do Brasil em abril de 1831. Em 1824,  fechou a assembléia constituinte  e no ano seguinte apresentou uma das cartas mais modernas da época. Apesar da centralização permitia o voto dos analfabetos, porém havia uma exigência de renda mínima de 100 mil-réis, um valor muito baixo. A carta de tão liberal causou insatisfação dos que pregavam a superioridade da Igreja ao Estado. Em 1824, determinou que quem mandava era o Estado e oficializou a tolerância religiosa. Neil Macaulay, historiador, afirmou: “Dom Pedro , de fato, deu ao Brasil uma carta que assegurou por 65 anos os direitos básicos dos cidadãos – não perfeitamente, mas melhor do que qualquer outra nação do Hemisfério Ocidental naquela época, com a possível exceção dos Estados Unidos...” 2) A independência foi um jogo de cartas marcadas. Em 7 de setembro de 1822 o Brasil tornou-se independente através de D. Pedro I, mas a impressão de “dominação colonial” surgia na época, pela maneira como se efetuou. Até meados de 1822, ninguém se incomodava pela independência do Brasil. Os jornais e panfletos não abordavam o assunto. A historiadora Lúcia de Bastos Pereira das Neves, analisando uma farta documentação, descobriu que a idéia de um Brasil livre só se concretizou em abril daquele ano. Os problemas eram outros, pois as monarquias da época estavam divididas. Luis XVI e Maria Antonieta haviam sido guilhotinados, Napoleão conquistara vários impérios da Europa Continental, de tal modo que os nobres dividiam-se entre absolutistas e constitucionais. Os constitucionais acabaram vencendo a contenda. Melhor “baixar a cabeça à Constituição.” Outro assunto importante era o lugar onde o reinado português deveria ter sua sede. “Teriam governos independentes e o mesmo poder político.” A insistência dos parlamentares portugueses em tornar o Brasil politicamente mais baixo, foi a causa da cisão. Em dezembro de 1821, chegaram decretos que exigiam a volta de D. Pedro I à Corte, com o fechamento de departamentos administrativos e tribunais, com grande número de desemprego. Em 9 de janeiro de 1822, 8000 assinaturas fizeram com que o monarca decidisse pela independência. Em 28 de agosto do mesmo ano, mais ordens foram enviadas, descredenciando as medidas de José Bonifácio de Andrade e Silva. D. Pedro, aconselhado pela esposa e por José Bonifácio, foi forçado a fazer o que temia: anunciou a Independência do Brasil.  3) O Brasil foi o penúltimo país da América a abolir a escravidão. Os líderes brasileiros não foram os únicos responsáveis pela demora na abolição da escravatura. Para aprovação da lei era necessário que deputados e senadores avalizassem o ato, como representantes do povo. Os próprios escravos, os proprietários rurais e o povo não estavam seguros de que queriam isso. A escravidão estava tão alicerçada por milênios de tradição que a injustiça desse ato demorou a ser percebida em sua imoralidade. “Mesmo as revoltas escravas não largavam o sistema escravista. É o caso de Malês, organizada por escravos muçulmanos na Bahia, em 1835. Os escravos queriam conquistar a liberdade – e escravizar os brancos e os negros que não fossem mulçumanos.” (pg.286) José Bonifácio defendia a abolição da escravatura antes da Independência do Brasil. Em seu sítio na cidade de Santos só trabalhavam homens livres.  D. Pedro II insistia na liberdade gradual dos escravos. Ele aceitava a ajuda de ministros que apresentassem  leis abolicionistas à Câmara dos Deputados. “A abolição, como se sabe, foi um dos fatores a provocar o fim da monarquia no Brasil.” D. Pedro II analisa a situação política da Bahia: “Aqui não havia republicanos, e agora não somente não os há, com não há liberal que não se mostre disposto a sê-lo: na grande propriedade então parece firmado o divórcio com a monarquia.” Em 16 de novembro de 1889, D. Pedro II, ao ser destituído do trono, foi embora do Brasil, mas levou um travesseiro com terra brasileira. Assim foi-se a liberdade política do império. Em 23 de dezembro, no novo regime republicano, “marechal Deodoro da Fonseca instituiu a censura prévia.” No Segundo Reinado presos políticos e exilados não existiam, todavia passaram a se avolumar na Republica. Era o adeus à liberdade de imprensa e dos políticos em geral.  &lt;br /&gt;Luís Carlos Prestes é o nome mais lembrado no comunismo brasileiro. Gaúcho, liderou uma rebelião militar em 1924, mas nunca chegou a um cargo político de real relevância. Foi senador em 1945 e destituído em 1948. Possuía uma personalidade intolerante e não acatava idéias que não fossem iguais às suas. Provavelmente, “seria um dos tantos tiranos socialistas que ainda hoje estarrecem o mundo.” (pg.295). Nesse ano de 1924, jovens militares invadiram São Paulo e forçaram a queda do Presidente Artur Bernardes. As tropas federais forçaram a fuga dos revoltosos, que seguiram para o Paraná. Em Foz do Iguaçu, rebeldes ligados a Prestes e paulistas tentariam investir contra São Paulo, novamente, e o Rio de Janeiro. Prestes sugeriu que rumassem às regiões mais remotas e pobres do Brasil, como Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e estados do nordeste. Por dois anos cavalgaram 15 mil quilômetros, sem chegar ao Rio. Em 1927 refugiaram-se na Bolívia e Paraguai. Os livros escolares ensinam que eles queriam conhecer, denunciar e conscientizar a população mais pobre. Mas isso seria sem dúvida de alto custo. O que provavelmente queriam era arregimentar um exército paralelo, que enfrentasse o exército brasileiro. “... Os integrantes da Coluna Prestes estiveram bem longe de ter apoio popular ou mesmo de tentar conquistá-lo.” Descobriu-se, em 1999, no meio de farta documentação que Juarez Távora, Miguel Costa e Prestes eram os líderes da Coluna. No decorrer de sua missão saqueavam, estupravam e cometiam todo tipo de atrocidades contra esses povoados. O padre José Amorim de Goiás escreveu em 1925: “Em poucos dias, nosso povo, na maioria pobre viu-se reduzido à quase completa miséria.” A jornalista Elaine Brum descobriu, ao refazer esse trajeto, a mesma calamidade pública.  Eles roubavam gado, estupravam mulheres para conseguir seu fim. “A maioria de seus integrantes, pelo que sugerem os documentos e depoimentos, queria se aventurar pelo Brasil tirando proveito de cidades sem proteção do Estado. Só isso.” O gaúcho Getúlio Vargas tomaria o poder do Brasil, passados três anos do fim da Coluna Prestes. Refugiado na Argentina, Prestes declara-se comunista e une-se a Josef Stálin. Em 1934, volta ao Brasil com uma equipe internacional de conspiradores. Esse grupo era de grandes terroristas e revolucionários bem experientes. Prestes e o Partido Comunista Brasileiro tramavam um golpe com os russos vindos de Moscou. Eles viviam clandestinamente em Ipanema e Copacabana recebendo dinheiro diretamente de Stálin, através de homens do Uruguai e comerciantes laranjas brasileiros. Esses conspiradores queriam apoiar oficiais nordestinos contra Getúlio Vargas. Marcaram o golpe para 27 de novembro, contudo descobriu que o apoio seria insuficiente. “Genialmente” Prestes avisou os inimigos, convidando-os a participar do golpe. Entre essas pessoas estava Newton Estillac Leal, comandante do Grupo de Abuses de São Cristovão, que jamais apoiaria o comunismo. Avisou imediatamente o governo, mas até Londres já sabia que haveria rebeliões no Brasil. Esse golpe fracassado chamou-se Intentona Comunista. O povo não apareceu e a polícia dominou a situação. O jornalista William Waack comenta o episódio.  Os conspiradores começaram a cair e a polícia foi atrás de Prestes e Olga, sua companheira, mas já haviam sumido. Entretanto deixaram, dentro de um cofre, vários documentos sobre a revolta. Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, não quis abandonar o esconderijo no Rio de Janeiro e em 9 de março de 1936 foi preso com Olga. A judia alemã Olga Benário foi extraditada para seu país, já grávida de sete meses. A diplomacia soviética não a auxiliou e ela morreu seis anos depois, em um campo de concentração de Bernburgo. Outra jovem, Elvira Cupello Calônio, também conhecida por Garota, foi vítima desses revolucionários. Sem tanta divulgação, sua vida terminou com a execução pelos próprios companheiros, em fevereiro de 1936. Em uma biografia, a jovem é retratada como tendo 16 anos, pobre e semianalfabeta, natural de Sorocaba e filha de operários. Influenciada pelo namorado Antonio Maciel Bonfim, o Miranda, entrou para o comunismo em 1930. Empregada doméstica era fiel e uma entusiasta de suas funções no partido. O casal foi capturado pela polícia em janeiro de 1936, mas sua desgraça começa quando ela saiu do presídio. Teria sofrido poucas agressões na prisão e poderia voltar a ver o namorado que permanecia preso. Fazia papel de correio entre Miranda e seus companheiros. Mas para esse grupo ela era considerada espiã da polícia. Luís Carlos Prestes se convenceu de sua culpa e que os bilhetes eram falsos, escritos por outra pessoa. O Partido Comunista Brasileiro decide levar a menina para uma casa em Guadalupe, interrogando-a com “base em um questionário criado pelo espião Stuchevski.” Na verdade, Elza não havia traído ninguém, contudo foi morta em 2 de março de 1936. Foi estrangulada com uma corda e seus ossos quebrados, colocados em um saco e enterrada no quintal da casa de Guadalupe! Seu corpo foi encontrado em 1940. Os integrantes do partido foram presos, confessaram o crime e o local da cova. Luís Carlos Prestes e mais três pessoas envolvidas foram condenados a penas de 20 a 30 anos, mas libertados em 1945, pois Getúlio havia dado uma anistia. Em Moscou, o crime foi investigado e Prestes apontado como mandante, Martins e Francisco Lyra como executores. O crime notabilizou-se, mas logo foi esquecido. Olga surgia como “heroína e vítima”. Nas apostilas escolares a Garota não é mencionada.  &lt;br /&gt;Em 1964, guerrilheiros comunistas lutaram contra o regime militar e o regime “torturou 2 mil pessoas, com choques, empalações, palmatórias nos seios das prisioneiras, entre outras selvagerias.” Ocorre que a militância comunista de esquerda foi absolvida por seus atos “tão violentos e autoritários quanto dos militares.” Antes da derruba de Jango Goulart os guerrilheiros já planejavam ações. Em 1959, Fidel Castro apoderou-se da ilha de Cuba, demonstrando que era possível vencer um governo com pequenas guerrilhas organizadas.  O deputado pernambucano Francisco Julião, encontrando-se com Fidel em Cuba, voltou da ilha querendo “reforma agrária na lei ou na marra.” O apoio tornou-se público em novembro de 1962, pois um avião correio cubano caiu no Peru e, entre os documentos, havia alguns que provavam as dificuldades que um dos agentes enfrentava para formar a guerrilha brasileira. Doze militantes estavam aprendendo a luta armada no país comunista. Quando isso foi publicado nos jornais houve uma certeza de golpe iminente: “a esquerda ou a direita tomariam o poder à força no Brasil.” (pg. 315) Leonel Brizola, conselheiro de João Goulart, tinha planos semelhantes. Em 1963, Brizola discursava na Rádio Mayrink Veiga, chamando o povo para unir-se a luta dos Grupos de Onze Companheiros (Comandos Nacionalistas). Queriam formar, em todo o território brasileiro, guerrilhas para atacar caso houvesse uma tomada de poder. A Rádio CBN, em 2009, descobre uma investigação militar sobre os Grupos dos Onze. Os G11 seriam como a Guarda Vermelha da revolução Socialista de 1917, na antiga União Soviética. Existia uma cartilha com ensinamentos para isso. “No caso de derrota do nosso movimento, os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados.” Brizola tinha o apoio de militares para o Grupo dos Onze. A ditadura começou em 1964 e até 1968 o governo levava as leis para serem aprovadas no Congresso e os indivíduos respondiam a processos criminais em liberdade. Acreditava-se que eleições indiretas seriam realizadas e o poder civil seria restabelecido. Com o Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, as coisas pioraram. O poder executivo governa por decretos-lei e o habeas corpus desaparece do cenário. O governo prendia os indivíduos sem explicações. Ocorrem barbaridades como vinte assaltos a bancos, automóveis, explosões, ataques a quartéis, execuções, resultando em mortes até de pessoas não envolvidas. Em 1968, por exemplo, o estudante Orlando Lovecchio Filho, de 22 anos, foi atingido por uma bomba, no Conjunto Nacional onde havia o consulado americano, e acabou com o terço inferior da perna esquerda amputado. Apesar de inocente foi declarado culpado até que o ator do atentado apareceu, em 1992. Era o artista plástico Sergio Ferro. Outras tantas pessoas foram assassinadas ou presas por engano. Muitos ativistas importantes, além de Dilma Rousseff, atentaram contra pessoas que discordavam de suas ideias. O historiador Marco Antonio Villa afirmou: “Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força... Muitos grupos existiam antes de 1964... “a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.” “O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.” “A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos.” A ditadura realmente tentou aniquilar jovens estudantes imaturos e com belas ideias utópicas, os quais jamais poderiam sozinhos, tomar o poder. Qualquer movimentação comunista era preocupante. No livro A Ditadura Escancarada, de Elio Gáspari lê-se que “a luta armada fracassou porque o objetivo final das organizações que a promoveram era transformar o Brasil numa ditadura, talvez socialista, certamente revolucionária. Seu projeto não passava pelo restabelecimento das liberdades democráticas.” (pg.322, 323) Havia dezoito grupos de luta armada entre 1960 e 1970. O objetivo de quase todos era promover uma ditadura similar aos regimes comunistas da China e Cuba. José Serra participou de uma desses grupos, o Ação Popular. Os grupos citavam o cruel chinês Mao Tse-tung e o objetivo era transformar o Brasil em um “Cubão”. “Como não houve socialismo no Brasil, nunca saberemos como teria sido o sistema por aqui”. As ações antiterroristas vitimaram 380 pessoas. Muito menos do que na Argentina ou no Chile. Em 1971 a Ação Popular aderiu ao leninismo e acrescentaram ao nome “Marxista-Leninista” (AP-ML). Seu programa básico era muito similar a um texto bíblico do Livro de Isaías, capítulo 65. Analisavam o comunismo como quase uma religião. “Uma das religiões da salvação terrena” acreditavam. Karl Marx já divulgava essa idéia no século dezenove. Após a Idade Média, a revolução científica,  a partir do século dezesseis, acabou com a configuração de um mundo ideal e harmônico sob a proteção divina. Depois dos estudos científicos de Galileu e Darwin,  o planeta tornou-se um lugar desequilibrado, real, com extinções em massa por fenômenos naturais. As imagens espirituais foram desaparecendo com os novos pensamentos e se percebeu que o homem seria o responsável pelo futuro.  “Assim como o cristianismo, o socialismo se baseava em paisagens idílicas... As organizações deixaram à mostra o fato de serem muito parecidas com religiões ou seitas radicais.” Lutar na selva era similar ao “romantismo de guerra”. Os movimentos revolucionários, infelizmente, colocam seus ideais acima do bem estar da população e suas regras. Muitos jovens revolucionários brasileiros ao se tornarem adultos foram forçados a encarar a realidade e alguns chegaram a se retratar. “Nos últimos cinquenta anos, enquanto a população quase triplicou, os índices de qualidade de vida mais que dobraram. Existe aí até mesmo um motivo para trair a proposta deste livro e expressar um êxtase de patriotismo. Viva o Brasil capitalista.” Com estas palavras, entre aspas, o autor fecha seu livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro Narloch nasceu em Curitiba, Paraná.&lt;br /&gt;Em 2011, está com 32 anos e vive em São Paulo.&lt;br /&gt;Foi repórter da revista Veja e editor de Aventuras na História e Superinteressante.&lt;br /&gt;A curiosidade que cerca este escritor é muito grande e existem pessoas que aplaudem&lt;br /&gt;seu livro, como outras que se indignam. Cabe a você, leitor, dar a última palavra, já&lt;br /&gt;que sua obra é baseada em vasta documentação e livros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-3094694859692110833?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/3094694859692110833/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=3094694859692110833' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/3094694859692110833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/3094694859692110833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2011/05/guia-politicamente-incorreto-da.html' title='GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-m8Jy7X3Y9Jo/TdwL_KFkSTI/AAAAAAAAC-Q/R3u-6q9dnPA/s72-c/231822-630x495.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-1543075125584126281</id><published>2011-02-09T15:24:00.023-02:00</published><updated>2011-02-09T16:11:22.341-02:00</updated><title type='text'>1822 de Laurentino Gomes</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLXqaFGpyI/AAAAAAAACrg/P7RfdTPAF7A/s1600/PedroI.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; 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margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 234px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLW7o-LWNI/AAAAAAAACrI/xw8dSA6RQPI/s400/coroa%25C3%25A7%25C3%25A3o" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571752009109559506" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWzq1xsuI/AAAAAAAACrA/j0mBLdwmwM0/s1600/800px-Dom_Pedro_compondo_hino_da_independencia.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 294px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWzq1xsuI/AAAAAAAACrA/j0mBLdwmwM0/s400/800px-Dom_Pedro_compondo_hino_da_independencia.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571751872172241634" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWiCSxG5I/AAAAAAAACq4/I9dZ1BdKbl0/s1600/imag110202.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 255px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWiCSxG5I/AAAAAAAACq4/I9dZ1BdKbl0/s400/imag110202.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571751569230207890" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWcZucsXI/AAAAAAAACqw/qi5bxl1GNF8/s1600/primeiro-reinado-4.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 294px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWcZucsXI/AAAAAAAACqw/qi5bxl1GNF8/s400/primeiro-reinado-4.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571751472441110898" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWR5b-fqI/AAAAAAAACqo/W0NLYQkcMqg/s1600/leopoldina.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 309px; height: 375px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWR5b-fqI/AAAAAAAACqo/W0NLYQkcMqg/s400/leopoldina.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571751291975007906" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWJX_tDnI/AAAAAAAACqg/G7nesYnOsTk/s1600/hiimlefi.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 378px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLWJX_tDnI/AAAAAAAACqg/G7nesYnOsTk/s400/hiimlefi.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571751145559101042" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLV0BJz8mI/AAAAAAAACqQ/Z-ktYPF5G90/s1600/1187282813_d_pedro_i.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 208px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLV0BJz8mI/AAAAAAAACqQ/Z-ktYPF5G90/s400/1187282813_d_pedro_i.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571750778650227298" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVvNr9inI/AAAAAAAACqI/KKuxAndgDVg/s1600/untitled.bmp"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 270px; height: 185px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVvNr9inI/AAAAAAAACqI/KKuxAndgDVg/s400/untitled.bmp" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571750696115341938" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVmDpvi-I/AAAAAAAACqA/9SPNuSILNWI/s1600/jose_bonifacio.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 285px; height: 391px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVmDpvi-I/AAAAAAAACqA/9SPNuSILNWI/s400/jose_bonifacio.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571750538802858978" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVbIn-H0I/AAAAAAAACp4/MZx3mDt6IQI/s1600/imagesCAG1GVS1.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 192px; height: 262px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVbIn-H0I/AAAAAAAACp4/MZx3mDt6IQI/s400/imagesCAG1GVS1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571750351159041858" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVSpp_H3I/AAAAAAAACpw/mtupGUWqQLE/s1600/francisco-goya-the-countess-of-chinchon-donna-maria-teresa-de-bourbon-y-vallabriga-1800.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVSpp_H3I/AAAAAAAACpw/mtupGUWqQLE/s400/francisco-goya-the-countess-of-chinchon-donna-maria-teresa-de-bourbon-y-vallabriga-1800.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571750205407043442" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVHDojyLI/AAAAAAAACpo/TecsTr6ol5o/s1600/escravos%2B2.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 291px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLVHDojyLI/AAAAAAAACpo/TecsTr6ol5o/s400/escravos%2B2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571750006221949106" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLU_qOmTFI/AAAAAAAACpg/TDwi4-ZnUBE/s1600/arts-graphics-2007_1181028a.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 287px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLU_qOmTFI/AAAAAAAACpg/TDwi4-ZnUBE/s400/arts-graphics-2007_1181028a.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571749879143091282" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLU0ZY6MbI/AAAAAAAACpY/XwrRpjh2IBA/s1600/800px-Engenho_de_acucar_1816.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 296px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLU0ZY6MbI/AAAAAAAACpY/XwrRpjh2IBA/s400/800px-Engenho_de_acucar_1816.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571749685644374450" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLUt57RtWI/AAAAAAAACpQ/7u_WblXxMxE/s1600/800px-Tropas_brasileiras_1825.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 244px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLUt57RtWI/AAAAAAAACpQ/7u_WblXxMxE/s400/800px-Tropas_brasileiras_1825.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571749574119372130" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLUiMiIWkI/AAAAAAAACpI/c1JL4piw-Fs/s1600/800px-Tropas_brasileiras_1835.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 183px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLUiMiIWkI/AAAAAAAACpI/c1JL4piw-Fs/s400/800px-Tropas_brasileiras_1835.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571749372955744834" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLUYNgtMnI/AAAAAAAACpA/KbWdW-Dkzgw/s1600/736px-Dias_da_Costa_-_D__Pedro_I_Morto.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 326px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLUYNgtMnI/AAAAAAAACpA/KbWdW-Dkzgw/s400/736px-Dias_da_Costa_-_D__Pedro_I_Morto.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5571749201419514482" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;LAURENTINO GOMES&lt;br /&gt;Autor de 1808&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1822&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grito de Independência do Brasil foi dado por D. Pedro em uma situação de grande desconforto para ele. Com problemas intestinais, saiu de Santos, no litoral de São Paulo, montado em uma mula, único animal a conseguir fazer aquele trajeto íngreme e perigoso. Essa situação de emergência aconteceu com uma modesta comitiva de pessoas muito jovens, pois o próprio Pedro tinha apenas 24 anos. Com ele estavam Padre Belchior e seu camareiro e secretário itinerante, Salgado da Gama, mais conhecido por Chalaça  além de outros poucos. A estrada que subia a serra era muito arriscada e tinha oito quilômetros de extensão e mais de 180 curvas na beira do precipício. Levava-se duas horas para chegar ao topo.  Cubatão era um local de apoio muito importante, pois ali estavam as mulas que formavam as tropas e tinha “uma povoação de vinte ou trinta casas.” Do alto da serra ao planalto levava-se seis horas. Por todos esses empecilhos, a comitiva chegou à colina do Ipiranga ao cair da tarde do dia Sete de Setembro. O arroio do Ipiranga era vermelho e barrento, mas de águas despoluídas. Havia nessa paragem somente oito casas e 42 pessoas, um sítio ermo. D. Pedro sabia da gravidade da situação, do desejo de liberdade dos brasileiros e esperava que algo grave acontecesse. Chegaram dois mensageiros exaustos da corte do Rio de Janeiro, que haviam cavalgado 500 quilômetros, quase sem dormir. José Bonifácio e a princesa Leopoldina, mulher de D. Pedro, mandavam noticiais muito alarmantes. Havia gravíssimas desavenças entre Brasil e Portugal nos últimos tempos, pois quando D. João VI partiu para seu país e deixou seu filho como príncipe regente, ambos os países ficaram em uma crise econômica sem precedentes. D. João havia raspado o cofre e deixado o Brasil na maior miséria. Portugal, abandonado por muitos anos, encontrava-se em posição desesperadora. Em 1815, o Brasil havia sido promovido a Reino Unido com Portugal e Algarve. Em 1822, os brasileiros concentraram-se em manter essa posição privilegiada. Em 28 de agosto, Portugal destituía D. Pedro do seu cargo e o reduzia à condição de delegado das autoridades de Lisboa. Abriram, também, um processo contra quem contrariasse essa ordem. O principal alvo era José Bonifácio de Andrade e Silva, defensor da Independência e aliado do príncipe. O Brasil voltaria à condição de colônia. Desejavam que o poder público brasileiro se reportasse diretamente a Portugal. A carta entregue de D. Leopoldina recomendava prudência e atenção aos conselhos de José Bonifácio. Em Portugal, houve um embarque de 7.100 soldados, somados a seiscentos, já desembarcados na Bahia, que juntos iriam atacar o Rio de Janeiro. Só existiria dois caminhos para o príncipe: um, era embarcar imediatamente para Portugal e lá ficar prisioneiro das cortes, e dois, ficar e proclamar a Independência do Brasil “fazendo-se seu imperador ou rei.” A carta de Leopoldina era enfática, pois terminava dizendo – “Senhor, o pomo está maduro, colhe-o já.” Padre Belchior lembrou que não havia “outro caminho senão a independência e a separação.” D. Pedro então, sem outras opções, avisou a todos que acabava de fazer a independência do Brasil. Estamos separados de Portugal. Na descrição desse padre não houve um brado “Independência ou Morte”. Mais tarde, D. Pedro entrou no teatro às 21h30 e inclinou-se, de seu camarote, para a multidão que o aclamava e o povo explodiu: “Viva o primeiro rei brasileiro.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um clima de cizânias e desavenças na Europa, entre o final do século XVIII e o começo do século XIX, se deu a independência do Brasil. Idéias revolucionárias espalhavam-se pelo mundo. “A revolução francesa varreu o mundo com um ímpeto de vendaval.” Vários líderes franceses acabaram na guilhotina e a França se viu ameaçada pelos países próximos. Contudo a Independência dos Estados Unidos deu-se 13 anos antes da Queda da Bastilha, em 1776. As únicas exceções a essa prática foram a Rússia e o Império Otomano, que caíram no século seguinte. Até a Inglaterra conservadora havia sido contagiada. Ao se separarem da Monarquia, os Estados Unidos formaram a primeira democracia republicana da história moderna e que mesmo em um território tão grande era viável. A figura do rei se torna dispensável. O texto de Thomas Jefferson referindo-se a igualdade dos homens, “com direitos alienáveis, incluindo a vida, a liberdade e a busca da felicidade” serviria de inspiração para outros povos. A Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos mudaram os paradigmas do mundo. Todas as outras “áreas de atuação humana foram afetadas por elas, incluindo as artes, a ciência e a tecnologia.” Exemplos de Beethoven, Goethe e Goya entre outros. A revolução tecnológica foi talvez a mais importante, pois diminui o tempo nas enormes distâncias de transportes e comunicação. A invenção do telégrafo e do barco a vapor foi fundamental, assim como as máquinas de produzir papel que reduziram os custos dos jornais, tornando-os viáveis a pessoas de menos posses. Todas essas inovações chegaram atrasadas ao Brasil, porém seu efeito foi devastador. A América portuguesa era analfabeta até 1808, isolada e fortemente controlada. A educação era do nível mais básico, as reuniões vigiadas e de cada cem brasileiros, menos de dez eram alfabetizados. As universidades começaram somente no início do século XX. Em Piauí todos os 70.000 habitantes eram analfabetos. O salário do professor era o mais baixo.  Nos Estados Unidos a cultura protestante era bem diferente, criando uma colônia civilizada e alfabetizada, que se mantinha informada das ocorrências da Europa. Harvard fora criada em 1686 e havia mais oito universidades. Em 1801 tinham uma Marinha de Guerra organizada e grande. No Brasil as informações só chegavam de formas clandestinas. As idéias revolucionárias do estudante mineiro Vandek, que queria a independência, originaram a Revolta dos Alfaiates na Bahia, Inconfidência Mineira, a Revolução Pernambucana e a Independência em 1822. Vandek fora influenciado por Jefferson.  Os mais pobres, no Brasil, também se engajaram na libertação. Entretanto essa colônia desprovida de qualquer cultura acompanhava atentamente e em segredo os acontecimentos que viriam a libertá-la. Só 2,5% dos homens eram alfabetizados e negros forros, escravos, mulatos chegavam à taxa de analfabetismo de 99%.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os brasileiros, em 1822, já tinham três séculos de dependência da corte portuguesa e sonhavam com um grande império. Com mais de oito milhões de quilômetros quadrados de superfície era maior que a área continental dos Estados Unidos e o dobro da Europa. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios e mestiços. Uma revolução espreitava os brancos. Houve um prenúncio de uma fragmentação como a da América espanhola. As rivalidades incitavam uma guerra civil. O país não tinha exércitos, navios, armas ou munições para sustentar uma guerra. Pagamento de soldos também não havia e os canhões estavam estragados. O tesouro estava vazio e o país dividido entre os que queriam a liberdade e os privilegiados que não a queriam. Quando D. João VI retornou a Portugal o país havia se transformado para melhor, com os treze anos de sua permanência aqui. Ocorre que antes de partir, D. João mandou esvaziar os cofres do Banco do Brasil, assim como levar todo o ouro, as pedras preciosas e diamantes que lá estavam guardados. Em três meses o Brasil quebrou, D. Pedro encontrou a pior das situações, sem defesas e sem fundos para nada. “O novo país tinha tudo por fazer e estava cercado de ameaças por todos os lados.” A corrupção e os desmandos na administração do dinheiro eram enormes. Quando D. Pedro viu-se nessa situação, na época com 22 anos, implorava para deixar o cargo e voltar, próximo do pai, em Portugal. O governo tomou duas providências – a primeira foram empréstimos internacionais e a segunda envolveu a prática da inflação.  As grandes fontes de riqueza como a extração do ouro, diamantes e a produção de açúcar haviam sido esgotadas. A saída foi o plantio de algodão para a próspera Inglaterra, com seus teares modernos. Além de dificuldades financeiras havia sérios problemas econômicos e, nessa junção problemática e temerosa, ocorreu a Independência do Brasil. O valor das saídas de algodão pelo porto do Recife saltou de 37% em 1796 para 83% em 1816 e a queda do açúcar declinara de 54% para 15%. Minas era a província mais populosa do Brasil com 600.000 habitantes, mas o eixo da economia se deslocava para o sul, vale do Paraíba, zona das lavouras de café. Em 1840 representavam 44% das exportações brasileiras. Começou um intercâmbio de produtos entre as províncias, como carne de charque, açúcar, cachaça, farinha de mandioca, carne-seca, banha, couro curtido e as boiadas abriram novas rotas entre as províncias. Isso tudo era prejudicado pela excessiva carga tributária. D. Pedro aboliu o imposto do sal e da navegação de cabotagem. Mas isso era pouco. O príncipe deu início à contenção de despesas domésticas, transferiu-se para o palácio da Quinta da Boa Vista e reduziu o próprio salário. Vendeu quase que o total de animais de cavalariças reais, uma das mais caras da época. Essas medidas não passaram de paliativas, a situação era gravíssima. De todos os problemas o maior eram as divergências internas. Em 1822, somente três províncias aderiram à independência: Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Outras não, caso da Bahia e de Pernambuco, onde havia tropas portuguesas. Pará e Maranhão também se mantiveram fiéis a Portugal. No sul havia a província Cisplatina (Uruguai), cujo comandante do regimento português encastelou suas tropas em Montevidéu. O território brasileiro ficaria, na época, menor do que o argentino. A situação era como “um grande quebra-cabeça.” Esses atos custaram muitas vidas perdidas. D. João VI foi quem havia dado unidade nacional ao país, com sua vinda para cá em 1808. Os delegados do Pará, Maranhão, Piauí e Bahia votavam contra as propostas brasileiras, em Portugal. O padre Diogo Antonio Feijó, futuro regente do império, declarara que “nós estamos, sim, independentes, mas não constituídos.” O poder dos reis, no mundo inteiro, estava sendo contestado, entretanto não havia uma solução sobre qual tipo de governo seria o melhor, “mais legítimo e eficaz.” De todas as sugestões anunciadas, “a república era, obviamente, a proposta que mais assustava quem tinha interesses estabelecidos... Essa forma de governo deixava o futuro muito incerto e ameaçador, especialmente para aqueles que tinham muito a perder.” D. João VI, em 1821, havia dado certos conselhos a seu filho: 1) A independência brasileira parecia inevitável. 2) O processo de separação tinha de ser controlado pela monarquia portuguesa. 3) D. Pedro precisava evitar que o país caísse nas mãos dos republicanos.  Caberia ao ministro José Bonifácio de Andrada e Silva colocar o projeto do monarca em prática. Só a presença do príncipe garantiria a unidade nacional e o êxito na luta contra Portugal. Sem ele a desunião era certa, segundo José Clemente Pereira. Finalmente o projeto dos monarquistas constitucionais venceu, graças a José Bonifácio. “As divergências regionais e as tensões sociais foram sufocadas à custa de guerras, prisões, exílios e perseguições.” Esses fatos foram longos e sofridos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1821, havia dois brasis diferentes. O Brasil da corte, bem informado das transformações da Europa, mas pequeno, formado de somente alguns milhares de pessoas. O outro era um território enorme, isolado e totalmente ignorante, não muito diferente de trezentos anos atrás, quando Cabral chegara. O Brasil informado tinha quase todas as facilidades européias, com navios de última geração, os a vapor.  Abundavam “os barões do açúcar, viscondes do café, marquesas da pecuária, condes das minas de ouro e diamantes e gentis-homens do tráfico de escravos, então ainda o grande negócio brasileiro.” A monarquia portuguesa, depois de 716 anos, tinha um número ínfimo dessas personagens. Os habitantes do Brasil tinham horror ao trabalho e havia esperteza e falta de transparência nas relações comerciais. Aqui as pessoas eram hospitaleiras, inteligentes, mas não tinham conhecimento para manter uma conversa de 15 minutos, apontava o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. “Os comedores de terra preferem a que é tirada dos formigueiros dos cupins, e há pessoas que mandam escravos buscarem um torrão desses formigueiros para com eles se regalarem,” afirmou.  Para o alemão Seidler esses dois brasis tinham em comum somente “a aversão ao trabalho e a total dependência da mão de obra escrava.” Ele fez um retrato devastador da relação entre senhores e escravos. Em 1822, aqui habitavam cerca de 4,5 milhões de pessoas assim divididos: 800.000 índios, um milhão de brancos, 1,2 milhão de escravos, 1,5 milhão de mulatos, pardos, caboclos e mestiços. Isso devido à miscigenação entre portugueses, negros e índios. O mapa do Brasil possuia mais ou menos os contornos de hoje. Uma novidade, em 1818, fora a chegada de suíços em Nova Friburgo, a fim de iniciar o projeto de branqueamento do Brasil. Uma colona suíça foi a ama de leite do futuro imperador Pedro nascido em 2 de dezembro de 1825. Esse foi o fim do período colonial brasileiro. Com a chegada da família real, o principal fato de desenvolvimento deu-se com a abertura dos portos e a Inglaterra inundou o Brasil com seus produtos. Em 1822 a metade dos navios atracados no Rio de Janeiro era inglesa. A abertura de estradas para ajudar a romper o isolamento do país foi outro dado importante, estimulando a colonização. A navegação fluvial também foi beneficiada. Houve a abertura da Escola de Medicina em Salvador e outras diversas melhorias fazendo com que o número de habitantes duplicasse entre 1808 a 1821. O surgimento da imprensa deu-se em 1808, todavia as notícias eram censuradas e no mesmo ano lançou- se, em Londres, o Correio Brasiliense para fugir da censura. Esta caiu, finalmente, em 2 de março de 1821. D. Pedro escrevia nos jornais com pseudônimos. No ano da independência já havia 53 jornais circulando. Alguns eram republicanos. “A música, de longe, era a arte preferida da corte portuguesa.” Várias peças foram escritas por artistas famosos, contemporâneos de Hyden e Beethoven. A criação de modinhas foi dessa época, tendo como iniciador o violonista e compositor Joaquim Manoel da Câmara. As pessoas influentes encontravam-se em saraus, onde a música era apreciada e discutida por todos. Marcos Antonio Portugal, professor de piano de D. Pedro, é considerado o mais importante compositor da corte de D. João VI. O príncipe recebeu excelente formação musical. D. João era considerado homossexual, juntamente com D. João de Almeida e Melo e Francisco Rufino de Sousa Lobato. O Brasil foi coberto por estrangeiros em missões artísticas, científicas e culturais. Isso era proibido nos primeiros séculos de colônia. Eles redescobriram o Brasil com D. João VI, país que agora era a sede oficial da coroa portuguesa. Esse distanciamento de Portugal e prosperidade da colônia ocasionaram perdas enormes para seus habitantes, que iniciaram uma rebelião para a volta do rei e ainda eram contra o domínio inglês no Brasil. Lá se acreditava que com o desfecho da guerra de Napoleão, o tratado com a Inglaterra seria revogado e a corte voltaria a Portugal. Ocorre que D. João não queria voltar, entretanto o seu retorno virou uma questão de honra. Em abril de 1821, D. João e a corte embarcaram para Lisboa.   O novo país encontrava graves dificuldades, no entanto esse episódio não assustou “os destemidos brasileiros de 1822 diante da perspectiva de conduzir seus próprios destinos depois de mais de três séculos de submissão a Portugal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Em 1821, as cortes constitucionais portuguesas precipitaram a ruptura com Portugal. Nessa época somente 46 deputados brasileiros tomaram posse em Lisboa. Os demais ficaram no Brasil por dificuldades de locomoção. O irmão de José Bonifácio, o deputado paulista Antônio Carlos, negou a existência de um partido da Independência no Brasil. O Brasil tinha interesse na continuação do Reino Unido com Portugal por motivos econômicos. Com a revolução liberal do Porto uma nova constituinte foi formada e aceita pelos brasileiros. Eles queriam uma monarquia constitucional e a volta imediata de D. João VI, o que ocorreu. Essa constituição tirava o absolutismo dos reis; era coisa nova e nunca testada em Portugal. Era uma revolução que tateava, apesar de inspirar-se na Revolução Francesa, anterior a essa. Além da nobreza e dos militares na delegação formada estavam inclusos padres, professores, advogados, comerciantes – a nova elite política e intelectual surgida com a permanência da família real no Brasil. Deputados brasileiros foram convocados para ir a essa sessão da nova constituinte. Foram de diversas províncias brasileiras incluindo os paulistas e inúmeros padres. Entretanto, “Só a representação de São Paulo levou instruções à constituinte portuguesa. Elaborado por José Bonifácio... defendia a integridade e a indivisibilidade do Reino Unido e igualdade de direitos entre brasileiros e portugueses.” Os deputados portugueses, entretanto, cassaram os privilégios concedidos por D. João VI nos anos anteriores e queriam recolonizar o Brasil. Desejavam a sua fragmentação para melhor controlá-lo. Desse modo D. Pedro, no Rio de Janeiro, ficaria cada vez mais isolado. Determinaram seu retorno imediato para completar a educação. O príncipe deveria viajar incógnito. Os portugueses diminuíram duramente as qualidades de D. Pedro e disseram: “O Soberano Congresso não dá ao príncipe opiniões, mas ordens.” “Não és digno de governar, vai-te!” A reação brasileira foi de revoltas e manifestos. Assinaturas a favor da permanência de D. Pedro começaram a ser organizadas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O barão Wenzel de Marescha da Áustria registrou que as medidas das cortes desorganizaram o país e criaram um ódio profundo contra os portugueses, acirrando o desejo de independência. O dia 9 de janeiro de 1822 passou para a história do Brasil como o “Dia do Fico”, pois D. Pedro recusou-se a voltar para sua terra. Entretanto, por duas vezes os portugueses tentaram levar Pedro e a família de volta, à força, mas não foram bem sucedidos.  Na segunda tentativa deixaram para trás a fragata Real Carolina, com 44 canhões. Durante essas invasões a princesa Leopoldina e os filhos pequenos refugiaram-se na Real Fazenda de Santa Cruz, mas o calor da viagem fez com que o principezinho herdeiro do trono morresse depois de 28 horas seguidas de convulsões. D. Pedro mostrava-se inconsolável ao dar a notícia a José Bonifácio e, ao pai, prometeu vingança. “A partir daí, as relações entre brasileiros e portugueses azedaram de vez.” Os deputados brasileiros em Portugal revoltaram-se, fugindo para a Inglaterra sem os passaportes e voltaram ao Brasil. José Bonifácio agiu rápido e restaurou a administração das províncias a partir do Rio de Janeiro. Ele anunciou aos diplomatas de nações amigas que o Brasil passaria “a proclamar solenemente sua independência.” “As cortes proibiram o embarque de armas e reforços para as províncias obedientes ao Rio de Janeiro e determinaram que D. Pedro dissolvesse o novo governo. Foram essas as ordens que o príncipe recebeu das mãos do mensageiro Paulo Bregaro naquele tarde de 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Pedro havia partido, às pressas, para Minas Gerais onde existia uma rebelião separatista. Era um acontecimento grave, pois a província contava com o maior contingente habitacional do país (600.000), sendo poderosa política e economicamente. O príncipe saiu acompanhado de apenas dez pessoas. Representava um risco esse fato, já que se acontecesse alguma coisa ao herdeiro da coroa portuguesa tudo iria por água a baixo. Cavalgavam o dia inteiro por estradas perigosas e chovia torrencialmente. “Nada disso parecia abalar o ânimo de D. Pedro. Ao contrário, estava fascinado com o que via pelo caminho.” “Era a primeira vez que se embrenhava pelo interior do Brasil...” Foi bem recebido em Minas, visitou as principais cidades e voltou ao Rio de Janeiro, imediatamente, viajando os 530 quilômetros de volta em quatro dias e meio. Depois viria para São Paulo para o épico 7 de setembro, que o aguardava. A segunda viagem começaria três semanas antes do Grito da Independência, também com uma diminuta comitiva de cinco pessoas. Pernoitou na Fazenda das Três Barras, em Areias e em Lorena assinou um decreto dissolvendo o governo provisório de São Paulo e dispensou a guarda de honra. Passou pelas outras cidades do vale do Paraíba “e, finalmente, Penha, já nas vizinhanças de São Paulo.” Em todas essas cidades era aclamado. “Era a primeira vez que a população simples do Paraíba e cidades vizinhas viam um membro da família real portuguesa.” Afonso de Freitas comenta que “a São Paulo que hospedou D. Pedro era ainda uma pequena cidade, quase aldeia, acanhada e de ruas, estreitas e tortuosas.” O vilarejo de poucas casas abrigava na área urbana somente 6.920 habitantes. As mulheres formavam 60% da população. Havia três médicos, três boticários, dois advogados, nove professores, um tabelião, 92 costureiras, 48 rendeiras, 46 comerciantes, um fabricante de colchas, 24 carpinteiros, 21 alfaiates e assim vai a números cada vez menores. Chegando começou a trabalhar rapidamente, ouvindo, conversando e decidindo questões urgentes. Em 20 de agosto escolheu o novo governo provisório de sua confiança. Em São Paulo conheceu a futura Marquesa de Santos, que mudaria sua vida e a do país. Ele era um músico talentoso e segundo o historiador Alberto Souza já havia composto a música do atual Hino de Independência no Rio de Janeiro. O quadro de Pedro Américo foi apresentado ao imperador Pedro II, 66 anos depois da Independência! “A versão era mais importante do que a realidade. Começava ali a construção de um país mais imaginário do que real.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro imperador viveu pouco, 35 anos, todavia seu mito permanece até hoje em obras que inspirou. De seu pai herdou a musicalidade. De sua mãe o amor ao sexo. Era elegante em público, mas simples em sua vida dentro do palácio, assim como seus hábitos alimentares. Todavia era extremamente centralizador, hiperativo e “se imiscuía em questões pequenas diante da importância de seu cargo.” Tinha espírito alerto para aproveitar-se financeiramente de seu cargo, fazendo falcatruas mesquinhas que não estavam a sua altura. “Tinha prazer em mandar e abominava ser desafiado... No tratamento com os ministros era sempre autoritário e inquisitivo.” D. Pedro era prático e comum, apesar de sua arrogância no cargo. Seu caráter era impulsivo, volúvel e propenso a mudanças de humor repentinas seguidas de reconciliações. Era também epilético, um grave problema para um imperador. Nascido em uma corte muito conservadora, foi a segundo filho de D. João e Carlota Joaquina. Segundo uma lenda o primogênito sempre morreria e assim ocorreu novamente. Ele seria o herdeiro a governar Brasil e Portugal em um dos piores momentos da história dos dois países. “São escassas ou imprecisas as informações sobre sua educação... cartas e registros revelam “domínio precário da língua portuguesa. Há erros de ortografia, concordância e, em especial, de falta de pontuação.” Seu pai chegou a recomendar-lhe que quando escrevesse tivesse vigilância, pois os escritos seriam lidos por todo mundo e deveria ter cautela com o conteúdo e as explicações. Era pleno em qualidades, mas sua educação havia sido relegada, o que é contestado por Octávio Tarquínio de Souza, seu biógrafo. Gostava de se atualizar com leitura e aí descobriu as novas idéias dos novos tempos. “O meu esposo, Deus nos valha, ama novas idéias” escreveu a jovem e alarmada princesa Leopoldina ao seu pai, imperador da Áustria, em junho de 1821.  Na música seus professores foram os melhores maestros e compositores, como Marcos Antonio Portugal e Sigismund Neukomm. Em troca de cartas com o pai, mostra como se atualizou e evoluiu politicamente. Escreveu a ele “É um impossível físico e moral Portugal governar o Brasil, ou o Brasil ser governado por Portugal. Não sou rebelde... são as circunstâncias.” “De Portugal nada, nada; não queremos nada!”... “Triunfa e triunfará a independência brasílica ou a morte nos há de custar.” Comentou após o grito da Independência. Esse jovem destemido, todavia aventureiro e adúltero, teve sete filhos com Leopoldina e um com a segunda esposa, Amélia. Fora do casamento por volta de dezoito. Sua história sexual é bastante ruidosa e sombria, tendo começado muito cedo, na adolescência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Leopoldina pertencia a uma estirpe nobre e inigualável. Seu pai, Imperador Francisco I, vinha da linha dos Hasbsburgo austríacos, linhagem que estava no poder havia 350 anos. A intelectual e íntegra princesa “preferia colecionar rochas, borboletas, plantas e animais silvestres a participar das festas e noitadas que tanto fascinavam o marido.” Casou-se ao vinte anos, por procuração e chegou ao Brasil, em 5 de novembro de 1817. Estava iludida a respeito de seu marido e do país, mas foi fundamental para a independência. Engravidou 9 vezes em 9 anos, dos quais 7 filhos sobreviveram e morreu muito jovem, triste e totalmente solitária. “Passou necessidades e afundou-se em dívidas distribuindo esmolas para os pobres do Rio de Janeiro.” Cresceu em meio a guerras que mudaram o mapa político da Europa depois da Revolução Francesa. Sua tia Maria Antonieta fora decapitada em Paris. Em 1810 sua irmã, Maria Luísa, foi obrigada a se casar com Napoleão em troca da paz. As princesas de Viena eram educadas para servir ao estado, ou seja, engravidar o maior número de vezes. “Amor e felicidade no casamento eram coisas acessórias, com as quais jamais deveriam contar.” Leopoldina começou cedo sua vida de estudos e etiqueta.  Havia exercícios de leitura e memorização, visita a museus e exposições, participação em eventos beneficentes e assim por diante. Sua formação privilegiava o protocolo e anulava qualquer desejo! O casamento com D. Pedro envolvia altos interesses políticos, pois D. João VI precisava estreitar os laços entre os dois países para contrapor a imensa influência inglesa sobre Portugal. Leopoldina levou cinco meses para chegar ao novo país, num trajeto de 8.000 quilômetros. Sua bagagem era espetacularmente grande, com 42 caixas da altura de um homem, além de enxoval, biblioteca, coleções de ciências naturais, presentes de casamento e três caixões caso viesse a morrer. Uma camareira-mor, um mordomo-mor, seis damas da corte, quatro pajens, seis nobres húngaros, seis guardas, seis camaristas, um capelão e a maior expedição científica que já viera ao Brasil, com pintores, naturalista e desenhistas que voltariam a Europa com cargas exóticas. A mineralogia era o assunto predileto de Leopoldina, que sonhara em vir ao Brasil para estudar suas rochas.  “Era tudo um terrível engano.” Não havia pessoas cultas nem tão boas. Os habitantes digladiavam-se em conspirações, tornando o ambiente insuportável para a jovem.  A realidade, nos trópicos, era bem outra. O Rio de Janeiro era sufocante, insalubre, cheio de insetos nos pântanos e esgotos sem tratamento e se transformava num lamaçal nas épocas de tempestades. Após o embarque, assuntou-se ao saber que o marido era epilético e tinha explosões de fúria que a assustavam. “Leopoldina ficava trancafiada para que o príncipe não fosse surpreendido pela mulher em suas famosas escapadas.” Relatou que só podia calar e chorar em silêncio. Nos três primeiros anos, apesar de tudo, o casamento foi relativamente feliz. Nasce a primeira princesa e futura rainha de Portugal, Maria de Glória. Depois dela viriam mais seis filhos. Após sete gestações, vivendo nos trópicos inóspitos e de tez muito clara, tornou-se uma matrona. Portanto D. Pedro abusava cada vez mais em suas escapadas.  O marido não lhe dava um único presente ou atenção, no entanto a princesa envolvia-se cada vez mais nos acontecimentos que precederam a Independência. A psicanalista Maria Rita Kehl cita que o ano de 1821 foi o de mudanças decisivas na vida da princesa. Foi ela quem convenceu José Bonifácio a aceitar sua nomeação de ministro em janeiro daquele ano. A declaração da Independência do Brasil foi feita por Leopoldina e Bonifácio e depois enviada a D. Pedro, que se encontrava em São Paulo. Contudo, observou que, abandonada pelo marido e não tendo como voltar para sua pátria, “estava abandonada a própria sorte no Brasil.” O marido se apaixonara perdidamente por Domitila, futura Marquesa de Santos. D.Pedro levou a amante para o Rio de Janeiro, onde seria muito bem recebida e amparada, enquanto sua esposa era cada vez mais relegada e “humilhada em público.” Suas finanças tiveram um papel importante no declínio de sua saúde e bem estar. Em 1826, ano de sua morte, o parlamento brasileiro fez uma dotação orçamentária de emergência para cobrir seus débitos com os necessitados. De D. Pedro não recebia a mesada estipulada no contrato de casamento e ainda lhe emprestava dinheiro. Educada em uma rica e nobre corte não tinha noção de como enfrentar as dificuldades desse país falido. Gastando em excesso com a família e com os pobres, passa a depender de um agiota, Schäffer, um crápula sem escrúpulos, que arruína sua vida. Em novembro de 1826, D. Pedro parte para acompanhar de perto a Guerra Cisplatina. No dia 29, Leopoldina, muito “doente e deprimida, presidiu a reunião do conselho de ministros.” No dia 2 de dezembro abortou seu nono filho. “Morreu às 10,15 do dia 11 de dezembro, um mês antes de completar trinta anos.” Foi pranteada pelos pobres do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Bonifácio, em 1819, morando em Coimbra como funcionário graduado, pedia a D. João VI autorização para voltar a Santos, viver no sertão e morrer junto aos familiares. Esse pedido foi feito reiteradamente por mais de uma década e sempre negado. Com 59 anos, idade razoável para a época, conseguiu retornar ao Brasil. Entre 1790 e 1791, quando estava em Paris testemunhara o furor da Revolução Francesa  e depois, em Portugal, lutou contra o exército de Napoleão Bonaparte. Portanto, considerava que já havia cumprido sua missão. Ocorre que caberia a ele ser o principal conselheiro do príncipe. Ficou apenas 18 meses à frente do Ministério, mas nesse período realizou os fatos mais importantes para nossa história. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria... Era um homem com um projeto de Brasil... Na sua visão a única maneira de impedir a fragmentação do território brasileiro após a separação de Portugal seria equipá-lo com um “centro de força e unidade” sob o regime de monarquia constitucional e a liderança do imperador D. Pedro I.” E assim foi feito. Coube a ele afastar as más influências e formar um elo entre a diversificada sociedade brasileira. Estranhamente, Pedro e José, homens tão diferentes se completavam “na forma inquieta de viver.” Bonifácio, tido com sisudo e rigoroso, era na verdade um poeta e boêmio. Adorava as mulheres e teve inúmeras amantes e dois filhos bastardos. Sua família pertencia à alta elite paulistana que observava com interesse os últimos acontecimentos da Europa e dos Estados Unidos. Os paulistas, considerados por alguns como matutos ou caipiras, na opinião do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, eram na verdade “homens altivos, intrépidos, habituados a uma vida áspera de lutas, fadigas e privações.” Os irmãos de José Bonifácio tiveram papéis importantes na Independência. Bonifácio tornou-se o tutor dos filhos de D. Pedro I. Seu papel político no Brasil foi igual ao de Thomas Jefferson na independência dos Estados Unidos. Ambos estiveram em Paris durante a Revolução Francesa. Thomas justificava o sangue derramado, José não. Percebeu que os brasileiros não estavam preparados para isso, com sua enorme quantidade de analfabetos, escravos e miseráveis. Em um país de analfabetos, Bonifácio poderia ser considerado o mais culto e preparado estadista de Portugal ou do Brasil. “Acreditava que a miscigenação racial brasileira era uma virtude da qual o país poderia se beneficiar no futuro.” Gostava da mistura mulata, com seu lado europeu e africano. Contudo, ao chegar ao Brasil com uma mulher irlandesa e três filhos, chocou-se com a exploração da mão de obra escrava. O Brasil continuava o mesmo de tantos anos atrás. A abolição da escravatura passa a ser sua questão fundamental. Por TREZENTOS anos, o tráfico negreiro funcionava como dínamo principal da economia colonial da época, como mão de obra barata para as diversas lavouras, minas de ouro e diamantes e outras atividades. Ele admitia que se a lei defendia a propriedade deveria ainda mais defender a liberdade pessoal de qualquer homem, pois não poderiam ser “propriedade de ninguém”. No final de 1821, José soube do clima de revolta contra os portugueses, no Rio de Janeiro e que a corte de Portugal ordenava o embarque imediato de Pedro para o país. Bonifácio redigiu um documento realista alertando para o “rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil”, caso Pedro acatasse aquelas ordens.   Bonifácio chegou ao Rio uma semana depois do Dia do Fico e foi nomeado ministro contra sua vontade. Seu projeto de governo para o Brasil era de um país unido em torno do príncipe herdeiro, D. Pedro. José Bonifácio exigiu, desse modo, “a independência com a monarquia constitucional, as liberdades individuais garantida por uma autoridade estável e desinteressada,” segundo o historiador Tarquínio de Souza.  O encontro com os paulistas era premente nesse momento. Queria a reforma agrária e educacional, na estrutura econômica e social do país, com a extinção dos navios negreiros e gradual abolição da escravatura. Foi preso e deportado para a França com a dissolução da primeira constituinte, em novembro de 1823. Daí em diante “José Bonifácio se converteria num áspero crítico de D. Pedro.” No exílio encontrou a paz com uma nova atividade intelectual – a poesia, sob o pseudônimo de Américo Elísio. Em 1831, vários anos depois, quando D. Pedro I foi forçado a abdicar do trono e partir para a Europa, nomeou Bonifácio como tutor de seus filhos, entre eles o futuro D. Pedro II.  Ao assumir o novo posto foi alvo de inveja dos antigos adversários políticos e afastado da tutoria de D. Pedro II, em 1833. Isolou-se na ilha de Paquetá e morreu em 1838, em exílio voluntário e desiludido com a política brasileira. Seus restos mortais encontram-se na cidade de Santos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve grande derramamento de sangue em 1822. Nas ruas o povo era agredido a golpes de porrete, pontapés ou assassinado. Os portugueses armados desafiavam os brasileiros que apoiassem a nova resolução. “Esta cabrada se leva a pau.” Uma guerra paralela ocorria com a mudança de nomes portugueses por denominações indígenas de árvores e animais silvestres para demonstrar a fidelidade à causa brasileira. Mesmo as grandes personalidades adotaram essa atitude. O mito da independência pacifica é desmentido pela longa e desgastante guerra, que durou 21 meses. Milhares de pessoas perderam a vida e o número de combatentes nesses conflitos foi maior do que das guerras da libertação da Américas espanholas nesse mesmo período. Isso ocorreu em todo o país. Contudo, Pará, Maranhão, Piauí, Alagoas ignoraram a independência, aderindo à causa portuguesa, por interesses pessoais. Outros estados também relutaram bastante, todos do nordeste. A guerra ocorreu em duas frentes: no sul e no nordeste. A sorte seria decidida na Bahia. A corte portuguesa enviara um grande contingente de armas e soldados para tornar Salvador um local “inexpugnável aos ataques brasileiros.” Os brasileiros se prepararam para a retaliação e deveriam incendiar ou afundar quaisquer lanchas ou navios portugueses. O príncipe determinou fortificações em pontos vulneráveis e recorreu à “crua guerra de postos e guerrilhas... até a vitória final contra os invasores.” A princípio os boatos impediram saber exatamente o que ocorria de ambos os lados. De início Portugal, organizado e muito mais experiente, contando com o apoio da Europa, parecia levar vantagem. No Brasil o exército era de esfarrapados. O país não tinha Exército ou Marinha de Guerra. “Sem reconhecimento internacional as perspectivas de apoio diplomático eram nulas. Empréstimos, só a juros escorchantes.” O domínio dos mares era a principal empreitada para o sucesso. No Brasil não havia nenhuma tecnologia moderna para os navios ou o que quer que fosse. A organização de uma força naval era o item mais importante a ser consolidado pelo gabinete, organizado por José Bonifácio. Listas para coletar fundos para a compra de navios foram organizadas. “Era a primeira vez que os brasileiros se mobilizavam em torno de uma causa comum.” Até mesmo as pessoas comuns doaram suas alianças de ouro. O brigue Caboclo foi o primeiro navio comprado nessa campanha. Os 160 oficiais de marinha eram quase todos portugueses e pouco confiáveis. “As dificuldades do mar se reproduziam em terra.” No Brasil existia uma aversão generalizada ao serviço militar. Os jovens eram laçados com cordas e despachados para o Rio de Janeiro. Muitos jovens amputaram pés e mãos para se livrar desse destino. Os ricos recorriam aos chefes locais para livrarem-se da convocação.  Na verdade os mais humildes é que defenderam o Brasil e “ampararam a independência.” Com o fim das guerras napoleônicas, a Europa era um lugar perfeito para fornecer bons oficiais, navios militares e marinheiros. Felisberto Caldeira Brant voltou-se para lá, a fim de recrutar reforços. Duas fragatas equipadas foram compradas de um antigo oficial britânico. Depois compraram mais quatro com bônus do Tesouro Nacional. Essas compras e a contratação de soldados mercenários foram de grande ajuda ao exército nacional. Para burlar as leis européias que proibiam a contratação de soldados mercenários, o Brasil recrutava-os sob o disfarce de colonos agricultores.  Os oficiais seriam supervisores ou feitores. “A Guerra da Independência foi decidida pela bravura dos patriotas brasileiros e dos colonos e mercenários estrangeiros...” Em julho de 1823 os portugueses abandonaram Salvador, depois Maranhão e Pará e finalmente o nordeste. Os brasileiros foram liderados por “Lord Thomas Cochrane, um escocês louco por dinheiro e um herói maldito da Independência do Brasil.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro almirante da Marinha de Guerra brasileira, esse escocês é considerado herói e vilão ao mesmo tempo. Na época da Independência ele era uma celebridade internacional, mas hoje é odiado principalmente no Maranhão.  Era uma figura alta, bela e intrépida. Impôs a Napoleão Bonaparte, que o chamava de El Diablo, derrotas humilhantes e, como mercenário, lutou pelo Peru, Chile, Grécia e Brasil, sendo sua ação decisiva em todas as vitórias. “Uma de suas especialidades era investir contra frotas de navios muito maiores e mais bem equipados usando barcos incendiários”, que explodiam e espalhavam chamas. “Suas inovações incluíram lâmpadas de comboio usadas em navios, propulsores a vapor, máquinas de alta pressão e armas químicas”, enfim tecnologia mais avançada. Esse homem narcisista era apaixonado por dinheiro. Em 1814 sua boa sorte inverteu-se quando se envolveu com a bolsa de valores, em Londres. Foi preso e multado por conspiração. Sua popularidade era invejável, pois apesar disso foi reeleito para o parlamento, na cadeia. Demitido da Marinha, perdeu o título de nobreza que havia conquistado nos tempos de glória. Aí começou sua fase mais importante: libertador de países sob jugo das metrópoles. Queria seqüestrar Napoleão da Ilha de Santa Helena, trazê-lo à América do Sul para, como imperador, servir de contraponto geopolítico ao poder dos Estados Unidos no novo continente. Os pernambucanos já haviam pensado nesse plano, em 1817, para combater D. João VI e depois Napoleão voltaria à França. Esse homem audacioso conseguiu libertar as colônias espanholas no litoral chileno e peruano. Mas o dinheiro era sempre o incômodo maior para os países libertados por ele, que praticava ações de pirataria e roubo. Ele estava no Chile quando foi convidado a ajudar o país com oficial mercenário, chegando em março de 1823. Foi indicado a José Bonifácio por Felisberto Brant Pontes. O governo dar-lhe-ia o que quisesse desde que fosse um ganho recíproco. O Brasil decreta que “Todas as presas (cargas) tomadas em guerra serão de propriedade de quem as capturar”. Isso foi o suficiente para convencê-lo. Trouxe consigo a inglesa viúva Maria Graham, de 37 anos, a qual se tornaria amiga de confidente da imperatriz Leopoldina e preceptora da princesa Maria da Glória. Deixaria, também, um registro valioso sobre o Brasil da época, com gravuras e diários de viagens. Os barcos brasileiros eram até bons, mas Cochrane chocou-se com a armada brasileira, a tripulação era da pior espécie de portugueses e assim a primeira investida sob seu comando, na Bahia, fracassou. As condições gerais eram péssimas, pois os portugueses sabotaram os brasileiros e o almirante preferiu fugir a ser capturado. Na segunda investida ele bloqueia o porto de Salvador, impedindo o abastecimento da armada portuguesa. Em dois meses, no dia 2 de julho de 1823, toda a esquadra de Portugal deixou a capital baiana. “Cochrane os perseguiu, conseguindo capturar 16 barcos de fazer 2000 prisioneiros.” A jovem Marinha brasileira passou a ser temida pelo inimigo. Depois atacou o Maranhão e o Pará com sucesso. Em São Luís, saquearam a cidade inteira, como se fosse um território inimigo conquistado. Os habitantes revoltaram-se, contudo nada puderam fazer. Os festejos pelas vitórias no Norte e Nordeste foram efêmeros, pois as relações entre as partes foram prejudicadas por motivos financeiros, como sempre. O almirante voltou a extorquir os maranhenses mais uma vez, depois de ter ajudado na Confederação do Equador, bloqueando o porto de Recife. Desse modo abrasivo, Cochrane dá por encerrada sua missão no Brasil. Partiu para a Grécia e morreu em 1860, enterrado com honrarias por parte dos ingleses. “Sua reputação de herói da independência, porém, estava irremediavelmente manchada.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Campo Maior, sertão do Piauí, deu-se o pior e mais trágico confronto na Guerra da Independência e foi batizado como a Batalha do Jenipapo. As perdas brasileiras foram de 500 prisioneiros de 200 mortos, pois o exército era improvisado e frágil. Do lado inimigo houve apenas 16 mortos. Piauí era tipicamente brasileiro, misturado e miscigenado. “Na verdade a independência nessas regiões foi conquistada palmo a palmo ao custo de muito sangue e sofrimento.” A província, em 1822, era um “fundo de quintal do Brasil”, habitado por vaqueiros e jagunços. Levaram um ano para receber sua carta régia na qual ganhavam autonomia. “Nesse sertão, por costume antiqüíssimo, a mesma estimação têm brancos, mulatos e pretos e todos, uns e outros, se tratam com recíproca igualdade, sendo rara a pessoa que se separa deste ridículo sistema.” Assim escreveu de maneira preconceituosa seu governador em 1776. Em 1822 “uma onda revolucionária varria o sertão nordestino.” Começando na Bahia logo se espalha pelas outras províncias. A tragédia de Jenipapo, com muitos mortos e “o chão coalhado de sangue”, mais parecia uma derrota, mas demonstrava a determinação dos brasileiros em lutar pela liberdade. Piauí afundou na desordem. Bandos armados andavam pelas cidades e fazendas espoliando os portugueses ou qualquer um que fosse contra a Independência. Contudo, no final de julho, as cortes haviam sido dissolvidas em Portugal e o inimigo rendeu-se, voltando para a Europa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Os baianos comemoram a Independência do Brasil com mais entusiasmo do que o resto do país. A festa é no dia 2 de julho, data em que seus algozes foram expulsos em 1823. Esse povo foi o que mais sofreu e lutou pelo acontecimento. A guerra durou um ano e cinco meses, custando centenas de vidas. Os portugueses haviam deixado o Sul e Sudeste para D. Pedro, mas o Norte e Nordeste queriam preservar para a corte. Eles criam que, com esta região conquistada, poderiam voltar-se contra o resto do país. “A resistência baiana decidiu a unidade nacional” relata o historiador Tobias Monteiro. A Bahia era a terceira província mais populosa. Salvador agrupava uma importante indústria naval e era centro exportador de açúcar, tabaco, algodão e outros produtos agrícolas, porém a principal atividade era o tráfico negreiro. “Negros altos e atléticos podem ser vistos movendo-se em duplas ou grupos maiores... com pesadas cargas entre eles... lembrando uma serpente negra enrolada sob o sol... Cantam e dançam enquanto caminham, mas o ritmo é lento e melancólico, como numa marcha fúnebre”, escreveu estarrecido um observador estrangeiro que passava pela Bahia. Em 19 de fevereiro centenas de oficiais, soldados e civis aquartelaram-se no Forte de São Pedro. Um mensageiro trazia uma ordem do general Madeira exigindo a rendição dos revoltosos, mas Sabino da Rocha Vieira, mulato de olhos claros, médico, jornalista, culto, homossexual e obcecado pelos ideais franceses, liderou com o apoio dos escravos, a Sabinada, onde tentou em vão fundar uma República Baianense. Madeira mandou bombardear o quartel rebelde e, em quatro dias trezentas pessoas foram mortas. Em alguns dias o restante da Bahia colocou-se a favor da Independência, “formando um cinturão de isolamento aos portugueses encastelados em Salvador.” A conquista sobre os inimigos pelos empobrecidos e famintos baianos “foi a mais singela, e talvez a mais heróica, de todas as batalhas navais da independência brasileira.” “Os soldados estavam descalços, famintos e com os soldos atrasados. Muitos morriam de tifo e impaludismo, febres endêmicas no Recôncavo.” Faltavam remédios, médicos, absolutamente tudo.  No Rio de Janeiro, organizaram um exército carente e indisciplinado que foi comandado pelo francês Pierre Labatut. Desembarcaram em Alagoas e seguiram até o Recife, a fim de arregimentar mais homens, então se dirigiram à Bahia em uma viagem árdua de quase três meses. Ali estabeleceram um quartel general que Labatut comandou por dez meses, o que causou constrangimento à província. Labatut, oficial importante para o Brasil, acabou destituído de seu comando, cinco semanas antes do final da guerra. Ele ainda combateria em outros rincões do Brasil. Promovido a general de campo, morreu em 1849 - Salvador, aos 73 anos. Enquanto o exército brasileiro se fortalecia, o comando português ficava refém da ajuda de Lisboa. A inflação disparou. Uma heroína brasileira destacou-se nas batalhas, Maria Quitéria de Jesus de trinta anos. Em todos os combates destacou-se por sua bravura. Labatut conferiu-lhe o posto de primeiro-cadete. Foi recebida e condecorada por D. Pedro I com a Ordem do Cruzeiro. Maria Graham dizia ser ela uma moça viva, inteligente de modos femininos, gentis e amáveis. A vitória final dessa província viria no dia 2 de julho de 1823. “O mar estava sereno e calmo, havia sol e céu azul&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O novo Brasil formara-se frágil, pois havia grandes diferenças de opinião sobre como organizar e conduzir a nova nação. O país queria liberdade geral e os jornais foram os primeiros veículos a anunciar as mudanças desejadas e novas medidas. Defendiam: “Pedro I sem II.” A monarquia deveria ser uma solução em curto prazo. “O uso de uma flor na lapela, a sempre viva, indicava adesão às idéias republicanas e federalistas. Outra flor, a camélia, era o símbolo dos abolicionistas” e assim por diante. A primeira constituinte foi instalada em 3 de maio de 1823 e dissolvida seis meses depois. José Bonifácio não queria que D. Pedro I jurasse “às cegas”, uma constituinte ainda inexistente. Os liberais como ele defendiam que a autoridade do imperador, por tradição e herança histórica, sustentar-se-ia por si mesma. Seria, assim, superior à constituinte e de todo o “restante da sociedade brasileira.” Ele seria um imperador constitucional e, portanto, estaria limitado à constituição. Teria de jurá-la antes que fosse elaborada.  Bonifácio revelou-se tão autoritário e conservador quanto D. Pedro. A imprensa voltou a ser censurada e nesse clima foi que se instalou a constituinte. As alas de Bonifácio e as de Clemente Pereira e Gonçalves Ledo discordavam. D. Pedro só poderia cumprir, como qualquer brasileiro, o que ela determinasse. Os deputados teriam de ser alfabetizados e possuírem bens, em um momento em que o analfabetismo atingia 99% do país. De cem candidatos, 89 tomaram posse. “Era a elite intelectual e política do Brasil, composta de magistrados, membros do clero, fazendeiros, senhores de engenho, altos funcionários, militares e professores.” Muitos deles haviam representado o Brasil em Portugal. D. Pedro I declarou, finalmente, que deveriam elaborar uma constituinte que fosse “digna do Brasil e de mim.” Os liberais se apavoraram com a mensagem, pois a constituinte deveria ser digna do Brasil, “cabendo ao imperador cumpri-la como todo mundo.” Cipriano Barata, liberal, acreditava que o “nosso imperador é um imperador constitucional e não o nosso dono.” Reivindicações vinham de todo o Brasil. O projeto da Constituinte foi vitimado por várias crises e não vingou, além do mais, Bonifácio era a favor da proibição do tráfico negreiro que aumentava os lucros dos grandes latifundiários e senhores de escravos. O gabinete de Bonifácio esfacelou-se e caiu em meados de julho. O ministro foi demitido pelo seu desejo de abolir o comércio de escravos e emancipar gradativamente os cativos, declarou no seu exílio, em Paris. O Brasil permaneceria escravocrata por mais 66 anos. A Lei Áurea foi assinada em 1889. O parlamento brasileiro, após a dissolução da constituinte, seria submetido às forças armadas por diversas vezes. O três irmãos Andradas foram deportados para a França. A primeira Constituição brasileira, de março de 1824, “era uma das mais avançadas da época na proteção dos direitos civis.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duzentos anos, Pernambuco era uma das maiores províncias do Brasil. No começo do século dezenove ela foi retalhada, por razões políticas, até resumir-se a 98.311 quilômetros quadrados.  Pernambuco foi o único estado brasileiro fatiado pela rebeldia, pois se lançara em guerras e devoluções. Perderam cerca de 60 % de seu território transferido “provisoriamente” para Minas Gerais e depois uma área para a Bahia. Os pernambucanos temiam as intenções do imperador “na condução dos negócios brasileiros.” Em 1817, eles haviam entregado a D. João VI 32% da arrecadação para sustentar a corte. Temiam que os sulistas tomassem o lugar dos portugueses, no caso de opressão.   Os federalistas gostariam de ter um país mais parecido com o atual.  Frei Caneca foi o líder dos federalistas pernambucanos. Estudou no seminário de Olinda, centro intelectual do Brasil colônia, onde se discutia as idéias vindas da Europa e dos Estados Unidos. A dissolução da Assembléia, em 1824, aumentou as suspeitas da autoridade do imperador.  Até o final do século 18, a classe dominante pernambucana eram os senhores de engenho, que exportavam o açúcar para o exterior através de Portugal. Com a expansão do algodão no agreste, essa classe muda e quer ter liberdade de exportar, sem intermediação de Portugal, pois isso encareceria as relações comerciais com a Inglaterra, que já possuía modernos teares. Eles tinham necessidades revolucionárias que permitissem a quebra de monopólios. Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará se enquadravam nesse perfil. Gervásio Ferreira, rico comerciante de Recife, era um dos que não concordavam com D. Pedro e recusou-se a enviar os estoques de pau-brasil para o Rio de Janeiro, com a finalidade de amortizar a dívida do Banco do Brasil. Foi substituído pelos senhores da “açucarocracia”, mediante a promessa de não abolir a escravidão. Em dezembro um conselho formado por colégio eleitoral dos fazendeiros, comerciantes, juízes, padres e intelectuais substituiu a antiga junta por outra presidida por Manuel de Carvalho Paes de Andrade, que detestava os portugueses e admirava os Estados Unidos. Dizia “A perfídia e a crueldade são as duas notas que distinguem os portugueses dos outros povos da Europa.” Paes de Andrade e seus asseclas exigiram que D. Pedro I cancelasse a dissolução da constituinte e trouxesse de volta o grupo preso e deportado após a Noite da Agonia, composta pelos Andradas e um padre. Nesse ínterim, Portugal havia enviado uma grande frota para recapturar a capital brasileira. A Confederação do Equador, de 1824, convocava as províncias do Norte a juntarem-se a Pernambuco e formarem uma constituição que fosse análoga ao sistema americano e não parecida com a velha Europa. A nova nação teria outra bandeira e obviamente outras fronteiras no norte. Paes de Andrade enviou um representante aos Estados Unidos com o intuito de pleitear o reconhecimento da nova Confederação, mas os americanos simplesmente ignoraram o documento. A província do Ceará foi a que mais aderiu a esse movimento separatista.  “A reação de D. Pedro a esses fatos foi devastadora e imediata.” Tentou subornar Cochrane com quatrocentos contos de réis ou 80.000 libras esterlinas para que mudasse de lado, mas o almirante recusou, pois tinha muito mais dinheiro a receber do português. Caxias intimidou os revolucionários. Em 12 de setembro a capital pernambucana foi ocupada e Paes de Andrade fugiu para a Inglaterra e voltaria apenas após a abdicação de D. Pedro I, quando seria um importante senador do Império. Frei Caneca foi executado em janeiro de 1825. Teve uma morte humilhante e sangrenta. Depois de fuzilado foi recolhido pelos carmelitas e sepultado em uma das catacumbas da ordem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A maçonaria teve um papel fundamental na Independência, mas é um erro apontá-la como um grupo homogêneo.” Várias disputas foram travadas nesse local.  A corrente de Joaquim Gonçalves Ledo defendia a república e a de José Bonifácio queria manter D. Pedro I como imperador e monarca constitucional. D Pedro participava ativamente dos dois grupos e jurou promover a “integridade, independência e felicidade do Brasil como reino constitucional.” Manuel de Oliveira Lima, historiador, afirmou que a maçonaria “funcionou em 1822 como uma escola de disciplina e de civismo e um laço de união entre os esforços dispersos e dispersivos.” Como não havia partidos políticos organizados, mas sociedades secretas elas levavam a idéia de independência para todo o Brasil. No começo do século dezenove, a maçonaria era tão subversiva como a Internacional Comunista, no século vinte. Essas idéias eram espalhadas de um país para outro e de um continente para outro “com celeridade e eficácia.” A maçonaria promoveu grandes avanços políticos e sociais que a colocava em confronto com a nobreza. Ela foi a responsável pelas transformações que ocorreriam nos dois séculos seguintes. Foi essencial na independência americana, pois dos 56 homens que assinaram o documento, 50 eram maçons, incluindo Benjamin Franklin e George Washington. No Brasil o grão-mestre D. Pedro proclamou a independência do Brasil e a República foi proclamada por outro, marechal Deodoro da Fonseca. As primeiras lojas apareceram no país no final do período colonial. Havia “lojas maçônicas em funcionamento na própria corte do rei D. João VI.” Ele as tolerava. D. Pedro era errático nessa atividade e, em 1831, foi obrigado a abdicar do trono por outro movimento da mesma maçonaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1814, o Corpo do Comércio de Salvador alertou D. João com “um documento de tom premonitório”, no qual advertiam: “É notório que há três para quatro anos os negros tentam rebelar-se e matar os brancos, e tendo nos anos anteriores feito duas investidas... deram a terceira com muito mais estragos e ousadia... Estes ensaios, senhor,  bem prognosticam que.... chegará um dia em que eles de todo acertem e realizem inteiramente o seu projeto, sendo nós as vítimas da sua rebelião e tirania”. Em 1820 Francisco C. de Geines, coronel francês, enviou um documento com teor parecido. Um panfleto também alertava sobre o derramamento de sangue semelhante ao ocorrido em 1794, na ilha de São Domingos, Haiti. Os escravos eram em número generosamente maior do que os homens livres.  Em 1824 foi solicitada pelo Brasil a importação de mercenários europeus, altos e claros para promover uma melhoria e branqueamento da raça brasileira. Isso tudo demonstrava um pessimismo com o futuro do Brasil. A revolução escrava era o maior perigo que os portugueses e brasileiros brancos teriam que enfrentar. Contra essa situação houve a adesão de todas as classes sociais brancas. Poderia haver uma guerra civil “de natureza étnica.” As novas idéias libertárias poderiam dar força para uma rebelião promovida por escravos contra seus opressores.  Os negros “reivindicavam a alforria nos tribunais.” Os deputados preconceituosos resolveram enviar as petições para D. Pedro I, que também se negou a ouvi-los. “Na Guerra da Independência, milhares de cativos recrutados pelo Exército e pela Marinha defenderam a causa brasileira esperando que, em troca, teriam a liberdade.” Contudo nada mudou, nem mesmo para analfabetos, pobres, mestiços e mulatos. Há mais de trezentos anos o tráfico sustentava a economia colonial! Ele seria mantido em benefício dos proprietários rurais e latifundiários.  “Os brasileiros acostumados a não fazer nada... estão convencidos de que os escravos são necessários como os animais de carga.” Mas alguns homens brancos poderosos eram totalmente contra o tráfico de negros e ansiavam pela abolição da escravatura, uma vergonha para nosso país.  A abolição só viria sessenta e cinco anos mais tarde, por pressão política, uma vez que a elite brasileira era habituada ao ócio e ao dinheiro fácil.  Os lucros desse negócio espúrio eram verdadeiramente astronômicos e fáceis.  A metade dos comerciantes do Rio de Janeiro era traficante de escravos! Nem mesmo as pressões da Grã Bretanha exigindo a absolvição da escravatura foi suficiente para libertar os negros. O tráfico só terminaria depois de 1850. O Brasil de hoje ainda carrega esse passivo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Marquesa de Santos não era uma beleza no sentido pleno da palavra, mas sim altiva insinuante e determinada. Possuía “um exterior agradável para um país onde não havia beleza. Apesar de poderosa ela escrevia com muitos erros de ortografia, mas seu romance com Pedro I “é a grande historia de amor que serve de moldura à Proclamação da Independência do Brasil.” Há várias histórias quanto ao local onde D. Pedro e Domitila estariam nos momentos que antecederam o grito. No entanto há evidências de que ele teria uma agenda paralela para encontrar a amante, sua paixão mais avassaladora. Ela era um ano mais velha do que D. Pedro, filha de um coronel, João de Castro Canto e Melo,  nascida em S. Paulo em 1797. Em janeiro de 1813 casou-se com o alferes mineiro, Felício Pinto Coelho de Mendonça. Essa mulher fértil teve 14 filhos de três homens diferentes. O marido traído tentou matá-la a facadas. Domitila sobreviveu e foi morar com o pai, onde encontrou duas vezes com D. Pedro I antes do grito do Ipiranga. O marido reinvidicava a guarda dos filhos do casal e D. Pedro ajudou-a nessa empreitada, passando a conhecê-la. “Ambos pagariam um alto preço pela paixão avassaladora eu os uniu desde então.”  Assim foi reforçada a imagem dele como uma pessoa promíscua e inconsequente. O pai de Leopoldina, ao saber do romance, classificou-o como “miserável”. Em S. Paulo passou a manter um romance com ela e também com sua irmã casada. Seu marido fingiu que não sabia e aceitou o filho bastardo do imperador, obtendo favores políticos com esse gesto. “A ascensão de Domitila na corte de D. Pedro foi meteórica.” Segundo Octávio Tarquínio de Sousa, Domitila era “acessível a negociatas.” Mudou-se para o Rio de Janeiro e, finalmente, instalou-se em um luxuoso palacete ao lado do Palácio da Quinta da Boa Vista, onde estaria muito próxima do amante.  As mulheres da nobreza do Brasil não aceitaram sua presença, mas como revanche elevou-a ao posto de dama de honra da imperatriz Leopoldina e após isso promoveu-a a Marquesa de Santos, título com o qual passaria através da história.  “As regalias e os privilégios estenderam-se à família da amante...  receberam empregos, títulos e benesses de D.Pedro I. Os estrangeiros que residiam no Rio de Janeiro impressionaram-se com o poder concedido a essa mulher.  Domitila engravidou de seu amante cinco vezes, em sete anos de convívio. D. Pedro acabou por expulsá-la do Rio de Janeiro para se casar com a segunda imperatriz, Amélia, após a morte de sua primeira esposa. Através de 170 cartas que o imperador escrevera a Marquesa de Santos, sabe-se que a cobrira de presentes e jóias caríssimas, em um momento que o país não tinha dinheiro algum. À medida que a força de Domitila crescia a infelicidade e depressão da imperatriz Leopoldina acabaram por levá-la à morte prematura.  “Desesperada com as demonstrações públicas de infidelidade do marido, Leopoldina chegou a pedir ao pai, Francisco I, que a aceitasse de volta em Viena.” Em uma viagem à Bahia, com quatro navios e duzentas pessoas, D.Pedro adicionou entre elas sua amante.  Foi uma das maiores humilhações para sua esposa. Essa viagem que incluía a imperatriz, sua filha mais velha e Domitila foi um choque para o mundo. Viúvo D. Pedro sabia que era premente casar-se novamente com uma princesa européia, mas por sua reputação nada mais do que dez princesas o recusaram. Desconsolado, aceitaria uma jovem de segunda linhagem, mas que fosse virtuosa e bonita. Assim casou-se com Amélia Augusta Eugênia, neta da imperatriz Josefina, primeira mulher de Napoleão, que chegou ao Rio três anos após a morte de Leopoldina. D. Pedro encantou-se tanto com a jovem que desmaiou no convés do navio! “Trocou os criados e camareiros e impôs nova etiqueta nos maus modos da corte do Rio de Janeiro. Mudou até o idioma.” Falar-se-ia o francês. Ele tornou-se fiel a Amélia, mas teve de livrar-se de Domitila, que retornou a São Paulo e oito anos mais tarde casou-se com Rafael Tobias de Alencar, em Sorocaba. Ela morreu em 1867 e, no testamento, mandou distribuir dinheiro aos pobres e libertar quatro escravos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. João VI morreu antes de completar 59 anos, em 10 de março de 1826, cercado de mistérios. A hipótese de envenenamento era discutida e confirmou-se, recentemente, quando encontraram, em seu organismo, alta dose de arsênico nas vísceras.  Os maiores suspeitos eram a rainha Carlota Joaquina e seu filho mais novo, D. Miguel, que tentara um golpe contra seu pai. A decisão mais importante tomada por D. Pedro I foi criar uma nova constituinte para Portugal, que era muito parecida com a brasileira. “O Brasil e sua antiga metrópole ficavam a partir daquele momento sob a égide da mesma lei”, uma constituição moderna e liberal para a época. Quando D. João VI morreu deixou o país e seus súditos em uma situação muito precária. D. Pedro, envolvido com os assuntos portugueses, ficou dividido entre os dois países, governando-os concomitantemente. O Brasil foi incluído na política externa dos Estados Unidos, presidido por James Monroe, que declarava: “A América para os americanos.” Eles reconheceram a independência do Brasil. A Inglaterra, através de um tratado comercial assinado em 1810, com tarifas de importação muito baixas, se valeu de seu poder para tirar vantagem da Independência. Em 1825, o Brasil era o terceiro mercado mais importante de produtos importados da Inglaterra. Com a assinatura desse país, todas as monarquias européias reconheceram a Independência brasileira. D. Pedro pagou com seu próprio trono, em 1831, a indenização assegurada a Portugal.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1831 após a abdicação, D. Pedro I mantém uma troca de cartas das mais tristes da história brasileira entre ele e seu filho Pedro, de cinco anos que ficara no Brasil, pois jamais esperava encontrá-lo novamente. Portanto, quase como um fugitivo, deixou o ex-adversário José Bonifácio de Andrade e Silva como tutor de seus quatro órfãos reais que ficaram no país. D. Pedro enviava conselhos valiosos ao filho de como continuar com o império, estudar e educar-se o mais abrangentemente possível, pois o mundo havia mudado e a sabedoria era essencial.  Quatro razões forçaram a abdicação em 1831. O rumoroso relacionamento com a Marquesa de Santos, a morte prematura da bondosa princesa Leopoldina, amada por todos.  A indenização aos portugueses pelas perdas de guerra também foi crucial para o descontentamento do Brasil. A desgastante guerra com a Argentina para obter o controle da província Cisplatina, o atual Uruguai, contou para seu enfraquecimento. Não havia recursos financeiros para manter essa campanha no Sul e o império foi derrotado em 1827, quando argentinos e uruguaios massacraram os soldados brasileiros. D. Pedro mudou o ministério e o marquês de Barbacena tentaria “conduzir um governo conciliador.” O imperador teria de se desfazer do “gabinete secreto”, então Chalaça e Rocha Pinto foram despachados para a Europa, onde viveram com uma grande pensão vitalícia patrocinada inteiramente pelo Brasil. Chalaça consegue intrigar o imperador contra o ministro, que é “demitido e humilhado publicamente.” O fim do reinado de D. Pedro I foi trágico e colocou o país em sobressalto. Foi acusado de preparar um golpe absolutista, através do qual mudaria a Constituição de 1824, com o intuito de aumentar os poderes e subjugar o parlamento. Esses boatos tinham fundamento. Com a subida do rei burguês Luís Felipe, que era apoiado pela nova classe rica dominante francesa, responsável pela Revolução, os ânimos dos brasileiros liberais se acirraram. Líbero Badaró, do jornal O Observador Constitucional, foi assassinado por ajudar as manifestações de júbilo brasileiras. D. Pedro refugiou-se com a família, em Ouro Preto, de onde voltou devido às manifestações hostis com que foi recebido. Ao retornar ao Rio, em 11 de março, os brasileiros estavam frios e ocorre a Noite das Garrafadas, uma vez que os portugueses resolveram homenageá-lo. Os brasileiros atacaram e foram revidados, com violência, pelos adeptos do imperador com pedras, cacos de vidro e fundo de garrafas. Isso durou três dias e esgarçou totalmente as relações entre os dois grupos. Se D. Pedro não castigasse os portugueses, o povo brasileiro estaria “autorizado a vingar ele mesmo por todos os meios a sua honra e brio maculados.” O imperador destitui o ministério, novamente. Os militares começaram a abandoná-lo. Assim, “D. Pedro entregou a carta de abdicação ao major Miguel de Frias” e o texto foi lido para a população. (texto pg. 304).  O imperador deixou o palácio em roupas de civil e dois diplomatas, francês e inglês, o acompanharam até a fragata Warspites, onde permaneceu por seis dias. A sua lista de bens era enorme e havia acumulado um patrimônio de 1.000.000$000 (mil contos de réis), uma grande fortuna, mas nem de longe a maior do Brasil. A abdicação foi comemorada com maior entusiasmo do que a Proclamação da Independência, ocorrida há nove anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meninos, Pedro e Miguel gostavam de brincar jogos de guerra, juntamente com os filhos dos escravos que se dividiam em dois exércitos. Em 1832 os dois irmãos fariam parte da pior guerra civil de Portugal. Foi o confronto entre os liberais de D. Pedro e os absolutistas de Miguel. Pedro herdara o temperamento inquieto da mãe e Miguel o modo de ser do pai.  O rei D. Miguel I teve o apoio da nobreza portuguesa e da igreja Católica. O Vaticano chegou a excomungar todos os liberais portugueses e em 1834 o próprio D. Pedro I seria excomungado. “O clima de terror se instalou sobre os portugueses”, com milhares de pessoas nas prisões. Outros 40.790 migraram para a América e países vizinhos, e 1.122 opositores foram assassinados. Os insurgentes tiveram as cabeças decepadas e expostas nas cidades do Porto, Feira, Aveiro e Coimbra. Algumas foram açoitadas em praça pública e o governo confiscou 17.137 propriedades, sendo a metade queimada.  O inglês Hugh Owen registrou que “o pior era o ódio, o ódio que se alastrava como uma nódoa corrosiva.” Os liberais iniciaram uma revolta nos Açores, que seria o seu santuário. Fortalecidos começaram a ocupar as ilhas vizinhas, até dominarem o arquipélago inteiro. D. Pedro sentiu-se atraído por sua terra natal, para mais uma vez, cobrir-se de prestígio e glória. Antes da guerra, D. Pedro havia enviado sua filha, Maria da Gloria, para Viena e a princesa partiu do Rio sob proteção do marquês de Barbacena, que desconfiado da situação em Portugal, levou-a para a Inglaterra. Sem o suporte da França e Inglaterra, D. Pedro, agora Duque de Bragança, inicia a campanha de guerra em condições muito precárias. Comandava um “exército romântico e a tropa era de 7.500 voluntários.” D. Miguel contava com 80.000 homens entre oficiais e soldados. D. Pedro gastara parte de sua fortuna nessa causa, assim procurou aliciar portugueses ricos em troca de vantagens. Os moradores do Porto acreditavam que a cidade seria atacada por liberais, mas que o exército de Miguel a defenderia corajosamente, mas o contrário ocorre e fogem da cidade deixando ali “milhares de armas, balas e munições, incluindo cinquenta canhões.” Isso fora um grande erro, pois o exército liberal estava faminto e exausto. “Na falta de um cavalo, D. Pedro entrou no Porto cavalgando um burro”, que lhe foi oferecido por um morador. Curioso que também uma besta de carga o ajudara na proclamação do Grito do Ipiranga. As forças miguelistas haviam se retirado, mas não abandonaram a guerra, fechando um arco em torno da cidade. Os liberais haviam caído em uma armadilha. Nada chegava de fora diante desse cerco. Todavia, D. Pedro saiu-se triunfante inteirando-se de todos os fatos, provando ser um grande militar. “Descia às trincheiras, orientava os atiradores, supervisionava os armazéns, visitava os hospitais e feridos, participava das reuniões para a tomada de decisões estratégicas. O cerco do Porto iniciado em 1832 durou até o final de 1833. De cada dois voluntários um morreu e as vítimas civis foram inúmeras, mas o exército miguelista registrou maiores baixas.  Finalmente o embaixador dos liberais, D. Pedro de Souza Holstein, conseguiu o apoio inglês que D. Pedro tanto necessitava com cinco navios de guerra, marinheiros, artilharia e soldados treinados que chegaram ao rio Douro. A capitulação só veio em 1834 e D. Miguel, de acordo com os termos de rendição, pode sair em segurança. D. Pedro deixou como legado a constituição liberal que seria usada até 1910, ano da Proclamação da República do país. Ele impediu a vingança dos liberais, permitindo que o irmão fosse para o exílio seguro, concedendo anistia aos adversários. Porém o povo português não se conformou com sua atitude pacífica e revidou com violência. “Certa noite, ao chegar ao teatro São Carlos, em Lisboa, D. Pedro foi cercado pela multidão enfurecida, que atirava lama e pedras em sua carruagem... A platéia o recebeu com demorada vaia... A glória alcançada nos campos de batalha cobraria dele um preço altíssimo, ainda maior do que já havia pago ao abdicar o trono brasileiro em 1831: a própria vida.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Pedro morreu junto à esposa em 24 de setembro de 1834, quando iria completar 36 anos. Ele considerava-se saudável, mas na verdade sofria de epilepsia, alimentava-se mal e era hiperativo. Sofria de deficiência renal, vomitava muito e havia contraído diversas doenças venéreas. “D. Pedro enfrentou a morte como viveu, mantendo um ritmo intenso de atividades.” Sonhara que morreria em 21 de setembro, errou por horas apenas.  Esse homem agonizante, no palácio de Queluz, promoveu várias reuniões com deputados, pediu providências, deu conselhos e homenageou a todos que o haviam ajudado. Decretou, também, a maioridade da rainha D. Maria II. Queria um enterro sem honrarias, um acontecimento bem simples. O pequeno futuro imperador do Brasil recebeu duas cartas de Portugal. A primeira enviada pela madrasta comunicando o falecimento do pai e uma mecha de cabelo do mesmo, que gostaria de ter nos momentos de dificuldade. Outra de José Bonifácio, honrando os feitos de D. Pedro. Na cidade do Porto e em Lisboa estátuas homenageiam esse personagem intrigante. Esses monumentos não retratam o jovem D. Pedro, pois as feições são austeras e ele parece mais velho.  “Curiosamente, os portugueses de hoje tampouco sabem a respeito do jovial príncipe quase imberbe que fez a Independência brasileira.” Na primeira metade do século XX mais de um milhão de portugueses migraram para o Brasil. Seus descendentes formam um contingente de 25 milhões de pessoas. Nos anos noventa, o movimento foi inverso, como tudo na história. Brasileiros migraram para Portugal e eram constituídos de dentistas, publicitários, enfermeiros e administradores de empresa, totalizando cerca de 120.000 pessoas. Hoje em dia, finalizando um acordo de “Reino Unido”, existem cerca de setecentas empresas portuguesas em nosso país, sendo o relacionamento entre Brasil e Portugal consistente e duradouro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-1543075125584126281?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/1543075125584126281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=1543075125584126281' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/1543075125584126281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/1543075125584126281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2011/02/1822-de-laurentino-gomes.html' title='1822 de Laurentino Gomes'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TVLXqaFGpyI/AAAAAAAACrg/P7RfdTPAF7A/s72-c/PedroI.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-8126332080947670305</id><published>2010-10-14T15:26:00.003-03:00</published><updated>2010-10-14T15:38:26.176-03:00</updated><title type='text'>O JOGADOR  de FIODOR M. DOSTOIEVSKI</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TLdOA3mmY7I/AAAAAAAACfY/Ebm2MFPL3Jk/s1600/dostoievski1.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 314px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TLdOA3mmY7I/AAAAAAAACfY/Ebm2MFPL3Jk/s400/dostoievski1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5527972844453389234" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TLdN7If_JgI/AAAAAAAACfQ/F_fTereqPdY/s1600/Digitalizar0005.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 278px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TLdN7If_JgI/AAAAAAAACfQ/F_fTereqPdY/s400/Digitalizar0005.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5527972745909839362" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tinha dezesseis fredericos e lá... talvez lá estivesse a fortuna! Coisa estranha, ainda não ganhei nada, mas ajo, sinto, penso como se fosse um homem rico e não posso  me ver de outro modo”. &lt;br /&gt;Narrado na primeira pessoa do singular e com esses pensamentos podemos imaginar as alegrias e tristezas de um jovem jogador russo que se unira a um grupo heterogêneo de pessoas que se passavam por milionárias, mas eram nobres falidos, pretensos marqueses, mulheres de várias origens e golpistas. Reunidos, na Alemanha, em uma estação de águas à beira do Rhin, o general tem sua comitiva da qual Alexis Ivanovich, jovem preceptor de 25 anos e bacharel em Universidade, faz parte. Estão hospedados em um caríssimo hotel e o grupo chama atenção de todos por sua imponência. Um francesinho esnobe, um inglês simpático e algumas mulheres também incorporam essa confraria.  O herói tinha um gênio forte, era confiante e desprezava a igreja e os franceses que, por sua vez, desprezavam os russos. Essa narrativa impagável passa-se em 1814, quando havia ocorrido a guerra entre França e Rússia. Por esse motivo, o preceptor e o francês têm uma discução acirrada sobre a atitude destes dois exércitos. “Em 1812 vi um homem contra o qual um fuzileiro francês disparou somente para descarregar sua arma. Este homem era então um menino de dez anos e sua família não tivera tempo de abandonar Moscou”, conta o preceptor.  Esse fato gerou a discução e o general ficou deveras descontente, mas não Mr. Astley, o inglês, que observava tudo com curiosidade.  Paulina, bela jovem enteada do general e figura enigmática, precisava desesperadamente de dinheiro e pedira para Alexis vender seus diamantes, mas conseguira pouco com a operação. A avó estava doente e todos, sem exceção, esperavam por um telegrama anunciando sua morte e com isso a resolução de todos os problemas através da rica herança. Paulina precisava se casar com um milionário e bastava. Desesperada pede ao pobre Alexis que jogue tudo que tinha e que deveria ganhar o máximo possível. Apaixonado por ela, não sabe bem como agir, pois ela o tratava como lacaio e não o considerava como um homem. Chegando ao cassino, aproxima-se da roleta e vê no jogo uma forma como outra qualquer, como um trabalho, a fim de ganhar dinheiro. Aqui Dostoievski nos brinda com uma descrição minuciosa sobre uma mesa de jogo. “O pensamento de que estava debutando como jogador de outra pessoa me perturbava. Era uma sensação muito desagradável...” “sentia ganas de sair dali... Deram-me mais oitocentos florins e, reunindo tudo, fui ao encontro de Paulina.” Porém prometera a si mesmo que não jogaria mais por ela.  Paulina era ciente de seu amor, mas mostrava-se indiferente. Essa jovem sabe que o general está nas mãos do francês, pois lhe havia pedido dinheiro emprestado e hipotecado tudo em nome dele, Des Grieux. O inglês, Mr. Astley, “era colossalmente rico. Foi quando a senhorita Blanche foi levada a olhá-lo.” Não tenhamos dúvidas de que aqui quase todos estão endividados e mulheres desejosas de fazer fortuna com qualquer um que tenha posses. Alexis, apesar de sua decisão, volta a jogar para Paulina, mas sob a condição de que contasse porque precisava tanto daquela importância. Ela, porém, não esclarece nada. Na sala de jogos “Observava e fazia anotações... de fato na sucessão de probabilidades fortuitas, há, senão um sistema, uma espécie de ordem.” Ele devia essas observações a Mr. Astley, “que passa toda a manhã junto às mesas sem jamais apostar.” “Perdi tudo até o último vintém e em muito pouco tempo”, mas voltou a ganhar e, em um devaneio contra o destino, colocou tudo em jogo e perdeu novamente. Assim, retorna de mãos vazias para Paulina. O francês observa de forma sarcástica que apesar dos russos serem “com freqüência jogadores, eles eram, a seu ver, incapazes de jogar.” Os russos são ávidos pela roleta “e como jogamos a torto e a direito, sem nos cansarmos, nós perdemos”, replica o jovem. Alexis compara, também, os russos e alemães na forma de enriquecer. Os alemães são trabalhadores, não gastam nada, e ao fim de cinco ou seis gerações estão ricos e “e aparece o barão de Rothschild em pessoa ou Hoppe &amp; Cia, ou que diabo seja. Prefiro mergulhar na devassidão à maneira russa ou fazer fortuna na roleta!” São críticas bastante amargas e apropriadas. Enviavam vários telegramas à Rússia para saber se a avó já estava morta e resolver suas pendências.  O herói questiona Paulina a esse respeito, que para ele é indecente.  Afirma que para ser feliz é preciso ganhar, pois é sua única saída. Paulina o considera “desordenado e instável.” Ele tem uma meta de vida.  “Ocorre que com dinheiro me tornaria outro homem, mesmo aos seus olhos, e deixaria de ser um escravo.” Ela considera seu discurso de “fedelho”. Alexis afirma que até mataria por ela, mas não acreditava que pediria isso, entretanto Paulina pediu que ofendesse a mulher de um Barão e ele o fez! Isso causa quase um problema de estado, pois os nobres afastam-se correndo. O Barão queixa-se ao general, o qual despede Alexis. Agora está sozinho para pagar as contas do hotel etc. O Barão de Wulmerhelm acha pouco e quer que seja preso! Contudo, com muita perícia Alexis implora para continuar como preceptor, e ponto final. Os argumentos usados são estritamente parecidos com os dos políticos brasileiros que se vêem presos em maracutaias e não têm explicação lógica. Alexis inverte o jogo e diz que foi ofendido e que processará a baronesa e seu marido. São momentos de comicidade inteligente. Com seu pequeno pagamento no bolso dirige-se ao cassino e observa: “eu ainda não ganhei nada, mas eu ajo, sinto, penso como se fosse um homem rico e não posso me ver de outro modo”. Detesta Des Grieux e sua postura e acha que “é raro o francês ser espontaneamente amável, poderíamos dizer que é amável por ordem, por cálculo.” Procurado por esse homem, a pedido do general, roga-lhe para que desista de seus planos advocatícios. Recusa-se veementemente, “pois ele, a baronesa e todo mundo pensariam sem qualquer dúvida que fui lhes oferecer desculpas por temor e para reaver meu emprego.” “Arre! Que suscetibilidade e que refinamentos!” Des Grieux declara que o General está apaixonado por mademoiselle Blanche da comitiva e quer casar-se com ela. Além do mais aguardava notícias da Rússia para por sua vida em ordem. Irritado diz “que diable! Um Blanc-bec comme vous  quer desafiar para um duelo um personagem tão importante quanto o barão!” Paulina escreve-lhe um bilhete para que desista de tudo. Evidentemente existia algo entre esses dois. “Ele a tem em suas mãos, ela está sob seu jugo...” Claro, não nos esqueçamos das dívidas de toda a família. Mr. Astley avalia que isso poderia afetar o casamento do general com a jovem francesa e Alexis descobre, também, que o marquês ganhou o título e o próprio nome há pouco tempo e que a senhorita Blanche é uma oportunista conhecida, que muda sempre de sobrenome. Agora emprestava dinheiro a juros e seria possível que o general lhe devesse dinheiro! Todos aguardavam ansiosos o telegrama dizendo que “a velha bruxa” havia morrido. Entretanto, eis que aparece no hotel alguém transportado em uma cadeira e “rodeado por criados, servos e da incontável criadagem obsequiosa do hotel, na presença do próprio maître... acompanhado de pessoas, de uma multidão de valises e de cofres, carrega num trono... a avó!” A rica e poderosa Antonina Vassilievna Tarassevitch, com setenta e cinco anos, morrendo, no entanto viva! Falava alto, “se mantinha reta e gritava com um tom de comando...” Petrificado e sendo reconhecido, Alexis, tem a certeza de que ela vai colocar a casa de cabeça para baixo!” Um andar inteiro havia sido reservado para essa grande senhora. “Ela se mantinha ereta como um i sem se apoiar em sua cadeira.” Alexis abriu “a porta de dois batentes e ela fez uma entrada triunfal.” Estavam todos reunidos e o impacto foi demasiado e inesquecível. Diante da figura da avó, o general parou estupefato. Paulina ficou possuída de “medo e perplexidade” e todos boquiabertos; mas ela os observava, desafiadora. “Era uma catástofre para todo mundo!” “Bem, eis-me aqui! Venho no lugar do telegrama!”Apesar dos pesares gostou do inglês, pois tinham resposta para tudo. Não quis nem saber das crianças “remelentas.” Agora queria passear e nomeou seu acompanhante, Alexis Ivanovitch. Os empregados do hotel tremiam ao avistá-la. Ciente do ocorrido com os barões fica indignada com eles. Contudo queria mesmo ir conhecer o cassino e sua comitiva a acompanha para surpresa de todos que lá estavam. Descrições hilárias sobre a bajulação da família e amigos são expostas, mas a velha senhora ataca a todos, sem piedade. Nas mesas se comprimiam quase duzentos jogadores. “A vovó contemplou tudo isso de longe, com uma curiosidade ávida.” Entretanto o que mais lhe chamou a atenção foi a roleta, e por ali colocaram sua cadeira, bastante próxima do crupiê principal.  Pessoas afluíram para observá-la. “Uma mulher de setenta anos, enferma, que desejava jogar...” Alexis se esgueirou a seu lado. Antes de qualquer coisa, fez inúmeras perguntas que o rapaz lhe respondeu e explicou. Queria saber mais sobre o Zero e quando soube que ganharia trinta e cinco vezes o valor jogado, ficou fascinada, apesar da poucas probabilidades de ganho. Vovó joga no Zero muitas vezes e perde, perde... Ela continua insistindo apesar das advertências e prefere ser enforcada a mudar de opinião! Esta completamente obcecada pela roleta! “... de súbito, toc. Zero! , gritou o crupiê.” Continuou jogando pesado, até que perdeu! Mas “em seu rosto brilhava a convicção absoluta de ganhar” e ouviu novamente, Zero. Isso era, realmente uma raridade, tantas sequências de Zeros. Não se agitava mais, era como “se tivesse uma meta.” Agora jogou no vermelho e... ganha, novamente. Colocou, rapidamente, todo o ouro e cédulas na bolsa e foi embora!  Radiante chegou a sua suíte, mas no caminho havia distribuído muitas moedas valiosas a várias pessoas desconhecidas e conhecidas. Ao general nem um tostão.  “Que diable, c’est une terrible vieille! , “murmurou entre dentes Des Grieux ao coronel. Ordenou a Alexis que queria voltar ao recinto, após o jantar, e não necessitaria mais de empregados ou comitiva. Alexis rezava para que ela mudasse de idéia, mas em vão. Conjeturas das mais terríveis passavam pelas cabeças de seus familiares, horrorizados com a possibilidade de perder sua fortuna no jogo. Paulina, desesperada, pede a Alexis que entregue uma carta a Mr. Astley. “Então eles mantém uma correspondência” irritou-se o jovem. Estava abatido pelo ciúme. O general, precisando de alguém para culpar, chama Alexis e lhe passa uma descompostura. Diz que se comportou como guia. A senhorita Blanche olhou seu namorado com desdém, talvez perdesse tudo. Por fim, o general implora que o preceptor salve-o e retire sua vovó do cassino. A vovó não conseguira dormir nessa tarde e estava totalmente envolvida pelo jogo. “A roleta a obcecava.” Ela já era esperada e seu lugar ao lado do crupiê estava reservado. Continuou no Zero, mas ele não saia. “avozinha, eu tentava trazê-la de volta a razão, não posso responder pelos golpes do azar.” Des Grieux tentava aconselhá-la, em vão, mas ela perdera tudo e culpou o francesinho ordinário por seu azar. Ele a fizera mudar de número na última hora! Chamando-se de besta, perua e velha idiota, grita por chá e resolve voltar a Moscou imediatamente. Eram sete e meia da noite e o próximo trem partiria às nove e meia. Pede para Alexis trocar umas letras de câmbio senão não teria como sair do hotel e viajar. Quanto chegou, todos estavam junto à vovó. Paulina continuava ausente e “vovó os injuriava rudemente.” Vovó fala ao general que ele contava com sua morte, mas viveria até os cem anos. Paulina reaparece em cena e vovó a convida para morar em sua casa, em Moscou, quando quisesse, mas a adverte para não esperar nada daquele francesinho horroroso. “Paulina ficou vermelha”. As pessoas presentes sabiam de tudo, menos ele, Alexis. Ao ser carregada, resolve recuperar o dinheiro perdido e volta ao cassino, onde se jogava até meia-noite!  Ocorre que perde definitivamente todo seu dinheiro, ou seja, mais de dez mil rublos! “Tinham em casa de tudo - um jardim, flores, macieiras e espaço... Não. Era preciso viajar ao estrangeiro! Oh! oh! oh!” Voltamos ao começo do livro, quando Alexis mais calmo, porém infeliz, recorda-se de tudo o que ocorrera. “Por isso retomo a caneta.” A vovó, de fato, havia retornado, mas perdera tudo. Os banhistas da cidade vieram vê-la jogar, pois havia adquirido fama no local. Era uma verdadeira fortuna que jogara fora, apesar de ter tido chance de recuperá-la por duas ou três vezes. No hotel, todos brigavam e se descabelavam. Para desespero do general, Blanche descartara-o de vez e partira com um principezinho. Astley partira para Frankfurt, a negócios. Paulina estava serena, mas não queria que Alexis sequer mencionasse seu amor por ela. Acreditava que tinha um segredo. O general implora ao jovem que fale com Blanche, mas já era impossível.  Sobre vovó, acreditava que... “sim... sim... em nosso país, velhas deste tipo, nós as dobramos à força, sim senhor... Oh, que desgraçado eu sou!”Apesar da má sorte, Antonina ainda é rica, pois tinha três vilas, duas casas e algum dinheiro na Rússia, mas continuava negando-se a dar qualquer coisa ao general.&lt;br /&gt;Alexis não queria acompanhar a vovó e vai procurar Paulina, contudo não a encontra e Des Grieux  também havia sumido. Aí “dois e dois são quatro”. Quando voltou para casa, depois de desembarcar a vovó, vê uma silhueta no escuro: era Paulina! Des Grieux havia partido para a Rússia, a fim de apossar-se dos imóveis dados como seguro de seu empréstimo. Ela não iria à casa de vovó por não querer pedir perdão a ninguém. O jovem a aconselhou a ficar, então, com Mr. Astley, porém Paulina recusou. Sim, ela o amava. Alexis, como vovó, resolve ir ao cassino e tentar, com o pouco dinheiro que ainda possuía ganhar a quantia que sua amada precisava tanto. Como todo jogador perde muito e acaba ganhando trinta mil florins, mas passa a jogar mais! As pessoas em volta pedem para que pare de jogar e vá embora. Apesar disso, “experimentava um prazer irresistível em tirar e recolher as notas que se amontoavam a minha frente.” O “destino o movia”. Chegou a ganhar cem mil florins! Estava “possuído por uma sede de risco.” Mal chegava a acreditar em seu destino. Ganhara duzentos mil francos! Saiu com o andar desequilibrado, pelo peso do ouro em seus bolsos. Ao chegar, Paulina ainda estava lá e ele jogou seu dinheiro sobre a mesa para que visse que estava salva! Sua expressão era de ódio e ela lhe disse que “a amante de Des Grieux não vale cinquenta mil francos.” Essa mulher censurou-o por querer comprá-la. Pobre russo! Entretanto depois de alguma discução, abraçou-o e apertou-o contra ela. Sua cabeça girava e acordou somente às sete horas, com o sol brilhando. Ela estava lá e pediu para que desse seu dinheiro, mas ao fazê-lo joga tudo em seu rosto e sai correndo. Alexis sabia que sua adorada ainda estava doente. A culpa era da vaidade “que a impulsionava a não confiar em mim e a me ofender...” A jovem fugira para o Hotel Inglaterra. Mr. Astley, que se encontrava lá, ficou observando-os à distância. Ele cuidaria de Paulina e a trataria com um médico. Isso seria um escândalo! Todavia Alexis sente que, desde que estivera na mesa de jogo no dia anterior, seu “amor havia de alguma forma passado a segundo plano.” Em seu caminho de volta uma cena bizarra ocorre: a mãe de Blanche pede para que entre em sua casa, pois havia ouvido dizer que estava rico, com o jogo no cassino. A jovem estava se levantando e exclama “Ah, c’est lui! Viens doc, bêta! É verdade que tu as gagné une montagne d’or et d’argent? J’aimarai mieux l’or.   E assim começa a sedução de Blanche sobre o pobre rapaz. Ela o convida para morar em Paris em ver les étoiles.  “E foi assim que fui a Paris.” “Paris, o que dizer desta cidade? Tudo não passou seguramente de delírio, extravagância. “Aí permaneci um pouco mais de três semanas, terminado este período, meu lastro se reduzira a cem mil francos.” Dera quase toda sua fortuna a Blanche. “E com os cem mil francos que nos restam, tu o comerás comigo, meu preceptor!” Esta mulher era uma dilapidadora compulsiva, além de tirânica e cheia de soberba. Alugou um apartamento, mobiliando-o com o que havia de melhor e se queixava que com pouco dinheiro tivera de fazer muito. Durante duas noitadas cheias de estranhos, Alexis bancara o anfitrião, para seu horror. “Tudo aquilo me repugnava de uma forma definitiva.” O jovem russo vivia em um meio “o mais burguês e mercantilista possível, onde cada centavo era contado e pesado.” Em pouco tempo com seu dinheiro literalmente torrado, se retirou de cena! Os diálogos entre essas duas pessoas tão diferentes são muito instigantes e nos mostram a forma de pensar e agir da época e de hoje com pessoas golpistas. “Oito dias após nos instalarmos em Paris, o general chegou.” Encaminhou-se para o apartamento dos dois e não saia mais. O pior, sem dúvida, era que precisavam levá-lo a todos os lugares que Blanche achava mais interessantes e ela passou a defendê-lo! Havia ficado doente, na época da tragédia de vovó, mas, curado, fugira para Paris. Estava desnorteado e fixava-se em alguns temas, repetindo-os a toda hora. A vovó estava doente, de fato, e morreria, havia dito Mr. Astley, e quanto ao marques Des Grieux havia dilapidado tudo que o general possuía. Não queria nem ouvir seu nome. Blanche, desde que Alexis chegara, tinha um amante mulato, Alberto, e mesmo se casando com o general, mantinha o relacionamento. Essa fútil mulher, mesmo casada, não conseguira memorizar seu título e sobrenome em russo! Após vinte meses de esses fatos terem ocorrido, Alexis estava a seu ver “numa situação pior do que a de um mendigo.” “Perdi tudo da maneira mais singela... e não vou fazer um discurso moralista.” Continuou: “E o que imaginam que possam me dizer que eu já não saiba? O que há de certo é... que numa única volta da roleta tudo por mudar...” Havia perdido em outra cidade e sido preso, mas alguém pagou sua dívida e fora solto. Lacaio também fora. Com pouco dinheiro adorava jogar; sim, era o jogo que o atraia e não o dinheiro que pudesse ganhar. Voltando ao vício apostou pouco e ganhou. Colocou os cem florins ganhos no rouge... A quantia sobiu para oitocentos, chegando a mil e setecentos florins e “em menos de cinco minutos! Nestes momentos a gente esquece todos os fracassos passados!” Já não era mais um lacaio. Deste modo, decidiu partir para Homburg, onde está no presente, há dois meses. Todavia antes de pegar aquele trem, não se contendo, havia retornado ao cassino e perdido mil e quinhentos florins! Declarava: “Jogo pouco de cada vez e espero, faço cálculos, fico dias inteiros perto da mesa de jogo, a observar, chego a sonhar com o jogo...” Ele endurece e se afunda “no lodo”. Casualmente, em um de seus passeios cheios de devaneios, encontra Mr. Astley e sentam-se para conversar, mas o inglês já sabia de toda sua vida e seus desastres dos últimos vinte meses. Alexis, apesar de sua condição desafortunada, ficou feliz em vê-lo e o inglês observou nessa alegria seu velho amigo de sempre. “É verdade que o homem adora ver seu melhor amigo humilhado a sua frente; é na humilhação que repousa frequentemente a amizade.” Mr. Astley queria saber se além do jogo não se dedicava a mais nada e ele respondeu docemente... “Não...” Afirmou-lhe que havia se isolado e se afastado da vida. Alexis pede que pare de falar do passado e só tem mais uma pergunta: “Onde se encontra no momento miss Paulina.” Mr. Astley, zangado, diz que estava vivendo na Suíça; no entanto não queria discutir sua vida com ele, pois o nome dela em sua boca era uma ofensa ao seu senso de moral. Considerava-a o melhor ser do mundo, que o jovem russo nunca pudera desvendar.  Morara com sua mãe e irmã, no norte da Inglaterra e herdara da avó falecida sete mil libras. O general também havia morrido há um mês, tendo sido muito bem tratado por sua mulher. Antes de morrer passara toda sua herança para ela! Alexis explica ao inglês a importância dos franceses na Rússia para as mulheres e jovens. “O francês, Mr. Astley, é uma forma acabada e elegante.” Ele e seu amigo, por serem homens, não pensavam assim, talvez por ciúmes. Racine era afetado, mas sem dúvida um grande poeta e charmoso. E afirma que “não há no mundo um ser mais aberto e confiante do que uma jovem russa...” “Um Des Grieux ...  sob uma máscara, pode conquistar seu coração com uma incrível facilidade.” E a adorável Paulina passara um bom tempo resolvendo se queria um homem íntegro com o inglês ou um patife como Des Grieux. Interrogado por Alexis, Mr. Astley afirma ser um rico refinador e pensando bem “de um lado um refinador e, de outro... o Apolo de Belvedere. Não combinam.” Ambos não conseguiram nada dela. O inglês enfurecido admite que viera vê-lo a pedido de Paulina para conversarem longamente e, “de coração aberto, lhe transmitir todos... seus sentimentos, seus pensamentos, suas esperanças e ... suas lembranças!”Ela o amara e ainda o amava, enviando-lhe dinheiro para seu sustento. Joga-lhe a importância e ainda acrescenta, antes de sair, que se quisesse verdadeiramente mudar de vida lhe daria uma quantia razoável para recomeçar a vida... era tão jovem. Abraçam-se e Alexis pondera em seguir para a Suíça.  Seguindo sua linha de pensamento lembrou-se, o infeliz, de que com um florim que lhe restara para jantar havia decidido entrar no cassino... “experimenta-se uma sensação particular quando, só, num país estrangeiro... sem saber o que irá comer naquele dia, arriscamos nosso último florim, o último, o último!” Ganhou e saiu do cassino com cento e setenta florins no bolso. “Eis o que pode significar o último florim.”&lt;br /&gt;“Amanhã, amanhã, tudo acabará!...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excelente livro. Uma verdadeira maravilha de construção da psique dos personagens.  O enredo é instigante e escrito de maneira tão realista e natural que não se pode parar de lê-lo. Este trabalho foi ditado para sua secretária, Anna Grigorievana, em 1866, numa época em que, mesmo solitário e endividado, precisava manter a família do irmão recém- falecido. O livro tornou-se um sucesso e permitiu que o escritor se colocasse em outra dimensão. Nessa época era comum que grandes escritores fossem para a Alemanha a procura de jogos e águas termais. Casado com Paulina, que o traíra e era sua paixão, une-se a Anna e viaja para Genebra.  Em 1880 fez um inesquecível discurso sobre o destino de sua pátria. Depois de escrever Os irmãos Karamazóv, sua obra prima, morreu em 1881, aos sessenta anos. Deixou uma extensa e extraordinária obra literária.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-8126332080947670305?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/8126332080947670305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=8126332080947670305' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/8126332080947670305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/8126332080947670305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/10/o-jogador-de-fiodor-m-dostoievski.html' title='O JOGADOR  de FIODOR M. DOSTOIEVSKI'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TLdOA3mmY7I/AAAAAAAACfY/Ebm2MFPL3Jk/s72-c/dostoievski1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-7629357576685265264</id><published>2010-09-16T16:16:00.002-03:00</published><updated>2010-09-19T10:51:25.374-03:00</updated><title type='text'>O VÉU PINTADO DE MAUGHAM</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TJJtg5toknI/AAAAAAAACaA/9CeMxsct9Fk/s1600/untitled.bmp"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 318px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TJJtg5toknI/AAAAAAAACaA/9CeMxsct9Fk/s400/untitled.bmp" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5517592905497743986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;THE PAINTED VEIL&lt;br /&gt;W. SOMERSET MAUGHAM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este romance, publicado em 1925, aborda a sociedade inglesa dessa época e a visão que ela tinha, principalmente sobre o comportamento feminino. A figura principal é uma jovem de 22 anos, educada para ser elegante, bela e depois casar-se. Criada por uma mãe dominadora e ambiciosa é privilegiada por sua beleza, sendo sua irmã caçula, a comum Doris preterida na casa. Seu pai é um homem trabalhador, o chefe de família que traz o sustento em troca de nenhum afeto ou consideração.  Chegando aos 25 anos, ainda solteira vê-se em uma situação difícil, pois sua irmã sem grandes atributos iria casar-se antes dela, com um rico jovem. Impelida pelo medo de ficar para trás e pela tirania de sua mãe aceita casar-se com um jovem bacteriologista, a quem não amava e não tinham nada em comum, para viver em Hong-Kong, na época colônia da Inglaterra. Os diálogos são aterradores para os dias de hoje, pois veremos como essas mulheres eram classificadas pelos ingleses da época, principalmente na China, onde pretendiam ter um poder muito grande. Após apenas dois meses de sua chegada, Kitty Fane apaixona-se perdidamente por um homem casado, charmoso e sensual. Carente, põe nas mãos de Charles Towsend sua vida e destino, absolutamente certa de que era correspondida. Um dia, Walter, seu marido, voltando para casa mais cedo descobre o relacionamento de sua mulher. Esse homem inteligente e dedicado à sua profissão, que adorava sua mulher apesar de saber que não era amado, não transige e a deixa sem muita escolha: ou ela iria com ele para uma localidade distante da China, para tentar vencer o vírus da cólera que dizimava a cidade ou admitiria que ela se divorciasse, um ato escandaloso na época, casando-se com seu amante, exigindo porém um carta escrita por sua esposa, Dorothy, que o deixaria livre para um novo relacionamento. Ocorre que Walter conhecia bem esse homem vaidoso e sabia que ela jamais deixaria sua família por uma jovem inexperiente. Confrontando o amante percebe com desespero que suas palavras de amor eram apenas belas palavras, nada mais. Sem saída, acompanha seu marido nesta longa marcha pelos confins da China, estabelecendo-se em um pequeno e simples bangalô. Aos poucos, conhecendo o único inglês que morava nesse local, é induzida a conhecer um convento de freiras francesas, que cuidavam de crianças órfãs e dos muitos doentes da região. Sem perspectivas, resolve juntar-se a elas e ajudar com que fosse possível. Passa a cuidar de crianças pequenas e sente-se, pela primeira vez útil e, ao vivenciar tanto horror, imagina que sua atitude não fora tão grave, comparada com tantas mortes e desespero e que seu marido, mesmo não a perdoando, poderia tornar a vida de ambos mais amena. Todavia, uma grande surpresa a aguardava, ela estava grávida e não saberia dizer de quem seria o bebê. Ao seu marido, por sua competência e temperamento, resolve dizer a verdade. Não sabia quem era o pai.  Walter é um personagem triste, com agudo senso de implacável justiça, extremamente tímido e inseguro como amante. Isso soa para ele como mais uma sentença de morte. Passa a dedicar-se cada vez mais ao trabalho. No convento, Kitty descobre o quanto era amado e respeitado por todos. Ela reflete como poderia ter sido diferente seu destino, se tivesse tido mais experiência e sagacidade e menos vontade de apenas estar casada antes da irmã. São tempos amargos para essa heroína, que era admirada, pois pensavam que ela estava lá por amor ao marido. Walter acaba infectado pelo vírus que estudava em seu laboratório e sucumbe a doença. Sua morte é dolorida e Kitty lamenta-a sinceramente por sua coragem e bravura, mas não o amava e de certo modo isso a libertou de uma grande carga emocional. As freiras não permitiram que ela continuasse naquela cidade tão perigosa e contra sua vontade foi obrigada a retornar para Hong-Kong, no navio mais próximo. Apesar das poucas semanas transcorridas, acha-se mais madura e segura. Seu desejo era vender todos os seus bens e viver sozinha em um hotel. Não queria especular sobre o futuro, pois já havia sido tão imprevisível com ela. Logo que o navio atraca no porto de destino, ainda acabando de fazer suas malas em sua cabine, é procurada pela última pessoa que poderia imaginar- Dorothy Towsend. Essa  mulher joga-se em seu pescoço, dando-lhe suas condolências e pedindo para que ela fique em sua casa até que nasça o bebê! (Kitty, ó Kitty, que tipo de heroína lhe fizeram?) Ela vê-se compelida a aceitar o convite e passa a conviver com a família, chegando ao ponto mais degradante de sua vida. Volta a cair nos braços de Charlie! Enojada consigo mesma, resolve regressar imediatamente para a casa de seus pais, que jamais a aceitariam de bom grado. Ela teria uma pensão para sobreviver com seu filho e não ser um fardo tão grande para a família. Entretanto, durante a viagem recebe uma carta da mãe, bastante formal, que seria bem vinda, logo em seguida uma da irmã que também estava grávida e finalmente um telegrama de seu pai avisando que sua mãe, enfim, havia morrido. Doente há muito tempo sucumbira, provavelmente, ao câncer, palavra proibida nesses idos dos anos vinte. Ao chegar, encontra seu pai lendo o jornal, aparentando estar mais calmo e aliviado de seu fardo. Kitty conversa com ele e fica sabendo que fora promovido, e iria partir para a Bahamas. Tendo decidido vender sua casa, pede para que a filha mude-se para Londres e tenha seu filho lá. Ele ajudaria financeiramente à jovem, mas gostaria de estar só. Ela se desespera e implora que lhe dê uma chance para demonstrar seu amor e seu carinho, que lhe haviam sido negados. Agora era seu único parente, sua única tábua de salvação e queria seguir viagem com ele. Introspectivo e com grande senso de responsabilidade acaba cedendo e concordando que Kitty e seu bebê o acompanhem nessa grande jornada. &lt;br /&gt;A leitura do livro, como enredo, é bastante atraente, mas o que é escrito nas entrelinhas me parece aterrador. A composição dos pensamentos dos personagens é bastante preconceituosa, mesmo para a época. As mulheres são um tanto tolas, vaidosas ou assertivas, devotadas aos maridos e prontas para qualquer sacrifício que os beneficie. Os homens podem ter, livremente, várias facetas. Os chineses são seres quase inumanos por sua raça e aspecto. Os bons exemplos e grandes personalidades honestas são sempre de indivíduos provenientes da Europa e com uma vasta ascendência superior. Para quem estiver curioso sobre estes aspectos e para aqueles que são admiradores de sua enorme literatura é um livro interessante, que chegou a ser proibido quando da sua primeira publicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOMERSET MAUGHAM&lt;br /&gt;Nasceu em 1874, em Paris, vivendo lá até os dez anos. A morte prematura de sua mãe, aos 41 anos o deixou muito traumatizado e seu pai morre dois anos depois. William é enviado para Kent, Inglaterra, onde será educado por seu tio, vigário, em Canterbury. Foi duramente tratado pelo tio e ridicularizado pelos colegas, pois falava mal o inglês e tinha baixa estatura, herdada do pai. Isso faz com que desenvolva um agudo senso de observação e crítica. Estudou na Alemanha filosofia e ao voltar para a Inglaterra estuda medicina e passa a dedicar-se à literatura também. A escrita era um hábito que adquirira aos 15 anos. Seu livro Servidão Humana, quase uma autobiografia, é um dos mais famosos do século 20. Era bissexual. Viajou pelas colônias inglesas do Pacífico, conhecendo-as bem. É considerado um dos maiores escritores ingleses. Em 1927 volta para o sul da França, onde morre em 1965.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-7629357576685265264?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/7629357576685265264/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=7629357576685265264' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7629357576685265264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7629357576685265264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/09/o-veu-pintado-de-maugham.html' title='O VÉU PINTADO DE MAUGHAM'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TJJtg5toknI/AAAAAAAACaA/9CeMxsct9Fk/s72-c/untitled.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-3780481507755217647</id><published>2010-08-13T18:08:00.003-03:00</published><updated>2010-08-15T10:46:05.005-03:00</updated><title type='text'>O HOMEM SENTIMENTAL</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TGW0pSX32mI/AAAAAAAACW4/Vn4eYeE3mAw/s1600/500x500.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 294px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TGW0pSX32mI/AAAAAAAACW4/Vn4eYeE3mAw/s400/500x500.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5505004740929903202" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE JAVIER MARÍAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei se devo contar-lhes meus sonhos”. Assim começa esse romance narrado por um tenor, em primeira pessoa, que nos guiará pelo mundo da realidade e dos sonhos. &lt;br /&gt;Há quatro anos ele viajara para Madri, de trem, com mais três passageiros que se sentaram a sua frente. Era um cantor e teria uma temporada operística. Acostumado a analisar pessoas, passa a observá-los atentamente -  dois homens bem diferentes um do outro e uma mulher de cabeleira castanha e lisa, cujo rosto não conseguira ver, pois dormia com seus cabelos tapando suas feições. Era impecável como se nada mais faltasse para terminá-la. Um dos homens, com mãos muito pequenas, parecia tranqüilo, vulgar e endinheirado, olhava a paisagem ou a si mesmo no vidro da janela, o outro era calvo prematuramente, mas rico, por suas roupas e postura. Seria um político, um prepotente. Seu olhar era ferino e os olhos cor de uísque. Isso tudo ele escrevia com sua caneta agitada. Em seguida, depara-se em um pequeno quarto de hotel com aquela mulher, pedindo que ficasse para sempre com ele, até sua morte. Ela indaga: e se morresse primeiro? Sua morte seria a dele também. Essa narrativa começara há quatro anos. O músico viajava pelas grandes capitais da Europa e se hospedava em hotéis de luxo, comparando sua solidão com a dos representantes comerciais. Contudo era uma pessoa mais sofisticada, rica e famosa; porém esse fato não ajudava no desalento das horas de ócio. As manhãs, enquanto ensaiava, eram os únicos momentos em que se sentia um homem como outro qualquer, com um destino certo para trabalhar, trabalho esse que não fora determinado por ele, mas por um empresário de ópera qualquer. Além do mais, hotel de luxo é sempre igual em qualquer parte do mundo. Estava na velha Madri, onde passara sua infância pobre e adolescência, mas não gostava dela. “Era rústica, divertida e não encerrava mistério.” Essas sensações apareceram com certa ordem em seus sonhos da manhã. Ao chegar, sentado no bar do restaurante, reconhece um dos homens do trem, pelas mãos minúsculas. Até então só pensara em Madri, talvez tivesse se tornado um residente naquela cidade. “Tudo para mim era estranhamente conhecido e alheio, ou íntimo e reprovável... tudo abominável e próprio.” O cantor analisava, minuciosamente, as características de seus sonhos, que para ele eram uma obsessão levada muito a sério. Era complexo contar tudo o que ocorrera durante esses anos. Era difícil “falar sem libreto”.   O homem de mãos setecentistas o reconheceu e tinha um sorriso contente. A pessoa sorridente do bar encantara-se ao saber que nosso herói era cantor. Deveria ter adivinhado por seu tórax, pela postura e pelos peitorais. Dato revelara sua profissão: era conselheiro financeiro, mas na verdade não passava de um acompanhante de seus empregadores. Não se envergonhava disso e fazia companhia para o cantor, em sua própria cidade, a qual o deixava tão isolado. Dato explicara que escoltava Natalia, mulher do banqueiro Manur. Era uma mulher frágil e melancólica que encontrava nele um “amigo” ideal. O casal era riquíssimo, ele belga e ela natural de Madri, cidade que adorava por abrigar seu único irmão, agora residindo na América; sentia-se só e desacompanhada por esse fato. O tenor queixava-se de excessiva dispersão e Dato da excessiva concentração de sua vida. Acompanhar Natalia Manur não era um fardo, pois era uma mulher agradável, embora deprimida. Ao narrador “ele parece ser um homem paciente e determinado”. Com conversa tão pessoal, o tenor espantou-se ao mentir quando perguntado se era casado. Dissera que não, porém vivia com uma jovem, Berta. Moravam em Barcelona e ela sempre o esperava após suas longas apresentações. Nesse momento Natalia Manur apareceu no bar. O Leão de Nápoles, como era conhecido, estabeleceu uma amizade agradável com essas duas personagens, formando, os três, uma rotina benéfica em que ele jamais se sentia só. Era acompanhado por eles durante todos os ensaios e “olhava fascinado para aqueles dois devotos de circunstância que haviam caído do céu na cidade de Madri.” Formaram um trio inseparável para todas as horas do dia. Dato jamais impunha sua vontade ou presença, deixando o cantor brilhar diante de Natalia.  O primeiro, diante da madrilena, portava-se completamente diferente do que fora no bar: conversador e divertido.  Em certo momento, Manur surge com o dedo indicador levantado e imóvel olhando o tenor e isso faz com que Dato “sempre senhor das situações” apresente um ao outro. Esse dedo foi visto como uma advertência pelo cantor.  Ele entendeu que estava ameaçando o ameaçante. Sendo flamengo e falando vários idiomas, inclusive o espanhol, sem nenhum sotaque ou dificuldade, deixou o herói com uma sensação muito irritante... Natalia e Manur casados e há muito tempo e ele não percebera nada no trem! Isso “saltava aos olhos”. O banqueiro era “pedante, correto, sentencioso.” Esse homem tão poderoso fazia-se de sedutor “a medida justa para ser ardoroso e dominador... a medida justa para sublinhar minha posição de bufão.” O cantor encontrara Manur apenas por três vezes e no terceiro encontro não deixaria de pensar nele e sonhar com ele. Teve certeza de que desejava aniquilá-lo e continuar vendo sua mulher, a sós. Passaram-se quatro anos, durante os quais não pensara nele próprio. Acreditava que Berta não o compreendia e sentia-se só, como sempre. “Meu caráter consistia em ceder... Eu só soube me negar às coisas ou lutar por elas em pensamento e, ultimamente, como digo, nem sequer penso.” Aqui o autor discorre longamente sobre a importância do mundo onírico e de não ser apenas um estado de suspensão das necessidades vitais. Para ele o sono e o sonho eram dignos de serem velados, contudo Berta não pensava como esse homem sensível. Virava-se na cama e dormia, mas não ele. Enquanto ele foi se tornando o Leão de Nápoles, Berta morria e “se tornou nada.” Recebera a notícia pelo atual companheiro, que lhe propunha doar seus pertences. Havia caído da escada, enquanto carregava os livros do tenor e, com um tombo espetacular, falecera. “De agora em diante, se isso é possível, crescerá no meu esquecimento.” “Como é possível aniquilar e superar um homem que você não conhece...” Isso era o que se perguntava atualmente. Sua temporada chegaria ao fim e sobre Natália também não sabia nada de concreto, apenas o que pudera observar – seus gestos, gostos, andar, atitudes e seus dentes perfeitos. Tinha medo de que ela estivesse apenas substituindo-o por seu irmão ausente. Sobre seus males e carências, ao contrário de Dato, não tinha a menor idéia, após uma semana de contatos diários. Só sabia que amava o irmão e não tivera amantes. Não sabia por que ela e Manur de Flandres levavam vidas diurnas tão separadas, simplesmente podia supor as razões. Imaginava-o em pijama de seda verde, observando Natalia deixar seu casaco e  bolsa em uma poltrona, ir ao banheiro e se despir para entrar na cama de casal. Imaginava, também, como seria o amor deles, ou o desamor. Se ele notaria as diferenças causadas em seu corpo, que apesar de ainda belo não era mais esplêndido. Falar-se-iam sobre o dia a dia?  Se havia saído novamente com aquele cantor? “Que sujeitinho. Não fui com a cara dele.” Seus devaneios quase não tinham fim, conjecturando as mais diversas situações como todos os apaixonados. Pensava também que um cheiro invariável ou rastros é que “dão origem à saudade.” Só de uma coisa tinha absoluta certeza: “A vida deles é de um modo que não admite mais improviso nem mudanças, tudo foi falado e estipulado faz tempo.” Apesar de aceitar que Manur não exigia mais nada, ele era, de fato, o proprietário de Natalia! Durante esse curto tempo de convivência, Natalia Manur não revelara qualquer detalhe de sua vida. Já o tenor contara desde sua infância pobre e sofrida, desconfiando sempre que seu padrinho e tio fosse seu verdadeiro pai, até sua adolescência, quando começara a ter um pouco mais de liberdade. O canto o salvara. Aprendera a ler as partituras e com isso pudera ganhar algum dinheiro. Ele e seu padrinho haviam morado em Madri, cidade que aprendera a desprezar. “Eu intuía que minha estada ali... dependia do seu capricho e não do seu afeto, nem do seu senso de responsabilidade nem da sua clemência...” Natalia Manur ouvia atenta e identificou sua vida atual com a do garoto responsável e sem mãe. Obcecado por eliminar o belga de Flandres, a lembrança de Berta e ainda continuar vendo Natalia diariamente, conjeturou que Manur cairia “por si só.” “Como cansa amar”, pensou. Esquematizara um plano eficaz e viável, ao mesmo tempo, para obter o amor de Natalia. O Leão de Nápoles gostava da fama e do lugar que conquistara com muito esforço. Morava num belo lugar em Barcelona e não amava mais Berta. Cheio de desejo, resolveu ligar para o quarto de Natalia no hotel. Era muito tarde e quem atendeu foi Manur. Desligou em segundos e, desesperado, ligou para a portaria pedindo uma puta para lhe fazer companhia durante a noite.  Ela já aparecera em seu sonho daquela manhã. O encontro mostrou-se desastroso e nada ocorreu, contudo ele conseguira dormir mesmo sem ser velado por alguém, como gostaria. O Leão de Nápoles não queria tornar-se um cantor wagneriano, seres obsessivos e maníacos, e descreve a trágica epopéia ocorrida com Hörbiger, no papel de Otello, que cantava, sobretudo, Wagner. Queria sempre a orquestra muito afinada com ele e os lugares da platéia repletos. O drama foi se agravando e a cada temporada perdia o ritmo da voz e da arte. O círculo se fecha e os lugares vagos abundam. A cortina se abria cada vez mais tarde até que uma noite em Munique perde completamente a voz e o que se ouviu foi uma “nota agudíssima que ninguém nunca pode repetir...” Acabara sua carreira. Fora “o mais paciente, incondicional e sofrido espectador de si mesmo”, na tentativa de ocupar com empregados e com ele mesmo as cadeiras vazias.  O tenor tinha a certeza de que na noite de sua estréia o artista mais promissor seria ele. Na manhã do grande dia, ele recebeu uma visita inesperada de Hieronimo (com o agá aspirado) Manur para o dejejum em seu luxuoso quarto de hotel. Fora um encontro forçado e constrangedor, pois o banqueiro falara abertamente de seu interesse por sua mulher. Com amizade ele concordaria, mas refutaria qualquer sentimento mais denso. O Leão de Nápoles enrubesceu e não soube o que dizer. Hieronimo prosseguiu falando: “Ontem à noite, pela primeira vez, o senhor fez uma coisa anômala: ligar em hora imprópria e desligar ao ouvir minha voz. Para mim, basta uma primeira ação anômala para saber o que vai acontecer em seguida... O senhor mandou chamar logo depois uma prostituta...” – O belga arrogante era sentencioso. Esses fatos mais do que graves, obriga-o a proibi-lo de continuar vendo sua mulher. Ele decidira por Natalia e não queria perder mais tempo. Havia, praticamente, comprado-a de seu pai em dificuldades. Salvara também seu irmão. O casal tinha um casamento de outro tipo, diferente dos normais. Amara sua mulher desde o primeiro momento em que a vira. Outros já tinham tentado seduzi-la, sem sucesso. “Tudo que ele disse eu ouvi no meu sonho desta manhã com tanta exatidão como foi dito então”, mas não saberia repeti-lo... “Nunca vi nenhuma outra pessoa com tanta vontade de perseverar em sua escolha e em seu amor.” O desejo físico do rapaz por ela aumentara, assim como o desejo de eliminar seu marido. O homem de Flandres havia salvado a família de Natalia da destruição econômica e ela havia sido dada pelo irmão inescrupuloso, Roberto, como sua mulher. Ele esperava ser amado por essa mulher e esta, por sua vez, ansiava pelo reerguimento financeiro do irmão para livrá-la de tal situação.  Advém que isso jamais ocorreria, pois Roberto era perdulário e desastrado. Manur ponderou nesse dia: “O senhor deve imaginar quão infeliz ela deve ser, mas considere quanto eu também sou.” Adivinhando os pensamentos do jovem tenor afirma que sua curiosidade sobre o que se passava em seu quarto durante esses quinze anos, jamais seria satisfeita. Manur, ofensivo e defensivo, confirmou que nada poderia interferir nas regras já estipuladas de seu matrimônio.  Continuou ainda “não sou um marido negligente... não me complique a vida nem complique a sua. Minha mulher não é um bom negócio...” Levantou-se, arrumou-se e partiu. O Leão de Nápoles acabou de se barbear, tapou a boca com esparadrapo para ficar calado no dia de sua estréia e sequer atendeu ao telefone que tocara. Berta havia morrido há três semanas e na caixa do correio encontra outra carta de seu viúvo. Estava desesperado, mudara-se da torre em que moravam e colocaria fogo em tudo que fizesse com que ele se lembrasse da mulher falecida. O tenor não se lembrava mais dela e não queria nada, absolutamente. O tenor temia que, a partir daquele momento, ninguém mais velasse seu sono nem ele o de Natalia. Ao acordar estava sozinho na enorme cama, pois Natalia não estava mais lá. Agora ele tomava soníferos fortíssimos para adormecer. Seu pensamento não havia sido vigilante “e ela certamente não precisou de mim... nem sequer deixou um bilhete... pois ao que parece saiu de viagem.” Sim, ela partira e levara quase tudo. Sua escova de dente voltara “a estar só como antes.” Poderia ter seguido para a Argentina, a fim de ficar com seu irmão, agora próspero. Poderia ser que o tivesse abandonado como fizera quatro anos atrás com Hieronimo Manur! Também sonhara com seu abandono. Ela já havia prevenido – “Quando eu por fim for embora, você não saberá.” Ultimamente Natalia parecia cansada de tanta viagem, estava com olheiras novamente e as peles em volta das unhas roídas. Já não sorria tanto e fatigava-se muito por ter de continuar viajando continuamente. Ela desinteressara-se pela vida, não o acompanhava mais aos recitais e parecia entorpecida para tudo e todos. O jovem passa a recordar suas atitudes e lembra que ela “era a mesma que vi aquela primeira vez e que me fez saber que Natalia Manur (da qual eu ainda não sabia o nome) estava acometida, como foi mesmo que ela disse?, de dissoluções melancólicas.” Esse drama acontecera há quatro anos. “O que mais aconteceu?... Oh, sim, também sonhei que beijava pela primeira vez Natalia Manur, quase sem saber, naquele outro quarto de hotel (não o de luxo) a que fomos na tarde seguinte da estréia de Otello de Verdi no teatro de La Zarzuela.” Manur já havia sido abandonado e ainda não sabia. Depois da estréia da ópera, ninguém que houvesse convivido com o tenor, durante esses poucos dias, apareceu em seu camarim. Nem mesmo seu padrinho, o senhor Casaldáliga. Depois de jantar com artistas e empresários, o rapaz passou horas em seu quarto, completamente só, ouvindo apenas o barulho dos caminhões de lixo, que emporcalhavam a cidade.  Deparou-se com um bilhete de Dato e, apesar de desconfortável, foi ao seu encontro. Dato estava nervoso, mas contido. Deu-lhe o recado de Natalia que queria encontrar-se com ele, às 5 horas, da tarde já descrita. Aconselhou-o a não levar a sério o caso, já que todos poderiam sair perdendo. O Leão de Nápoles fora o eleito por Natalia, que jamais tivera um amante. Ao perguntar por que favorecia a ele e não ao belga, Dato respondeu com a voz emocionada: “É difícil saber quem sai favorecido por uma ação ou por uma omissão, mas a gente também se cansa de não ter preferência.” Depois disso nunca mais vira Manur ou seu assistente. Fechando a porta do quarto simples de hotel, tinha “pressa de chegar à alma dela” e a cobriu de beijos. “Verei antecipadamente na tua a minha morte... ao reconhecer-me em tuas feições rígidas, deixarei de crer na autenticidade da tua expiração, por dar à tua, corpo e verossimilhança à minha.” Ninguém estaria capacitado de imaginar a própria morte, delibera o tenor. Manur levara quatro dias para resolver se matar. Vestido a passeio e com uma pistola na mão atentou contra sua vida e estava caído no chão do hotel de luxo. Um casal bêbado, errando de quarto, o havia encontrado. “A mão havia vacilado e a bala destinada ao coração tinha ido parar no pulmão esquerdo sem danificar nenhum órgão vital.” O diagnóstico era de que viveria, mas isso não sucedeu. Morreu três semanas após a tentativa e Natalia permaneceu, a cada minuto, ao seu lado. Segundo Dato, no dia do desaparecimento, Manur apenas parecera ensimesmado ou indiferente. Nem no próprio dia do suicídio ele demonstrou o menor indício do que estava por ocorrer. “Quem sabe Manur tenha tocado naqueles vestidos... vai ver que até os beijou... e um pouco de barba impediu que eles deslizassem suavemente pela face. Manur vê a tarde cair... um ar primaveril que não é próprio de seu país agita levemente as cortinas... as mulheres já saem arrumadas... seus olhos cor de conhaque espiam moderada e pausadamente através das lentes... Manur desliga a tevê e acende a luz do banheiro, em cujo espelho se mira fugazmente... Senta-se e espera anoitecer... Não deixa transparecer nada.” Depois dessas conjecturas, o Leão de Nápoles estava com sono e perguntou-se com que sonharia depois de largar aquela caneta e deitar-se sozinho. Manur, na penumbra, tivera vontade de se liquidar. A mão do tenor também estava na penumbra, mas seria incapaz de fazer o mesmo.&lt;br /&gt;[Maio de 1986] &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Javier Marías nasceu em Madri, 1951. É considerado um dos romancistas mais relevantes da língua castelhana contemporânea e é membro da Real Academia Espanhola. Filho de um filósofo passou parte da infância com sua família nos Estados Unidos. Em 1970 escreveu seu primeiro romance Los domínios del lobo. Lecionou nas Universidades de Oxford, Reino Unido, Wellesley College, Boston, e em 1992 na Universidade de Madrid. Em 1997 é honrado com o importante premio Nelly Sachs. Seus artigos de imprensa têm tido grande influência na cultura de Espanha e América Latina. Os livros foram traduzidos em 44 países. Publicaram no Brasil os romances Amanhã na batalha, Negro dorso do tempo, Seu rosto amanhã, Febre e lança, além de O homem sentimental. Trabalho magnífico, onde ele percorre o universo onírico e sua importância em nosso estado de vigília. Entrelaça esses dois mundos com fluidez e perspicácia. Isso obriga ao leitor a ter uma concentração maior para poder abraçar seu raciocínio. Marías aborda, também, temas humanos mais simples e inerentes a todos como amor, ódio e vingança, além da fama, poder, sedução e manipulação. O romance, escrito na primeira pessoa do singular, jamais menciona o nome do herói, mas sim seus sentimentos mais profundos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-3780481507755217647?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/3780481507755217647/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=3780481507755217647' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/3780481507755217647'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/3780481507755217647'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/08/o-homem-sentimental.html' title='O HOMEM SENTIMENTAL'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TGW0pSX32mI/AAAAAAAACW4/Vn4eYeE3mAw/s72-c/500x500.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-2693115315455282059</id><published>2010-07-28T17:06:00.002-03:00</published><updated>2010-07-28T17:09:24.818-03:00</updated><title type='text'>ÁSSIA  -  TURQUÊNIEV</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TFCOMsCkucI/AAAAAAAACV4/kWfQvD8l4Q8/s1600/mdultima+foto.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 326px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TFCOMsCkucI/AAAAAAAACV4/kWfQvD8l4Q8/s400/mdultima+foto.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5499051493650905538" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I.S. TURGUÊNIEV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este romancista do século XIX nos oferece uma noveleta que lhe causou muitos problemas, na época em que foi escrita.&lt;br /&gt;Em um ambiente romântico e idílico nosso herói russo chamado de N.N., com vinte e cinco anos, rico e independente, resolve sair do país e conhecer o mundo, instalando-se na minúscula cidade de Z., às margens do rio Reno. Estava na romântica Alemanha, onde, apesar da paisagem deslumbrante, interessava-se mesmo por rostos e pessoas. Monumentos e a natureza não lhe chamavam tanto a atenção. Um dia resolveu atravessar a margem e ver L., vila que ainda não conhecia. Encontrava-se amuado por ter rompido seu namoro com uma viúva experiente. Em L. participaria de um banquete para alunos de diferentes escolas, Kommers, onde todos usavam alegres trajes de estudantes. “Essa liberdade tão espontânea me tocava e atiçava.” Acidentalmente, encontra um alegre e cativante casal que morava no alto de uma colina, Ássia e seu irmão Gáguin. Ela era bela, altura mediana, belos olhos e cabelos escuros; ele também bonito. Eram russos e sem querer começou a conversar, mesmo não querendo dialogar com patrícios por um tempo. A simpatia foi mútua e instantânea. Tornaram-se amigos, os três, e N. descobriu que não estava mais apaixonado, mas feliz. Gáguin era dono de grande fortuna e queria ser pintor, contudo era do tipo que não levava nada a sério. “Era uma verdadeira alma russa, franca, honesta, simples, mas infelizmente um pouco indolente...” N. tornara-se íntimo de Gáguin e se vê pensando continuamente em Ássia, concluindo que ela não era, de fato, irmã do rapaz. Ao mesmo tempo uma enorme saudade da Rússia assola seu coração. Ássia parecia-lhe uma verdadeira jovem russa, “quase uma criada”; absorta em seu bordado cantava uma canção popular russa. Estava totalmente diferente do dia anterior, quando se mostrara altiva, risonha e provocadora com seu sorriso forçado. Visitando o novo amigo com freqüência, partem para fazer um estudo de desenho ao ar livre, mas predominou “quase o tempo todo aquele tipo de conversa pela qual o russo de bom grado se deixa levar.” Voltaram e encontraram Ássia da mesma maneira em que a haviam deixado e N. não percebeu nenhum coquetismo na jovem. Assim mesmo, reafirma que irmã de Gáguin ela não é. O tempo foi passando e cada vez mais as diferenças entre os irmãos foi se acentuando. Ela parecia, agora, amargurada. A educação dos dois era visivelmente diferente, pois ele era fidalgo e ela não parecia uma bárichnia, ou seja, uma moça de família nobre. “Aquela planta silvestre fora cultivada há pouco. Aquele vinho ainda fermentava.” Casualmente, N. confirmou suas suspeitas, pois sob um caramanchão de acácias ela chorava e lhe jurava que a só ele amaria. N. fica confuso e quis saber o porquê dessa situação. Dormiu mal e resolveu passar três dias no cenário idílico das montanhas. Voltando, encontra um bilhete de Gáguin urgindo para que volte a visitá-los. Contra a vontade, dirige-se para a casa dos amigos em L. O reencontro fora difícil para Gáguin, pois ele lhe revelou que Ássia era sua meia irmã. Era filha de seu pai viúvo com a antiga camareira de sua mãe. Após a morte da esposa esse homem extraordinariamente bom trancara-se no campo com o filho, que aos doze anos fora levado pelo tio para São Petersburgo, a fim de ter uma educação formal e conviver com pessoas de sua idade e condição social. Quando N. já era adulto seu pai adoeceu seriamente e queria ver o filho para contar-lhe que a menina magrinha de dez anos que lá morava era sua irmã. Fora levada para a casa do pai, aos nove anos, com a morte da mãe, a qual não quisera envergonhá-lo com o casamento proposto. Fora cuidada com muito amor, mas “na mais completa independência”. Assim seu “coração não se deixou corromper e a razão permaneceu incólume. Apenas sete anos marcavam a diferença de idade entre eles, ela tinha treze e ele vinte, com o encargo de cuidá-la. Foi colocada em um dos melhores internatos da Rússia, mas apesar de sua aguda inteligência não se adaptou. Era zombada pelas meninas nobres, porém nunca se curvara. Aos dezessete anos sai de lá e Gáguin teve a idéia de passar com ela dois anos no exterior. Ássia jamais tinha se interessado por qualquer rapaz, ao contrário, só amava o irmão. Segundo Gáguin ela “precisava de um herói, de um homem extraordinário, talvez um pastor pitoresco no desfiladeiro de uma montanha.” N. passa a compreender as atitudes que ele recriminava como exibição de si mesma, sua quietude e incapacidade de se conter. Ela o atraia. O contato com essa jovem faz com que tenha um brutal desejo de felicidade. Ássia descobre que tem asas, como os pássaros, entretanto não tinha para onde voar e N. gostaria que ela o amasse. Novamente, Gáguin procura N. e, preocupado, afirma que Ássia apaixonara-se por ele, que sofria e queria partir imediatamente. Ao ler o bilhete que mandara para N., os dois puderam se assegurar de sua fragilidade e ambivalência. O jovem tenta decifrar seus sentimentos. Ele a ama, sem dúvida, mas casar-se com Ássia de apenas dezessete anos e frágil seria uma grande ousadia. “Afligia-me por Ássia , seu amor alegrava-me e ao mesmo tempo desnorteava-me.” O peso desse enlace tornara-se tão grande que N. resolveu que não se casaria com ela e não diria que a amava! O encontro entre os dois amantes fora um desastre. Ela com medo e finalmente apaixonada. Ele a beijou, mas depois, inseguro, censurou-a por não deixar que aquele amor amadurecesse e aflorasse. Magoada e ferida ela desapareceu sem dizer uma só palavra. “Olhei-a boquiaberto – e sai.” Coberto de censuras N. procura Gáguin e esperam que ela volte, mas Ássia não aparece. Preocupados vão procurá-la, separados, e voltam em uma hora, como combinado. Enquanto a procura N. sente “um pesar dolorido, o amor – sim, o mais terno amor!” Isso dilacerava seu coração. Enlouquecido avista alguma coisa branca no rio e resolve, transfixado, voltar e falar com Gáguin. Ássia havia chegado e ele ponderou: “foram asas fortes e amplas que me ergueram... ouvi um rouxinol... tive a impressão de que cantava meu amor e minha felicidade.” Na manhã seguinte, ao chegar à casinha branca, não fora afortunado, eles haviam partido às seis horas para Colônia.  E N. não havia pronunciado o que sentia por ela – eu te amo! Assim ele partiu. Apesar de ir ao encalço dos irmãos, vinte anos depois, nunca mais os vira. Era um solteirão infeliz, sem família. Restaram apenas os bilhetes de Ássia e o aroma de uma flor que lhe jogara da janela. Esse aroma de uma “planta insignificante”... “sobrevive ao próprio homem.”&lt;br /&gt;Ano de 1857&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tão conhecido no Brasil como Tolstoi ou Dostoievski, IVAN SERGUÊIEVITCH TURGUÊNIEV, forma com eles um tríade de grandes romancistas russos do século XIX. Filho de família aristocrática e riquíssima. Estuda em Moscou e Petersburgo, gosta de leituras românticas e traduz Lord Byron. Em 1838, em Berlim estuda filosofia hegeliana , vivendo entre o Ocidente e Oriente. Tem uma filha ilegítima e terá uma relação platônica com uma cantora. Escreve uma série de esboços rurais, que reunidos dão o livro Memórias de um Caçador. É entusiasta da abolição do regime servil. Sua vida é nômade com parca saúde. O auge de seu sucesso vem em 1862. Morre nas cercanias de Paris em 3 de setembro de 1883 é enterrado em S. Petersburgo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-2693115315455282059?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/2693115315455282059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=2693115315455282059' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/2693115315455282059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/2693115315455282059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/07/assia-turqueniev.html' title='ÁSSIA  -  TURQUÊNIEV'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TFCOMsCkucI/AAAAAAAACV4/kWfQvD8l4Q8/s72-c/mdultima+foto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-1378322643596928203</id><published>2010-07-19T14:25:00.002-03:00</published><updated>2010-07-19T14:30:00.275-03:00</updated><title type='text'>SHAKESPEARE E A ECONOMIA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TESKwYddMTI/AAAAAAAACTY/u11dbc2vqE4/s1600/william-shakespeare.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 330px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TESKwYddMTI/AAAAAAAACTY/u11dbc2vqE4/s400/william-shakespeare.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5495670009103200562" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;GUSTAVO H. B. FRANCO - HENRY W. FARNAM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ECONOMIA DE SHAKESPEARE&lt;br /&gt;GUSTAVO H.B. FRANCO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este interessantíssimo livro com textos de Gustavo Franco e Henry W. Farnam fala sobre a economia, no século XVI, quando ainda não tinha o nome ou a abrangência como hoje a conhecemos. Era o nascer do capitalismo.&lt;br /&gt;Gustavo Franco, baseado na obra de Shakespeare, faz, através de seus escritos, uma análise profunda de como esse grande bardo estava vinculado às finanças e à economia em geral de seu período. Todas as suas peças eram escritas a fim de que ele se aproximasse mais do povo e para, em uma linguagem compreensível, entretê-los, desde a rainha Elizabeth e sua corte até as famílias de mendigos que acorriam para seu famoso teatro, O Globo. Para tal era imprescindível conhecer profundamente suas necessidades políticas, financeiras e sociais. As peças eram escritas para a população em geral, para que se identificassem com elas. Não eram publicadas, somente mais tarde, pois a língua ainda estava em formação e muitas palavras eram tiradas do latim, a língua culta da época, ou inventadas por esse gênio. Os teatros eram a única diversão oferecida para a população desse século e havia diversos ótimos autores que também escreviam, assim como ele. O Teatro era muito lucrativo para a corte, que cobrava generosos impostos sobre as apresentações. Uma peça para dar lucro deveria ser representada por muitas vezes e em algumas ocasiões eles paravam devido às pragas ou diferentes motivos, como incêndio.  Shakespeare soube enriquecer como nenhum outro de seu tempo com essa função. Gustavo Franco esclarece alguns mitos da época que não eram verdadeiros, como a presença da rainha em sua casa de espetáculos. As moedas eram muito importantes em vista de seu valor intrínseco, mas mesmo isso foi sendo falsificado com o passar dos anos. Pouco ou quase nada se sabe sobre o grande escritor e o mais concreto está em seu testamento, que não foi redigido por ele. A importância do crédito era enorme, pois havia grandes mudanças, graças às descobertas de novos territórios e o desenvolvimento agrícola. Práticas comerciais e financeiras se acumulavam.   Seu livro nos mostra o início do venture capital, privateering, bonds, e outros nomes agora tão usados, ligados nesses tempos à economia do teatro.&lt;br /&gt;Realmente é um livro muito significativo, mesmo para quem não quer saber de textos shakespearianos ou economia como uma ciência. Belíssimo trabalho de pesquisa e fluidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ECONOMIA EM SHAKESPEARE&lt;br /&gt;HENRY W. FARNAM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda parte do livro foi escrita por Henry W. Farnam, no início da década de 30. Foi ele quem notou as alusões à economia, contida nas peças shakespearianas, e após longo estudo demonstra, como nos diálogos e nas descrições dessas obras, o quanto se mencionava sobre essa ciência, como hoje é vista. É um relato interessantíssimo, pois Shakespeare, tendo nascido no campo, tinha grande conhecimento sobre essa atividade, bem como sobre o comércio das grandes navegações (O Novo Mundo, Índia e Ásia). Em sua obra podemos saber quais os principais produtos da época e quais eram usados comumente. Quando se muda para Londres, torna-se um citadino, cobrindo tudo o que se apresentava na intelectualidade. Trechos das peças muito engraçados e outros elucidatórios, nos surpreende pela modernidade em uma época em que o capitalismo começa a florescer.&lt;br /&gt;A junção desses dois trabalhos excelentes e simples faz do livro uma leitura culta e muito agradável.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-1378322643596928203?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/1378322643596928203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=1378322643596928203' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/1378322643596928203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/1378322643596928203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/07/shakespeare-e-economia.html' title='SHAKESPEARE E A ECONOMIA'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/TESKwYddMTI/AAAAAAAACTY/u11dbc2vqE4/s72-c/william-shakespeare.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-8333345446391856095</id><published>2010-04-19T15:51:00.001-03:00</published><updated>2010-04-19T15:55:09.735-03:00</updated><title type='text'>MADAME BOVARY de GUSTAVE FLAUBERT</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S8ym0vZSGNI/AAAAAAAACEY/jNXvi_cJf1M/s1600/Madame+Bouvary.JPG"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 299px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S8ym0vZSGNI/AAAAAAAACEY/jNXvi_cJf1M/s400/Madame+Bouvary.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5461923873099487442" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é um grande romance escrito no século XIX.&lt;br /&gt;De algum modo se assemelha aos livros de seus grandes pares da época, mas tem muito de inovador. Nessa obra, Flaubert descreve admiravelmente bem a vida das pessoas simples do campo, assim como as de uma classe superior que gostariam de alcançar vôos mais altos e se projetarem de algum modo na sociedade. As descrições da natureza são fenomenais e pequenas frases soltas fazem toda a diferença: “Nada, contudo, era menos curioso do que aquela curiosidade.”&lt;br /&gt;Trata-se da história de dois jovens bem diferentes, mas com o mesmo alicerce social. Charles deveria, segundo seus pais, tornar-se médico e assim ascender como pessoa, mas sendo despretensioso e pouco estudioso, envereda pelo caminho mais fácil, será inspetor de saúde. Casa-se cedo, por escolha de sua mãe, com uma herdeira bem mais velha do que ele, mas ela morre e, então desposa a graciosa e linda Emma, filha de um eternamente grato paciente. Emma é seu oposto. Educada em um convento, é apresentável e polida.  Leitora voraz de livros românticos com heroínas apaixonadas e sonhadoras faz de sua vida uma meta para se tornar como elas, até adúltera se fosse necessário. Apesar de ser amada profundamente por Charles, obviamente não consegue corresponder a esse sentimento, por razões pessoais e por considerá-lo naïve, sem maiores ambições. Entretanto, para Charles amá-la perdidamente era sua missão e sua vida. Sentia-se o homem mais feliz do mundo por ter uma mulher tão formosa e refinada. “Quanto a Emma, ela não se interrogou para saber se o amava. O amor, pensava, devia chegar de repente com grande estrondo e fulgurações... Ela não sabia que no terraço das casas a chuva faz lagos quando as calhas estão entupidas e permaneceu assim... quando descobriu subitamente uma fenda no muro.” Essa fenda foi sua vida, seu matrimônio. Emma, uma figura que na época causou muito escândalo, não passava de uma jovem tola que queria ter um amor avassalador e ser objeto de paixão por alguém mais refinado, que realmente soubesse apreciar e retribuir seus anseios e eles não foram poucos. &lt;br /&gt; Com o passar do tempo, o casal tem uma filha, a qual Emma despreza e relega aos cuidados da ama. Sua casa vai ficando cada vez mais sofisticada, assim como suas roupas e hábitos. A trama tem várias passagens muito divertidas, mostrando a presunção e pretensão de algumas pessoas como ela.  São um farmacêutico, um escrevente, um homem sofisticado ou algum aluno de Direito que a admiram e agem de modo similar. “Ora – disse ele – não sabe que há almas constantemente atormentadas? Precisam alternadamente de sonho de ação, das mais puras paixões, dos mais violentos gozos, e atiramo-nos assim em toda espécie de fantasia, de loucura.” Essa é a lógica de um de seus amantes, a fim de conquistá-la. Ela gostou do que ouviu. A crítica que Flaubert faz contra o governo, os costumes e a hipocrisia da sociedade são inúmeras, sempre bem humoradas, além de sarcásticas. Os discursos são demagógicos e sem sentido prático. “ O agricultor, senhores, semeando com a mão laboriosa os sulcos fecundos dos campos... E precisaria eu, senhores, demonstrar-vos aqui a utilidade da agricultura?... Quem provê nossas necessidades? Quem fornece o necessário para nossa subsistência... faz nascer o trigo... com ele confeccionar um alimento tanto para o rico como para o pobre...”. E assim vai longe a demagogia e o povo aplaude!&lt;br /&gt;Charles não consegue ver defeito nenhum em sua pacata vida. Está sempre feliz, apesar de trabalhar como um mouro e não ter mais tanta atenção da esposa virtuosíssima. “Charles acabava por dar mais valor a si próprio pelo fato de possuir tal mulher.” Suas dívidas vão se tornando a cada dia maiores, pois Emma gasta sem freios, com prazer e sem culpa. Gasta com ela mesma e com sua casa, que deverá ser uma extensão de seu corpo. No entanto Charles a aprova e assim vai dilapidando sua fortuna pessoal e de sua família. &lt;br /&gt;Uma vez iniciada a ciranda de prazeres a Sra. Bovary não consegue dar um freio digno para si mesma e cada vez afunda mais seu psique e sua auto-estima. Ela é a heroína  quase típica da época. Sem profissão, algumas mulheres sentiam um enorme vazio e acabavam por querer igualar-se às mulheres de livros picantes ou açucarados do momento e assim destruíam suas vida e das pessoas próximas. Em algum momento da história, Emma quer se redimir e se volta para a religião com o mesmo fervor que dedicou à volúpia. Mas isso duraria um breve período de sua jovem vida. Todo o erotismo do livro é descrito de maneira inteligente e imaginativa, tanto que as cenas mais picantes passam-se dentro de um fiacre, totalmente fechado, que percorre, aceleradamente, uma pequena cidade francesa, Rouen, de manhã à noite. Lá estavam Emma e seu jovem amante Léon. Flaubert mostra seu gênio impecável mesmo nos momentos mais tensos, quando um de seus personagens está perto da morte com uma perna amputada e o que se segue é um dos mais divertidos diálogos. Charles e Emma, de certa forma se completam, apesar de todas as manipulações da mulher. Na época do lançamento do romance, foi motivo de muita especulação quem teria inspirado Madame Bovary a ele; Gustave respondeu: Emma c’est mois. A narrativa cobre toda a trágica vida do Sr. e Sra. Bovary até o fim de seus dias. Flaubert discorre sobre os mínimos pensamentos humanos com uma habilidade invejável, pois seus personagens, apesar de simples, são complexos como seres humanos e podemos nos reconhecer neles, em suas ambições, vaidades, medo, amor e ódio. É um escritor realista que possuiu uma obra pequena, mas de altíssima qualidade, pois era um homem obsessivo pela palavra, pela construção das frases e pela elegância.  &lt;br /&gt;Flaubert nasceu em 12 de dezembro de 1821, em Rouen, Normandia, onde seu pai era um cirurgião de renome. Contudo ele seguiu o caminho da literatura. Fora um leitor ávido desde a adolescência. Em 1841 estuda Direito em Paris, mas depois de constatar que tinha epilepsia volta para a Normandia, em Croisset, onde se dedica inteiramente à escrita.  Morre em 8 de maio de 1880. Madame Bovary é um de seus mais famosos romances.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-8333345446391856095?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/8333345446391856095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=8333345446391856095' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/8333345446391856095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/8333345446391856095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/04/madame-bovary-de-gustave-flaubert.html' title='MADAME BOVARY de GUSTAVE FLAUBERT'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S8ym0vZSGNI/AAAAAAAACEY/jNXvi_cJf1M/s72-c/Madame+Bouvary.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-2696693022729568622</id><published>2010-01-26T15:05:00.011-02:00</published><updated>2010-01-26T15:17:44.889-02:00</updated><title type='text'>LIBERDADE À MEIA NOITE -   ÍNDIA E GANDHI</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jPGYWiOI/AAAAAAAAB8Q/y-UOm9OtLi8/s1600-h/gandhi-2.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 385px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jPGYWiOI/AAAAAAAAB8Q/y-UOm9OtLi8/s400/gandhi-2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431098417949870306" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jH5dgfhI/AAAAAAAAB8I/I5ZVQhOBjCo/s1600-h/150px-Mountbatten.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 150px; height: 225px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jH5dgfhI/AAAAAAAAB8I/I5ZVQhOBjCo/s400/150px-Mountbatten.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431098294222749202" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jDHKoTVI/AAAAAAAAB8A/rx-ieBSjSRY/s1600-h/Patel_and_Gandhi.png"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jDHKoTVI/AAAAAAAAB8A/rx-ieBSjSRY/s400/Patel_and_Gandhi.png" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431098212002319698" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18i4_poB7I/AAAAAAAAB74/GIiLgQazEMA/s1600-h/marcas234a.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18i4_poB7I/AAAAAAAAB74/GIiLgQazEMA/s400/marcas234a.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431098038186149810" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iyQ5yB_I/AAAAAAAAB7w/mRlHMRD2xLg/s1600-h/mahatma_gandhi.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 255px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iyQ5yB_I/AAAAAAAAB7w/mRlHMRD2xLg/s400/mahatma_gandhi.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097922558232562" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18ipEPRG2I/AAAAAAAAB7o/M_kKbfAM-YU/s1600-h/jawaharlal_nehru.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 350px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18ipEPRG2I/AAAAAAAAB7o/M_kKbfAM-YU/s400/jawaharlal_nehru.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097764539865954" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18if6_4f-I/AAAAAAAAB7g/wHFDPQmjMqQ/s1600-h/gandhi+e+esposa.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 291px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18if6_4f-I/AAAAAAAAB7g/wHFDPQmjMqQ/s400/gandhi+e+esposa.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097607440596962" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iXWaHG7I/AAAAAAAAB7Y/Bk0EiyX46Xc/s1600-h/ft02.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 276px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iXWaHG7I/AAAAAAAAB7Y/Bk0EiyX46Xc/s400/ft02.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097460179540914" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iMVARg9I/AAAAAAAAB7Q/DWJS2pkrE8s/s1600-h/birla+House.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 364px; height: 301px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iMVARg9I/AAAAAAAAB7Q/DWJS2pkrE8s/s400/birla+House.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097270824174546" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iFQDPC2I/AAAAAAAAB7I/XHCoePQlQvY/s1600-h/250px-Nehru_Gandhi_1937_touchup.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 250px; height: 166px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18iFQDPC2I/AAAAAAAAB7I/XHCoePQlQvY/s400/250px-Nehru_Gandhi_1937_touchup.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097149235333986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18h9QcfF7I/AAAAAAAAB7A/nUCoKZMbfOI/s1600-h/jinnah_gandhi.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 308px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18h9QcfF7I/AAAAAAAAB7A/nUCoKZMbfOI/s400/jinnah_gandhi.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5431097011902289842" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BREVÍSSIMO RESUMO DE&lt;br /&gt;FREEDOM AT MIDNIGHT - (INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E GANDHI)&lt;br /&gt;DE LARRY COLLINS E DOMINIQUE LAPIERRE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Londres, véspera de Ano Novo, 1947&lt;br /&gt;Era inverno e as ruas estavam desertas no pós-guerra. O povo inglês não tinha o que comer e como se aquecer, tampouco motivo para festejar o Ano Novo. Todavia o bisneto da rainha Vitória, Louis Francis Albert Victor Nicholas Mountbatten, aos 46 anos, fora designado pelo primeiro ministro Clement Attlee, para assumir o ritual de passagem para a libertação da Índia. Um vespeiro gigantesco. Attlee o nomearia Vice Rei da Índia, mas Louis não desejava tal honraria. Attlee se apoiava nos conselhos de Archibald Wavell, Marechal de Campo, que possuía as idéias certas. Todo o relacionamento com esse país começara em 1599, com a chegada de um pequeno navio de William Hawkins. Esse foi o primeiro passo. Ai inicia-se uma época de comércio entre as duas potências.  Em 1757, Robert Clive conquista a Índia e inicia uma nova colonização no Oriente. Em 100 anos tomaram o poder! A chegada de jovens britânicos nobres e pobres significava um choque civilizatório. Muitos morriam com o calor e doenças tropicais e alguns voltavam, sem viço, mas ricos e poderosos. Tinha-se a convicção que Deus havia destinado aquela raça para governar e conquistar.&lt;br /&gt;Índia, 1947&lt;br /&gt;Uma frágil criatura prepara-se para partir em uma vila do Delta do Ganges, Noakhali. &lt;br /&gt;Esse homem de setenta e sete anos, seminu, usando óculos era Mohandas Karamchand Gandhi, o responsável por aquele ato que estaria para acontecer. Sua cruzada moral de não violência tinha chegado ao ápice. Os poucos ingleses que haviam negociado com ele admiravam-no. Outros não o compreendiam. A meta de sua luta era a liberdade da Índia. Mas ela seria dividida de maneira irregular, pois havia um intricado sistema de pessoas e fés convivendo lado a lado. Gandhi sempre dizia que teriam de dividir seu corpo, antes de dividir a Índia. Gandhi, agora, partiria ouvindo sua voz interior. Andaria por 47 vilas do local, com seus pés descalços, contando apenas com quatro seguidores: sua sobrinha neta, Manu, de apenas dezenove anos, e mais três gurus. Havia duas grandes fés no subcontinente: o islamismo, que proibia a idolatria e cria em um só Deus, o Profeta e o hinduísmo, onde o Criador e a sua criatura eram indivisíveis, e Deus um espírito cósmico, cujas manifestações eram ilimitadas. A idolatria para os últimos era uma forma natural de expressão. Havia em seu coração uma trindade central – Brahma, Shiva e Vishnu: forças positivas, negativas e neutras, que formavam um Equilíbrio Absoluto. Depois deles, deusas e deuses, os mais variados para cada situação. Mas a principal barreira entre esses dois povos não era metafísica, mas SOCIAL. O hinduísmo ariano havia introduzido o maléfico sistema de CASTAS, culminado com os intocáveis, que não abrangia direito algum. As castas deveriam ser sempre respeitadas. Ligado ao conceito de castas, permanecia outro na base dessa religião, a reencarnação. Os intocáveis migraram em enorme quantidade para a religião mulçumana, porquanto teriam mais oportunidades e seriam mais respeitados. Contudo os hindus não esqueciam que eles eram os intocáveis. Hindus e Muçulmanos dividiam as vilas, esperando pela visita de Gandhi em Noakhali. Socialmente havia uma mistura entre eles, mas um casamento interracial era impensável. Havia, então, divisão religiosa, de castas, econômica e social. A veneração pelas vacas data dos tempos bíblicos da Índia Européia. No processo de migração eles dependiam da vitalidade de seus rebanhos, assim era proibida a matança de vacas, para garantir a subsistência dos homens, durante o período de fome. Como resultado em 1947 havia um enorme rebanho de vacas, sem nenhuma utilidade, 200 milhões de bestas, uma população maior do que a população humana dos Estados Unidos!   Para os muçulmanos essa adoração pelas vacas era repugnante. Durante o governo inglês a relação entre os dois grupos era enormemente frágil. Um muçulmano de 41 anos, no ano de 1933, propôs a divisão desses povos. Seria a noroeste, onde eram predominantes. Ramaht Ali ponderou o nome de Paquistão, terra dos puros, para a nova região. Em Calcutá ocorreu uma rebelião por tal parecer. Turbas de muçulmanos atacaram e foram repelidos pelos hindus, sangrentamente. Nunca na história de Calcutá, houve 24 horas tão selvagens.  Esse grande assassinato mudou a história da Índia! &lt;br /&gt;Londres, janeiro de 1947&lt;br /&gt;Louis Mountbatten julga que uma intervenção na Índia seria muito perigosa, pois não havia meios para um acordo pacífico. O rei e o primeiro ministro, todavia, insistiam em sua atuação como mediador. George VI seria lembrado como o monarca que reinara sobre o desmembramento da Índia, sem nunca ter posto os pés nesse fabuloso país.  Attlee pertencia ao Partido dos Trabalhadores e não desejava que a Índia ficasse sob a Commonwealth, como ansiava o rei. De 1943 a 1945, Louis desempenhara um papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial. A família dele e a do rei eram de origens alemãs e, na Primeira Guerra Mundial, foram obrigadas a mudar o sobrenome. Mountbatten era um homem brilhante - intelectual, filósofo e vigoroso, contudo precisaria de toda sua força para a nova investida, a divisão da Índia. &lt;br /&gt;Noakhali&lt;br /&gt;Em cada vila, Gandhi tinha a mesma rotina de pobreza e obstinação. Procurar abrigo em alguma mesquita e viver do que lhe fosse oferecido. Mas o tempo era uma obsessão para esse grande personagem. Cada minuto era uma dádiva de Deus e deveria ser usado a serviço do homem.  Gandhi desejava a paz para a Índia, assim espalhava suas palavras pelos vilarejos e vilas e tinha idéias próprias para reorganizar seu país, bem diferentes das inglesas. Acreditava no valor do ato concreto. Gandhi tornar-se-ia o maior líder espiritual daquele país e, curiosamente, não pertencia à casta dos Brâmanes, mas era de uma posição inferior, os Vaisyas. Seu pai era um diwan  em Kathiawar.  Sua mãe era profunda devota e afeiçoada a jejuns. Como era de costume, casou-se aos 13 anos e aos 18, após a morte de seu pai, foi enviado para a Inglaterra, a fim de estudar Direito. Foi o primeiro membro de sua família a viajar para o exterior. Em Londres, sentiu-se extremamente infeliz devido à sua timidez excessiva. Além do mais era pequeno, esquálido e moreno. Não conseguindo articular uma sentença sequer, resolve tornar-se um gentleman inglês. Mudando de atitude começa pelo guarda-roupa requintado, tendo um tutor francês e contratando aulas de oratória. Nada disso funcionou, pois era pressionado por seu extremo acanhamento. Após se graduar como barrista em direito, voltou correndo para a Índia. Sua família frustrada manda-o para a África do Sul, para resolver problemas legais de um parente. Nessa terra hostil, Gandhi encontra os princípios filosóficos que mudariam sua vida e a história da Índia. A mudança desse homem deu-se uma semana após sua chegada. Viajando na primeira classe de um trem para Pretoria, um homem branco exige que ele e suas bagagens sejam retirados do trem.  Esse foi o primeiro confronto brutal com o preconceito racial que sofreria. Deixado ao relento de madrugada, reflete solitário, sobre o acontecido e decide mudar e aprender a dizer não. Os indianos da África do Sul deveriam se unir e se opor na língua do opressor: o inglês. Uma semana mais tarde, em seu primeiro discurso aos indianos de Pretoria, convocou-os para várias decisões. Gandhi faz um voto: iria renunciar a todos os bens materiais e viver sua vida de acordo com os ideais de Ruskin . Essa decisão fora importantíssima, pois era um homem rico e conhecido na África do Sul. Ele trouxe sua família e a instalou com um grupo de amigos em uma fazenda de cem acres, perto de Phoenix, a 14 milhas de Durban. Aí formou uma comuna na qual todo trabalho tinha o mesmo valor. Em 1906 comunicou à sua esposa que havia tomado o voto de Brahmacharya . Ele tinha então 37 anos e se tornaria famoso pela desobediência civil e política da não violência.  Segundo ele, a violência brutaliza o violento e amargura suas vítimas. Em 1906 o governo editou uma lei que obrigava os indianos a portarem um cartão especial de identidade. Gandhi protestou contra isso e juntamente com uma legião de indianos do local fizeram um ato silencioso de não violência. Isso desencadeou a primeira de suas muitas prisões. Foi inspirado pelos trabalhos maravilhosos de Henry Thoreau  sobre a Desobediência Civil. Sua bem sucedida cruzada na África terminou em 1914 e, tornando-se outro homem, volta à Índia. A partir de 1920 Gandhi foi a consciência de seu Congresso e seu líder na luta pela independência. Sua nova tática era pedir aos indianos que boicotassem tudo que fosse inglês: emprego, escolas, leis, soldados e honrarias. Queria enfraquecer a economia do conquistador. O forte da economia era o algodão e cada um deveria produzir seu tecido em casa. Ensinou-os a usar latrinas, ao invés do campo aberto e a higiene passa a ser o fator mais importante para a saúde. O tecer tornou-se quase uma cerimônia religiosa. O produto do tear foi o símbolo do movimento. Falando seis vezes por dia em todas as remotas vilas da Índia, influenciou milhões de indianos. Isso reforçou a brutalidade inglesa e em 1922 escreveu ao Vice Rei advertindo que intensificaria sua campanha. Milhares o seguiriam e milhares iriam para a cadeia. Gandhi sentiu que muitos não compreendiam o significado da não violência. Em 1930, esperando novamente sua voz interior, resolveu seguir rumo às praias, com uma comitiva que se tornava a cada dia maior. Sua morosidade era enervante aos ingleses, que não sabiam o que poderia ocorrer. Depois de muitas milhas, ao chegar à praia, pega cristais de sal doados pela natureza, que deveria ser comprado dos ingleses, com taxas. Incita a todos que repitam esse ato. Assim o sal torna-se outro símbolo da liberdade. Isso causou um verdadeiro turbilhão no país. &lt;br /&gt;Londres, 1947&lt;br /&gt;A Inglaterra impunha a presença da elite do cristão branco em mais de um terço dos habitantes da terra. Churchill, apesar do enorme império que corria o mundo, tinha um enorme e violento amor pela Índia.  Ele acreditava na mão firme e paternalista sobre aquele país, onde havia passado anos de sua juventude. Quando o novo Primeiro Ministro declarou a decisão de libertar a Índia até junho de 1948, Churchill lamentou profundamente. &lt;br /&gt;Churchill havia chamado Gandhi de faquir seminu. Porém as conseqüências de sua Marcha do Sal haviam sido tão perturbadoras, que o vice-rei, Lord Irwin, resolvera recebê-lo em seus trajes típicos para que pudessem discutir sobre política. Em oito encontros decidiram o pacto Gandhi-Irwin. Os indianos seriam soltos e Gandhi iria à Londres debater o futuro da Índia. Seis meses depois, ele entra no palácio de Buckingham para tomar chá com o Rei-Imperador, usando sandálias e envolto em um chalé de algodão branco! A mesa-redonda foi um fracasso. A Inglaterra estava imatura para libertar a Índia, mas a semente havia sido plantada. A atenção do mundo voltara-se para esse assunto e a figura carismática de seu líder. Apesar do seu sucesso pela Europa havia regressado de mãos vazias. Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, esse homem está mais do que convicto das estratégias da não violência.  Os seguidores de Gandhi estavam ansiosos para tomarem parte na batalha, como homens livres. Gandhi e seus discípulos estavam em lados opostos, mais uma vez. Churchill era contra essa participação. Somente em 1942, quando a Índia estava sobre forte pressão japonesa que o Primeiro Ministro enviou uma proposta para Nova Deli. Gandhi recusou qualquer ajuda que determinaria mais dependência da Inglaterra. Isso causou mais uma prisão. Ao todo ele ficou 2.338 dias na cadeia, entre Índia e África do Sul.  Depois desse encarceramento, permaneceu 21 dias em jejum, porém, no meio dele, ficou tão mal que prepararam seu funeral. Todos estavam prontos para sua morte, menos esse alquebrado homem de setenta e quatro anos. Sobreviveu. Em 1944, a mulher que havia desposado morreu em seu colo, sem que pudesse ter feito qualquer coisa. Isso repercutiu em sentimento de culpa e sua combalida saúde deteriorou-se ainda mais. Churchill resolveu soltá-lo para que não morresse em uma prisão britânica. Gradualmente, foi recuperando-se. &lt;br /&gt;              Aeroporto de Northolt, Inglaterra, 1947   &lt;br /&gt;Charles Smith coloca em um avião os pertences dos Mountbattens, assim como inúmeros documentos e papéis relacionados à libertação da Índia, que deveria ser federativa com um governo central fraco. Eles partiram, mas Mountbatten não queria ir para a Índia e a Índia não o queria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haimchar, Noakhali&lt;br /&gt;Gandhi continuou em sua marcha para diminuir o sofrimento dos indianos. Todavia um drama pessoal o acompanhou durante todo o tempo. Esse drama produziu a mais grava crise pessoal de sua vida. Gandhi havia lutado por quarenta anos para sublimá-lo e controlá-lo: o sexo. O foco de seu sofrimento era sua sobrinha neta, Manu. Ele havia jurado o voto de castidade, mas quando Manu confessa-lhe que não tinha nenhum desejo sexual, resolve envolve-la em grandes experimentos. Dormiriam juntos e se nenhum dos dois sentisse qualquer emoção sexual, poderiam formar um par perfeito. Gandhi acreditava que os órgãos sexuais de um verdadeiro Brahmachari eram meros símbolos de seu sexo. Trinta anos de disciplina foram necessários para que ele se considerasse casto. Um boato, espalhado pela Liga Mulçumana, de que ele era massageado e cuidado pela sobrinha neta, e isso era verdade, se espalhou e a crise atingiu seu clímax em Haimchar, a última parada de peregrinação de Gandhi. Pediram que não prosseguisse para a ortodoxa comunidade de Bihar, mas ele não acatou a decisão. Foi Manu quem se submeteu a ficar para trás, a fim de que ele pudesse concluir sua missão. &lt;br /&gt;Em seu imaculado uniforme branco, Mountbatten parecia uma estrela de cinema. E assim foi conduzido pelo vice-rei, Lorde Wavell, ao seu escritório. Esse homem declarou-lhe que o trabalho dele seria impossível, pois haviam chegado a um impasse impossível de ser resolvido. O palácio de Nova Deli era tão pomposo como um Versailles, em uma região paupérrima como a Índia, abarrotada de pessoas famintas. Louis Mountbatten seria o vigésimo e último representante de uma dinastia prestigiosa. Edwina Mountbatten, como seu marido, era dotada de muita beleza. Além do mais, era herdeira de grande fortuna vinda do avô de sua mãe. Era tímida e se ofendia facilmente. Estava constantemente preocupada e não conseguia dormir sem comprimidos. Contudo era uma reformista social, preocupada com os pobres e desvalidos. Os indianos iriam aprender a gostar de seus sentimentos e sinceridade. Em março de 1947 o casal foi reconhecido como vice-reis. Direto e simples, dirigi-se aos indianos pedindo ajuda e boa vontade. Decidira ter um governo bem diferente de seu antecessor. A operação Casa de Loucos seria substituída pela operação de Sedução. Queria ser acolhido pelos líderes indianos e pelas massas. Ele possuía uma capacidade obsessiva pelo trabalho. Mudou a intensa segurança pelos passeios sozinhos com sua mulher, acenando para o povo. Foi visitar, sem cortejo algum, a casa de um indiano, Jawaharlal Nehru. Ordenou que as portas do palácio estivessem sempre abertas para os indianos. Sua mulher mudou a rotina dos banquetes, oferecendo aos convidados a comida indiana vegetariana, que poderiam comer com seus dedos, se assim o quisessem! O The New York Times noticiou que nenhum outro vice-rei havia conquistado tanta confiança e respeito do povo indiano como Mountbatten. Conflitos sangrentos, os mais variados, seguiram-se logo após sua chegada. A liga Hindu-Muçulmana era em verdade uma assembléia de inimigos.  Louis deduziu que a data de junho, 1949, seria longa demais. Teria de agir em semanas, pois a guerra-civil já estava à sua porta. &lt;br /&gt;Nova Delhi, abril de 1947&lt;br /&gt;O destino da Índia não seria decidido em mesas de conferências, mas sim em conversações privadas. Participariam delas Mountbatten e mais quatro líderes indianos. Ele desejava que os líderes concordassem com alguma forma de unidade. O primeiro a chegar foi Nehru, que era uma figura tão impressionante quanto à do novo vice-rei. Era o único líder que ele já conhecia. Seu charme, graça e humor rápido lhe eram bem conhecidos. Nehru era Brâmane e fora enviado à Inglaterra, aos dezesseis anos, para completar sua educação, Lá ficara por sete anos e voltara um homem quase inglês.  Contudo também sofrera descriminação racial por parte desse povo, como Gandhi. Ao tentar entrar como membro do Clube Inglês, fora barrado pela cor de sua pele. Sua postura política e social lhe valeu nove anos de prisão inglesa: a melhor escola de treinamento político do mundo, naquela época. Seus maiores sonhos eram o parlamentarismo democrático da Inglaterra e o socialismo econômico de Karl Marx. Sonhava com uma Índia livre e produtiva.  Era um racionalista frio e declarava-se agnóstico. Apesar disso, o místico povo indiano o aclamava, pois era um esplêndido orador e escritor. Para Nehru, Gandhi era um gênio e de certo modo foi seu guru. Entre eles havia um forte sentimento pai e filho. Ele também admirava Mountbatten e ao discutirem o destino do país concordaram em dois pontos importantes: uma decisão rápida era importante para evitar um banho de sangue; e a divisão da Índia seria uma tragédia. Teria de convencer os outros líderes a manter a Índia unida, caso contrário teria de dividi-la, como queriam os muçulmanos. &lt;br /&gt;Novamente Mountbatten e Gandhi discutem sobre o assunto. O vice-rei havia lhe proposto buscá-lo de avião, mas ele rejeitou e foi como sempre viajava: de trem na terceira classe, perto de seu povo. Mountbatten e sua mulher perceberam que ele estava profundamente infeliz. Haviam roubado seu velho relógio de pulso, mas não era o objeto que interessava, mas o ato de infidelidade cometido. O vice-rei, querendo saber melhor quem era esse líder, pede para que lhe fale sobre si. Encantado começa a narrar sua vida e seus episódios mais relevantes. Falou por duas horas.  Novamente mostrara-se uma pessoa difícil de negociar, pois a verdade era-lhe absoluta e ao mesmo tempo relativa. Um de seus discípulos, uma vez lhe dissera: “Gandhiji, não compreendo você. Como pode dizer uma coisa a semana passada e outra totalmente diferente esta semana.” – “Ah,” Gandhi respondeu “porque eu aprendi muito desde a semana passada.” (de todas as suas citações essa é a que mais gosto!) Gandhi havia reiterado que a divisão da Índia só se daria sobre seu corpo morto.  Quais alternativas restariam, pergunta-lhe Mountbatten. Sua solução era absurda: “Coloque trezentos milhões de hindus sob as regras dos muçulmanos, pedindo a seu rival Jinnah e à sua Liga Muçulmana para formar um governo. Então tenha poder sobre esse governo. Dê a Jinnah toda a Índia, ao invés de parte dela, como ele quer.” Essa foi sua proposta. Louis pediu-lhe uma segurança formal sobre isso e iria estudá-la. &lt;br /&gt;“Porque esse homem está me intimidando?”, pergunta-se Louis sem acreditar no fato. Seu visitante parecia mais um senador romano do que um político indiano. Vallabhbhai Patel era um chefe oriental de mão firme e implacável. Era prático e pragmático, mas um negociador realista. Não tinha emoções. Sua casa era empilhada de livros e era um advogado famosíssimo.  Tinha conseguido sua fama, através de muito sacrifício, pois sua família era pobre e ele estudara na Inglaterra com seus próprios meios financeiros. Ao voltar vitorioso, procurara Gandhi e oferecera-lhe seus serviços, tornado-se o segundo homem mais importante na Índia junto com Nehru. Louis rasga suas exigências, porquanto eram impossíveis de serem realizadas. Mountbatten mostrou-se mais forte nessa pendência. &lt;br /&gt;Os intocáveis eram um sexto da população indiana e Gandhi fez da causa desses desfavorecidos a sua própria causa! Tentava fazer com que a população tivesse consciência de sua miséria e das injustiças que lhes eram impostas. Ele havia estado errado quando, poucos dias antes, assegurara com firmeza que o Partido do Congresso estava preparado para fazer qualquer coisa que evitasse a separação. Seu povo desaprovara dar o poder para Jinnah, pois para tudo haveria um limite. Assim, Gandhi vê-se perdendo sua causa. O vice-rei encontrara-se com Jinnah e o desdenhou imediatamente, acreditando que ao vê-lo pela primeira vez percebeu que não haveria outra solução, a não ser a divisão do país. Quando começou a falar, Louis interrompeu-o e, como fizera com Gandhi, pediu-lhe para que falasse sobre ele.  Jinnah congelou diante dessa idéia. Durante duas horas foram uma série de monossílabos e frieza.  &lt;br /&gt;Jinnah era um brilhante advogado, formado em Londres, e tendo obtido grande sucesso profissional decidiu virar político. No início, postulava a união de hindus e muçulmanos. Rahmat Ali gostaria que esse homem liderasse um movimento para a formação do Paquistão, mas ele refutou dizendo ser um sonho impossível. Por uma década trabalhou para manter hindus e muçulmanos do Congresso unidos em confronto com os Britânicos. Ele dizia que a desobediência civil era para os iletrados.  Em 1937 tornou-se líder das massas muçulmanas na Índia. Todavia ele bebia, comia porco, barbeava-se diariamente e evitava qualquer mesquita. Esse homem desprezava as massas indianas que comandava. Ele se revelava em pompa, mas sua vida era um modelo de disciplina e ordem. Suas únicas leituras eram livros de lei e jornais do mundo inteiro. Entre os muçulmanos não tinha amigos e vivia somente para seu sonho do Paquistão. Parecia um homem forte, mas na verdade era muito frágil e doente. Mountbatten e Jinnah mantiveram, em abril de 1947, seis encontros bastante críticos. O carismático líder inglês não estava conseguindo nada com esse personagem frio e resoluto, que só pensava em criar seu novo estado e nada o demoveria dessa idéia. Só em um ponto concordavam: a pressa na resolução. Ele insistia que os muçulmanos da Índia eram uma nação distinta com cultura, língua, literatura, códigos e arte próprios. Para ele essa divisão proposta era um curso natural de eventos. Mountbatten ficara chocado com sua rigidez e obstinação. Para ele Jinnah era um psicótico. Louis aspirava à união da Índia, mas não decaindo em caos e violência. Ele teria de se reunir com Nehru e Patel e convencê-los do novo princípio, pois a Operação Sedução estava fracassando. Essa decisão conduziu a um dos maiores dramas da História Moderna. Punjah e Bengala teriam de ser divididas aos pedaços e o resultado seria uma aberração geográfica de duas cabeças separadas por 1500 quilômetros desde os picos das montanhas do Himalaia, tudo isso território puramente indiano.  Além da distância geográfica, a distância psicológica entre os povos também seria inacreditável. Além da mesma fé em Alá, esses dois povos não tinham mais nada em comum. Os bengaleses eram baixos, escuros e ágeis; sua raça era parte da massa da Ásia. Os punjabis, com trinta séculos de conquistas, eram descendentes das estepes da Ásia Central, com traços arianos da Rússia, Pérsia, Turquia e desertos da Arábia. Nada, definitivamente, os ligava. Punjab era a jóia da coroa da Índia. O país da fortuna e dos Cinco Rios. Por séculos, suas águas foram a passagem para a Índia. Krishna e o guerreiro, rei Ariuna, pertenciam a esses lugares. Quinze milhões de Hindus, dezesseis milhões de Muçulmanos e cinco milhões de Sikhs, com seus turbantes coloridos enrolados sobre os longos cabelos, dividiam a mesma vizinhança, com suas 17.932 cidades e vilas! Eles tinham a mesma língua e mesmo orgulho em suas personalidades. Os ingleses haviam construído uma imensa malha de irrigação que elevou o nível econômico do local. Havia, igualmente, uma enorme rede de trens. Essa separação seria uma terrível herança para os povos da Índia. A divisão de Bengala seria outra tragédia. Ela possuía trinta e cinco milhões de Muçulmanos e trinta milhões de Hindus espalhadas por uma área maior do que alguns países europeus. Suas raízes históricas vinham da era pré-cristã, quando o Budismo floresceu em Bengala. Bengala tinha duas partes religiosas: muçulmanos ao leste e hindus ao oeste. Ela era a segunda cidade do império Inglês, atrás somente de Londres. Ainda era o primeiro porto da Ásia – Calcutá – local do terrível massacre de agosto de 1946. O governador de Bengala previra que, com a divisão, Bangladesh tornar-se-ia a maior favela rural da História! O Paquistão de Jinnah estava fadado a destruir os habitantes da Índia. &lt;br /&gt;Jinnah estava condenado à morte por seus pulmões. Isso era mantido como o maior segredo da Índia, tinha tuberculose em fase terminal. As radiografias ficavam escondidas no cofre do Dr. Patel, seu médico.  Ficara doente aos setenta anos. Jinnah deveria estar internado em um sanatório, mas com seu prestígio e poder estava negociando livremente seu sonho. Ocorre que, se seus adversários políticos tivessem descoberto o segredo, o destino da Índia teria sido outro. A palavra velocidade nas negociações para ele significava concretizar seu desejo, o mais rápido possível antes de sua morte. &lt;br /&gt;Dos doze homens sentados a mesa de negociações do palácio de Mountbatten, somente dois eram indianos. Louis era o mais jovem dentre esses governadores ingleses da Índia, todos riquíssimos e poderosos. Ele começa pedindo para que cada um deles descreva a situação em sua província.  Oito relataram perigo e áreas com problemas, mas ainda sob algum controle. Sir Olaf Caroe falou primeiro e aconselhou que, se não fossem cautelosos, teriam, em mãos, uma crise internacional. Mountbatten distribuiu entre eles o rascunho do Plano Balkan de separação, efetuado por Lord Ismay, seu Chefe de Estado. Em choque, observaram o documento, pois eles eram os apóstolos e arquitetos da unidade indiana. A maioria passara sua vida dedicada ao reforço de alianças na Índia. O vice-rei queria que o mundo soubesse que a Inglaterra tinha feito todo o esforço possível para manter a Índia unida. Esses governadores não tinham nada a propor-lhe e não viam possibilidade de paz! Esse banquete seria o último servido na colônia inglesa. &lt;br /&gt; Mountbatten resolvera suspender temporariamente as conversações e dirigia-se para Peshawar, a capital da Província da Fronteira Noroeste. Uma multidão incalculável de muçulmanos o esperava, chamados pelos líderes da Liga Muçulmana. Eles haviam se virado contra Ghaffar Khan, Gandhi e o governo, instigados pelos agentes de Jinnah. Essa imensa população cumprimentava Mountbatten, sua esposa e sua filha de 17 anos, Pamela. Isso provava que o suporte da província pertencia à Liga Muçulmana e não mais a Gandhi. Foi sugerido que se apresentassem diante da multidão, a fim de acalmá-los. Diante desse mar de turbantes, o casal real, no primeiro momento, sentiu-se totalmente atordoado com tal visão surrealista de gente, pó, sujeira e calor. Era um instante decisivo na Operação Sedução. Nesse cenário havia quarenta mil rifles! Contudo, por uma feliz coincidência, o vice-rei usava uma camisa de manga curta na cor verde. Essa era a cor do Islã e isso foi tomando como um gesto de solidariedade para com a grande religião. Ao mesmo tempo sua esposa acenava para eles. A multidão acalmou-se imediatamente. “Mountbatten Zindabad!” (Longa vida a Mountbatten) gritava a multidão. Quarenta e oito horas depois, eles aterrissavam em Punjab. Sir Evan Jenkins conduziu o par para uma pequena vila, onde “tiveram seu primeiro contato com os horrores que varriam a Índia na cruel primavera de 1947.” Por séculos o lugar havia sido habitado em paz por 2.000 Hindus e Sikhs e 1.500 Muçulmanos. Todos os Sikhis e Hindus haviam sido mortos ou fugido aterrorizados, durante a madrugada. Uma horda de muçulmanos havia descido como lobos, incendiando as casas de hindus e sikhs.  Ao confrontar-se com esse problema, avalia a necessidade imperativa de pressa em uma resolução e a única seria separação. Gandhi seguia com grande pesar o debate do alto comando do seu partido. Todo seu sofrimento havia sido em vão. Ele desejara um novo rosto para a Índia, através da não-violência. Isso seria um massacre. Gerações de indianos por vir pagariam o preço do erro que iriam cometer. Mas, infelizmente, Gandhi não tinha uma nova proposta, nem Mountbatten, Nehru e Patel. Uma catástrofe cairia sobre a Índia. Nehru seria o porta voz da decisão sobre a divisão, desde que as grandes províncias de Punjab e Bengala fossem divididas. Ele também estava contrário a decisão de seu guru. Em 2 de maio de 1947, Lord Ismay levava o documento sobre a divisão da Índia, para aprovação de Sua Majestade. Ocorre que Mountbatten ignorava o principal fato que poderia ter mudado esse destino: a doença do ardiloso e cruel Jinnah.&lt;br /&gt; Exausto o vice-rei parte para Simla, uma cidadezinha no Himalaia, formada pelos ingleses, no teto do mundo.  Louis recebe uma enxurrada de telegramas de Attlee. Se seus planos fossem aceitos a Índia seria dividida em três nações independentes e não duas. Mountbatten havia inserido em seu plano uma cláusula que permitiria a 65 milhões de hindus e muçulmanos de Bengala juntar-se em um país viável, com o grande porto marítimo de Calcutá como sua capital.  Entretanto não havia discutido com Nehru e Patel. Eles aceitariam o plano que poderia custar-lhes o grande porto de Calcutá? Se não, iria testemunhar o grande tolo que fora, aos olhos da Índia e do mundo. Para sua segurança, convidara Nehru e sua mulher, com o intuito de discutirem tal posição. Seu staff fica horrorizado ao saber que Nehru seria informado antes mesmo do que Jinnah. Se este ficasse sabendo, sua posição seria destruída. Nehru, ao ver o plano concebido, fica atônito ao prever a Índia destroçada e privada de seu principal porto, com moinhos, fábricas e aciarias. Sua amada Kashmir, um estado independente, governada por um déspota muçulmano. O plano tornaria o país em um aglomerado de estados hostis. Furioso pronunciou: “Acabou!” &lt;br /&gt;O plano era um desastre e não agradaria ao principal elemento, o Partido do Congresso. Felizmente para o vice-rei isso não afetaria sua amizade com Nehru. O vice-rei seria obrigado a redesenhar um plano revisado que apresentaria somente uma escolha – Índia ou Paquistão. Uma Bengala independente estava fora de questão. Menon, um indiano, foi informado que antes do cair da noite, teria de refazer o mapa que daria à Índia sua independência. Essa composição seria feita em apenas seis horas. Os elementos essenciais deveriam ficar como estavam.&lt;br /&gt;Nesse ínterim, Manu, a sobrinha neta de Gandhi, adoece gravemente com crise de apendicite. Mesmo sendo seguidor da medicina natural, ao ver seu estado e contra sua vontade, resolve levá-la a um hospital para ser operada. &lt;br /&gt;Sob a Inglaterra havia duas Índias: uma Índia com suas províncias, administrada pelo governo central em Delhi, e a outra Índia separada com seus 565 príncipes. Um homem inglês, Sir Corfield, e não um marajá estava em Londres, fazendo um apelo desesperado a favor dos príncipes indianos e seus reinados. Ele odiava Nehru e o Congresso. Era Secretário Político do vice-rei, que tivera pouco tempo para falar com ele e os príncipes. Uma Índia independente iria ameaçar com balcanização em uma escala que nem mesmo Nehru havia contemplado, em Simla.&lt;br /&gt;“Uma vez, parecera para o famoso Rudyard Kipling , que a Providência havia criado os marajás somente para oferecer à humanidade um espetáculo, uma visão estonteante de palácios de mármores, tigres, elefantes e jóias.” Eram príncipes excêntricos e riquíssimos que só se importavam com seu próprio bem estar, sem se preocupar com os famintos súditos. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Em maio de 1947, Mountbatten dirige-se ao número 10 da Downing Street, a fim de apresentar seu novo plano que tivera o aval de Nehru, Patel e a garantia de seu Congresso. Apesar da importância da visita com o primeiro ministro, Louis estava seguro de seu sucesso. O plano havia sido aceito também por Jinnah com o consentimento de ficarem vinculados a Commonwealth britânica, como nação livre. O mais importante agora era a presteza na realização.  Attlee e os membros de seu partido aceitaram as sugestões de maneira plena. Mountbatten e Churchill tinham, através dos anos, se tornado bons amigos. Ele o chamara para discutirem o desmembramento do império, para horror de Churchill que o amava tanto. O ex-primeiro ministro tinha certeza de que os indianos jamais seriam capazes de comandar a si mesmos.  Precisava ser convencido da divisão do país, pois com a maioria na Casa dos Lordes poderia atrasar os eventos, caso não concordasse. Queria saber se havia algum documento escrito e assinado sobre o fato. Sim, havia uma carta de Nehru. E sobre seu velho inimigo, Gandhi? Louis admite que ele, realmente, seja imprevisível! Era um grave perigo em potencial. Finalmente Churchill declara que se o vice-rei tivesse uma resposta formal em que todos os partidos indianos concordariam com o plano, então, ele aceitaria. O Partido Conservador estaria de acordo. &lt;br /&gt;Em Nova Delhi, princípio de junho, pilhas de papéis e documentos estavam sendo queimados como piras funerárias. Isso era observado pelos burocratas britânicos, pois se tratavam de crônicas e escândalos proporcionados pelos marajás indianos que poderiam se tornar fonte de chantagem, como já havia ocorrido.  Alertado sobre o ocorrido Nehru protestou, pois esses documentos, a seus olhos, eram parte importante do patrimônio indiano. Era tarde demais. As atitudes desses marajás eram uma ofensa à puritana Inglaterra. Em seguida, Mountbatten chega à Índia com todos os documentos necessários à libertação.  &lt;br /&gt;No palácio do vice-rei, cada personalidade tomou seu assento ao redor da mesa circular. Nehru, Patel, Acharya Kripalani, e os muçulmanos Jinnah, Liaquat Ali Khan e Rab Nishtar. Baldev Singh era o porta voz de seis milhões de pessoas, os Sikhs. Estavam, também, Lord Ismay e Sir Eric Mieville, além do vice-rei. Mountbatten decidiu, para maior segurança, que ele falaria. Após um breve resumo, referiu-se ao status de domínio, cláusula de Winston Churchill, mas isso não significaria interferência direta dos britânicos, a não ser que fosse extremamente necessário. Pediu apenas um voto de boa vontade e espírito pacífico para que não houvesse um banho de sangue. Os três partidos: Liga Muçulmana, Congresso e os Sikhs deveriam dar uma resposta até meia-noite. &lt;br /&gt;Contudo, um pesadelo pairava no ar, o imprevisível Gandhi. Louis esperava neutralizá-lo nessa hora vital. Gandhi era o Partido! Poderia galvanizar as massas facilmente. Ele já havia ameaçado que poderiam queimar a Índia, mas não dariam nada ao Paquistão. Essa “velha alma” entrou no escritório do vice-rei exatamente as doze e trinta desse dia. Gandhi escreveu em um pedaço de envelope velho, que recortava como papel de apontamentos, e escreveu que era seu dia de silêncio, mas falaria mais tarde. Depois disso, partiu.&lt;br /&gt;Mountbatten estava tendo problemas com Jinnah, que queria uma semana para reunir seus homens. Não. Esta foi a resposta que ouviu. O vice-rei queria apenas um consentimento de sua cabeça e nenhuma palavra, caso contrário tudo ruiria. &lt;br /&gt;O encontro ocorreu na hora exata. Os dois partidos haviam concordado, faltava apenas Jinnah, que pressionado faz um mínimo gesto de concordância. Assim a nação de quarenta e cinco milhões de habitantes recebia a sentença final. Finalmente o sonho impossível do Paquistão seria realizado. Mountbatten com um maço de papéis em mãos lê: “As Consequências Administrativas da Partilha.” Cada um dos membros havia recebido o mesmo documento. Nenhum dos sete homens estava preparado para o que iriam ler. Tudo o que pertencera por séculos a essas pessoas, desde um livro na biblioteca, até grandes instituições e terras seria dividido. “Um silêncio atordoador preencheu a sala quando os sete homens, pela primeira vez, mesuraram o que estava diante deles.” Isso fora deliberadamente concebido por Mountbatten para não deixá-los capazes de se rebelarem. &lt;br /&gt;Gandhi apenas lhes desejava sabedoria.&lt;br /&gt;Depois das dezenove horas, em Nova Delhi nos estúdios da ALL INDIA RADIO, os principais líderes começaram a dar as novas notícias ao povo indiano. O primeiro a falar foi Louis Mountbatten, seguido pelo triste Nehru. Jinnah foi o seguinte, com um discurso incompreensível.&lt;br /&gt;No outro dia, Gandhi anunciou que estava fora da liderança do Congresso, sendo assim convidado para discutir com o vice-rei. Seu estado de ânimo era péssimo, mas Mountbatten fez o que pode para acalmar esse pássaro ferido. Cada província deveria votar se queria ligar-se ao Paquistão ou Índia. Gandhi urgiu que os britânicos deveriam partir o mais rápido possível! Apesar de todo o charme e persuasão do vice-rei, Gandhi continuava se opondo à divisão. Aos setenta e oito anos, esse homem estava, pela primeira vez, incerto com o resultado de reunir as massas indianas. Ele foi assolado pela dúvida. Louis foi salvo pelo horário de orações de Gandhi, que nunca poderiam ser atrasadas. Gandhi silenciou e um dia os indianos pagariam o preço de seu silêncio com rancor. &lt;br /&gt;“Mountbatten revelou à opinião mundial e aos indianos os detalhes de um dos mais importantes certificados de nascimento na história.” Era a independência total de um quinto da humanidade. Trezentos jornalistas mundiais misturados com a imprensa indiana seguiram com notável atenção suas palavras. Para o vice-rei era a apoteose de um trabalho incomparável, feito em dois meses. Ocorre que, dentre as perguntas e respostas, uma voz anônima faz uma pergunta vital. Qual seria a data para esse ato tão importante como a transferência de poder. Um número de rápidos cálculos passou por sua cabeça e finalmente chega à conclusão: 15 de agosto de 1947. Era o segundo aniversário da capitulação japonesa. &lt;br /&gt;Essa decisão tão espontânea do vice-rei foi uma bomba! Em Londres a notícia foi chocante, pois o próprio Attlee não imaginaria uma data tão próxima e precipitada.  Mountbatten havia cometido um erro imperdoável ao anunciar a data “sem antes consultar o mais poderoso corpo oculto da Índia, os astrólogos!” Milhões de indianos não faziam nada por mais trivial que fosse sem antes consultar previamente seu astrólogo. Essa data seria uma sexta-feira, dia não auspicioso, assim como o domingo. Era um dia tão desanimador, que “levaria a Índia para a danação eterna.” Para o famoso astrólogo Swami Madananad a data seria uma catástrofe para o país. Esse jovem homem apesar de seu treinamento de disciplina física e espiritual adquirida através e anos de prática yoga e meditação perdeu o controle sobre si mesmo e escreveu para Mountbatten adiar a data, mesmo continuando sob domínio britânico, pois a Índia nasceria no dia amaldiçoado pelas estrelas.  &lt;br /&gt;Restavam apenas setenta e três dias para a separação. Mountbatten e seus assessores contavam os dias em um calendário. Finalmente essa gigantesca tarefa recairia sobre os ombros de dois advogados: um Hindu, H.M.Patel e outro muçulmano, Chaudhuri Mohammed Ali. E por ironia essa tarefa foi feita na língua dos colonizadores: o INGLÊS. O Débito que herdariam era de cinco bilhões de dólares, para o povo que havia sido explorado e colonizado! A divisão mostrava-se muitíssimo complexa e cheia de dificuldades e empecilhos. Houve argumentos, barganhas e lutas. Coisas inacreditáveis como quem deveria pagar a pensão das viúvas de marinheiros perdidos no oceano era uma delas. Dicionários eram partidos ao meio!  Além dos burocratas havia os extremistas com seus clamores. Contudo, a divisão mais dolorosa foi a de um milhão e duzentos mil Sikhs, Muçulmanos e Ingleses do orgulhoso Exército Indiano. “Ele havia hipnotizado o ideal vitoriano da Índia melhor que qualquer outra coisa,” Esses soldados sabiam melhor do que ninguém suportar a fome e agonia. Haviam lutado com distinção na Segunda Guerra Mundial. Agora, entretanto, deveriam escolher se ficariam com a Índia ou com o Paquistão. Jinnah não os queria em sua Armada, portanto escolheram servir a Índia. &lt;br /&gt;Sir Cyrill Radcliffe, filho de um esportista rico e que seguia a lei com absoluta paixão, era uma dos mais brilhantes e talentosos barristas na Inglaterra. A esse homem recaiu a incumbência da divisão das linhas fronteiriças de Bengala e Punjab. Ele não conhecia nada do lugar e nunca havia posto um pé no subcontinente! Nehru e Jinnah, convencidos que seriam incapazes de tal missão, concordaram que Cyrill fizesse sua escolha.  Essa sua ignorância sobre a Índia o fazia o candidato ideal, explicou-lhe Mountbatten. &lt;br /&gt;Desta vez a missão do vice-rei era dialogar com dos 565 membros de sua Alteza Ydavindra Singhs, os marajás e nawabs da Índia.  Esses príncipes possuíam exércitos privados e forças aéreas. Tinham sido representados por Sir Conrad Corfield, quando de sua ida secreta à Londres. O melhor que se poderia fazer por eles era protegê-los de si mesmos. Mountbatten queria que abandonassem seus pedidos e se juntassem até 15 de agosto à Índia. &lt;br /&gt;Nehru, formalmente, pediu ao vice-rei que se tornasse o primeiro Governador Geral do país. Jinnah, orgulhoso, queria ser o primeiro Governador Geral de seu país, Paquistão. Disse: “Serei Governador Geral e o Primeiro Ministro fará o que eu disser.”&lt;br /&gt;  Attlee, Churchill e o Rei, urgiram Mountbatten a aceitar o cargo, mas Gandhi havia sugerido “uma doce menina, de coração forte, incorruptível e de cristalina pureza.” Contudo, Louis era fascinado por Gandhi. Assim, Gandhi pediu-lhe que aceitasse essa oferta. Isso foi “um imenso tributo pessoal para Mountbatten.” Para tanto teria de se mudar do palácio e viver em uma casa humilde e sem empregados. O palácio se tornaria um hospital. O velho homem estava “tentando transformá-lo no primeiro Socialista da Índia!” Cyrill Radcliff esperava que seu trabalho fosse feito em tempo suficiente para que ficasse bem executado. No entanto, o vice-rei explicou-lhe que era imperativo que sua decisão estivesse pronta até 15 de agosto! Essa pressa ocasionaria erros e falhas graves que arruinariam as fronteiras indianas.  Ele não se convenceu e falou com Nehru e Jinnah que também concordaram com a urgência. &lt;br /&gt;Punjab julho de 1947&lt;br /&gt;Nunca a Índia, como nesse ano, havia sido tão beneficiada pela natureza, os campos repletos de alimentos e água. Lahore era a capital e coração de Punjab. Uma belíssima cidade “mais cosmopolita do que Delhi, mais aristocrática do que Bombay e mais velha do que Calcutta. Era a mais bonita da Índia, a Paris do Oriente. Durante recepções, jantares e bailes, toda a comunidade misturava-se sem discriminação de raça ou credo. Era uma cidade tolerante. Um sonho que se acabou em julho de 1947. Uma campanha de tumultos orquestrados havia forçado o governo de coalizão governamental, que tinha governado a província por uma década, a renunciar. A violência que se seguiu fez com que Sir Evan Jenkins tomasse a administração em suas mãos. Sir Radcliffe, ao visitar a cidade de seus sonhos encontrou calor, tempestades de pó, tumultos, sangue e queimadas! Cem mil pessoas abandonaram as ruas em rota de fuga. Cada local ao ar livre era um trançado de mercadores ambulantes. Havia quarteirões de frutas, especiarias, jóias, perfumes, sedas, sapatos bordados a ouro, cristais, pratas, caixas maravilhosas de sândalo, laqueadas, de marfim, de madre pérolas e muitos outros produtos exóticos e caros. Agora a morte investia contra a velha cidade, destruindo-a. A morte era como um relâmpago. Acabava em um segundo, antes que se pudesse dar conta do que estava ocorrendo. As pessoas se dirigiam ao apreensivo Radcliffe desesperadas por perderem tudo que haviam acumulado por anos e gerações. Ele lutava para extrair um mínimo de conselho dos juízes que o atendiam! &lt;br /&gt;Na cidade de Amritsar ficava o templo sagrado dos Sikhs, O Templo Dourado. Uma população de seis milhões de religiosos adorava seu templo e seu Livro Sagrado. Os homens tinham longas barbas ao vento, compridos cabelos nunca cortados e sobre eles turbantes coloridos. Eram altos, bélicos, mas representavam apenas dois por cento da população local. Apesar desse número inferior, possuíam quarenta por cento das terras e produziam dois terços da colheita. A tragédia de Punjab era que, enquanto eles poderiam viver sob o domínio britânico, não poderiam viver um sob o domínio do outro. Contudo, agora, eles haviam perdido seu vigor marcial devido à prosperidade, segundo um boato que corria silencioso. Ocorre que eles queriam revanche. Convencido pelos políticos indianos, o flexível Mountbatten muda a data da independência do império para 14 de agosto de 1947. &lt;br /&gt;O grande sonho de Gandhi era criar uma Índia moderna com seus ideais socialistas de paz e independência. Ele propunha o esquecimento de toda tecnologia e ciências modernas dos cinquenta anos passados, pois a industrialização havia concentrado o poder nas mãos de poucos, à custa de muitos. Ele pregava o retorno à simplicidade. Não pregava uma doutrina da pobreza, mas de um equilíbrio perfeito entre os seres humanos. (Gandhi e o Marxismo tinham muito pouco uso um para o outro). Vinte e cinco anos após sua morte o principal drama da Índia era a corrupção e a venalidade dos ministros do Congresso. &lt;br /&gt;Gandhi e Nehru tentavam desesperadamente ajudar aquela população desordenada que Nehru teria de governar brevemente. &lt;br /&gt;O Projeto de Lei da Independência da Índia era um modelo de concisão e simplicidade. Até mesmo Churchill elogiara seu adversário pela ótima escolha de Mountbatten para tal decisão.  Todos os aspectos do projeto eram respondidos “Le Roi le veult” .&lt;br /&gt;“O vice-rei estava pronto para começar a jogar as maçãs na cesta de Vallabhbhai Patel”. Ele urgia seus ouvintes a assinar o Ato de Acessão, o qual uniria seus estados à Índia ou ao Paquistão. Em outra conferência com os príncipes indianos, o vice-rei ponderara que estavam à beira de uma revolução e que em breve perderiam perder para sempre sua soberania! “Casem-se com a nova Índia”, implorava-lhes.&lt;br /&gt;Kashimir, julho de 1947&lt;br /&gt;Hari Singh era o herdeiro marajá do melhor estado, estrategicamente situado da Índia, onde Índia, China, Tibete e Paquistão estavam destinados a encontrarem-se. A lógica dizia que a Caxemira deveria unir-se ao Paquistão. Seu povo era Muçulmano. Jinnah havia garantido que Hari Singh seria bem vindo e teria um lugar de honra em seu novo domínio. “Não” foi sua resposta e “Não” também à Índia. Queria um estado independente! Caxemira era um estado muito grande e sub-habitado e isso daria ensejo para perder o poder, o trono e a vida. Mountbatten trabalhou herculeamente para conseguir a adesão de todos os estados, pois alguns não aceitavam a nova coligação. O vice-rei deseja entregar a Patel um cesto cheio de maçãs. &lt;br /&gt;Em cinco de agosto diante do vice-rei, Jinnah e Liaquat Ali Kahn, Sr. Savage tinha uma notícia aterradora e tão secreta para eles, que fora obrigado a memorizá-la. Um grupo de Sikhs extremistas juntara-se ao grupo mais fanático da Índia, o R.S.S.S. Tinham decido transbordar em sangue a Índia com atos terroristas. Em 14 de agosto de 1947, esses homens estariam estacionados ao longo da rota que levaria Jinnah, em uma procissão triunfante, pelas ruas de Karachi, até que chegasse a sua residência oficial. Assim a Índia entraria em uma guerra civil sem precedentes na história. Mountbatten pondera e resolve pedir auxilio a Sir Evan Jenkins e aos dois homens designados a governar Índia e Paquistão. Naquela noite Sr. Savage retornou a Londres. &lt;br /&gt;Cinco dias mais tarde, durante a noite de 11 para 12 de agosto, os Sikhs de Tara Singh executaram a primeira parte de seu plano diabólico contra Punjab. &lt;br /&gt;Em Dehli, isolado em seu bangalô Sir Cyril Radcliffe, o barrista que não conhecia a Índia, começou a traçar no mapa as linhas fronteiriças que dividiriam os oitenta e oito milhões de Indianos. Era um trabalho abstrato, pois jamais veria o efeito do seu traçado nas vidas dessas pessoas. Era obrigado, pelo açodamento, a demarcar trinta milhas de fronteiras por dia, sem ter tido a oportunidade de visitá-las. Essa era uma ideia aterradora! Ele sabia que estaria dividindo ou juntando pessoas de diferentes religiões e tradições. Sir Radcliffe sabia que haveria, sem sombra de dúvida, um banho de sangue e matança quando seu trabalho fosse publicado! Sozinho não via, virtualmente, qualquer pessoa. Estava fazendo o melhor trabalho possível, mas tinha certeza de que não fazia nenhuma diferença, pois no final todos se matariam. &lt;br /&gt;Em Punjab, “hordas de Sikhs, como bando de Apaches, caiam sobre as vilas ou vizinhanças muçulmanas.” Homens e mulheres muçulmanos foram massacrados e mutilados. Para manter a ordem naquele caos total, depois de 15 de agosto de 1947, o vice-rei decidiu manter uma força especial de cinquenta e cinco mil homens, que eram dirigidos pelo Major General G. R., um inglês. Essa unidade tão significante foi varrida com a mais completa facilidade pelos revoltosos. Nehru, Jinnah, Sir Evan Jenkins e o próprio vice-rei previam a magnitude da calamidade, entretanto as críticas caíram sobre os ombros do último vice-rei da Índia. Cada um desses homens genuinamente acreditava que a divisão esfriaria a violência. Ninguém poderia prever as dimensões gigantescas desse desastre! Ironicamente, o único líder indiano capaz de configurar toda essa desmedida violência era o pacifista e contrário a esse plano mutilador do país, Gandhi. &lt;br /&gt;Mountbatten preocupava-se com a instável Calcutá e precisava desesperadamente da ajuda de Gandhi!  Ele havia comentado com o líder, em julho, sobre essa possibilidade. Talvez através de sua forte personalidade e seu ideal de não violência pudesse obter o que as tropas certamente não poderiam. Porém ele não tinha intenção de ir a Calcutá, apesar dos apelos do vice-rei. Um pedido inusitado do corrupto e brutal muçulmano de 47 anos, Shaheed Suhrawardy, obtém algum resultado. Gandhi observa sinceridade nessa solicitação e decide aceitar, mas com a condição de que ficassem juntos e sozinhos, com os corações abertos, vivendo em um casebre de uma favela em Calcutá. “Seria um grande risco”, escreve para Delhi, e pede que observem tudo atentamente. &lt;br /&gt;Os líderes do Congresso haviam resolvido que haveria muita pompa no dia da Independência, assim como Jinnah e seus partidários. Para os ingleses da Índia era um momento para lamentos. Perderiam suas mansões, criadagem, caçadas, clubes de golfe e uma vida fácil e rica para voltarem à Inglaterra e viverem em um simples bangalô! “Os serviços de prata, as peles de tigres e as histórias que vinham com eles, as solenes mobílias escuras vindas de Londres há quarenta, estavam empacotados para a viagem de volta.” Mountbatten havia dado ordens expressas para que absolutamente tudo fosse deixado em solo indiano e paquistanês para o uso que eles desejassem. Apesar disso nem todo o tesouro foi deixado. Um exemplo singular foi uma arca abarrotada de preciosos livros com posições sensuais e eróticas indianas. Foram durante o curso de cinquenta anos, julgados muito escabrosos para ficarem no solo indiano. Ficariam sob custódia inglesa. Contudo eles seguiram viagem para a Inglaterra. &lt;br /&gt;Como sempre em silêncio Jinnah caminhava para o túmulo de sua mulher, que não era muçulmana. No entanto ambos se apaixonaram e a belíssima jovem mudou-se da casa dos pais, para casar-se com ele. O casamento durou apenas dez anos, pela exuberância da esposa, que morreu em plena juventude, de uma overdose de morfina contra as dores de colite. A partir de então, consagrou sua vida para o despertar dos Muçulmanos na Índia.  &lt;br /&gt;Ali Jinnah estava voando para Karachi, usando roupas típicas. Nenhum traço de emoção aparecia em seu rosto impenetrável. Apesar de muito doente saiu do avião sem nenhuma ajuda. A multidão de pessoas, vistas pela janela do avião, continuavam a saudá-lo. Ao chegar a seu destino revela que nunca havia esperado ver o Paquistão em sua vida. &lt;br /&gt;Nesse momento, a preocupação de Mountbatten era a nova relação que surgiria entre a Britânia e essas duas novas nações. Os habitantes de Punjab e Bengala teriam de continuar ignorantes sobre o domínio ao qual pertenceriam dentro em breve. Isso era crucial para evitar o desmantelamento de tanto trabalho.  Somente após 15 de agosto saberiam seus destinos.&lt;br /&gt;De diferentes formas eram celebradas as festividades da independência. Civis e soldados de variadas religiões e culturas comemoravam a data prometendo fraternidade e breve reencontro. Ele ocorreria, mas nos campos de batalha de Kashmir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calcutá, 13 de agosto de 1947&lt;br /&gt;Trinta e seis horas antes da data da independência, Gandhi sai à procura de um milagre. Encaminhava-se para Calcutá, a cidade mais violenta do mundo. Em suas favelas viviam três milhões de seres humanos em estado crônico de desnutrição e ódio. “Uma vez mais o artesão da independência da Índia preparava-se para oferecer sua vida aos seus conterrâneos”... Desta vez para libertá-los do veneno de seus corações.  No dia 13 de agosto ele chega a essas favelas violentíssimas e putrefatas, querendo, de algum modo, prevenir um terrível massacre! Gandhi e seus seguidores instalam-se em uma deteriorada mansão, adaptada para recebê-los e as pessoas com quem iria dialogar já se encontravam lá. Tratava-se de Hindus maltrapilhos que gritavam seu nome, mas não mais o saudando, agora o insultavam. Ele observa que estava lá para defender Hindus e Muçulmanos, igualmente. Havia prometido aos segundos que jejuaria até a morte se cometessem um ato sequer contra os Hindus. E a estes oferecia seu próprio corpo. Morreria para salvá-los. A multidão, a princípio, congelou, mas em seguida uma chuva de pedras atingiria a casa do velho Gandhi e a turba voltara-se contra ele. &lt;br /&gt;Karachi, 13 de agosto de 1947&lt;br /&gt;Mountbatten e seu staff falharam na tentativa de evitar a infiltração dos fanáticos Hindus da R.S.S.S. A única saída seria cancelar o séquito de Ali Jinnah. Ele fora bem sucedido, onde o infeliz líder, nas ruínas da Mansão Hydari em Calcutá, tinha falhado. Apesar da força de Gandhi, Jinnah tinha dividido a Índia! A procissão que levaria Jinnah e Mountbatten, em carro aberto, até seu palácio seria a maior e mais temerária aventura da vida desse vencedor e intrépido vice-rei. A possibilidade de assassinato era mais do que certa, todavia conseguiram chegar a salvo, apesar das tensões indescritíveis em vários momentos. &lt;br /&gt;Calcutá, 14 de agosto de 1947&lt;br /&gt;Os encontros de oração eram os preferidos desse pequeno homem, em qualquer parte do mundo que estivesse. O que reivindicava, como a não violência e cuidados com a saúde física e espiritual, consistiam as Palavras Sagradas de Gandhi. Em 14 de agosto de 1947, no primeiro encontro com aquela população descontente compareceram dez mil pessoas, número bastante razoável. Disse-lhes: “A partir de amanhã, estaremos livres do jugo Britânico. Mas a partir da meia noite de hoje”, falou com tristeza, “A Índia também será dividida. Amanhã será um dia de júbilo; mas também será um dia de tristeza.” “Se Calcutá puder retornar à razão e fraternidade, toda Índia poderá ser salva.” Acrescentou que não celebraria a chegada dessa liberdade, da forma que fora concluída. Pediu a todos que orassem e jejuassem para a salvação da pátria.  &lt;br /&gt;O jornal The Times of London escreveu que “As cerimônias foram marcadas por uma surpreendente falta de entusiasmo popular e uma apatia geral no ar”.&lt;br /&gt;Nova Deli, 14 de agosto de 1947&lt;br /&gt;Dois homens santos, em um carro, pertenciam a mais alta casta da Índia. Eram Brâmanes de cabeça raspada, peito nu, que viviam de esmolas, os Sannyasin, o mais alto posto abençoado que se poderia obter em dez milhões de reencarnações. Eles carregavam uma bandeja de prata e sobre ela a Veste de Deus, que deveria ser utilizada por Nehru, o racional. Esse rito era uma manifestação tediosa e significava o que ele mais deplorava em sua pátria. Mesmo assim, se submeteu a ela com humildade. &lt;br /&gt;Em 15 de agosto de 1947, ao nascer do sol, a bandeira da Índia independente subiu ao topo do mastro no palácio de Nehru. A bandeira da Inglaterra havia descido ao por do sol do dia 14, para nunca mais ser hasteada. &lt;br /&gt;Em seu escritório, o telefone toca e Nehru é avisado que a cidade de Lahore encontrava-se em chamas! “Como vou falar hoje à noite? Como vou fingir que há alegria em meu coração pela independência da Índia quando sei que Lahore, nossa linda Lahore, está ardendo em chamas?”&lt;br /&gt;Essa visão assombrava Nehru. O jovem capitão Atkins dirigia seu jipe em direção a Lahore e atrás dele vinham 200 homens de sua companhia avançada, 200 caminhões e 50 jipes trazendo todo seu batalhão para Lahore, em um total de 55.000 homens. Infelizmente, apenas 10.000 soldados da Armada Indiana estavam presentes na véspera de sua independência. &lt;br /&gt;Nehru permanecia na Assembléia lotada. Nos bancos à sua frente, sáris e khadi, jaquetas de jantar e roupas principescas eram usadas pelos representantes da nação que nasceria esta noite. Ela possuía 275 milhões de Hindus, 50 milhões de Muçulmanos, 7 milhões de cristãos, 6 milhões de Sikhs, 100.000 Parsis e 24.000 Judeus. A Nação teria de abrigar 15 línguas oficiais e 845 dialetos. Abrigaria também uma população de leprosos do tamanho da Suíça, tantos padres quanto à população belga, pedintes suficientes para habitar a Holanda, 15 milhões de homens sagrados, 20 milhões de aborígenes, que ainda caçavam cabeças humanas e um sem fim de doentes, nômades, mágicos, vendedores de ervas e jogadores compulsivos. Dez milhões de indianos morriam todo ano de má nutrição e 38 mil nasciam todos os dias, mas a metade morria antes dos cinco anos.  “O Panteão de Hindus da Índia continha três milhões de divindades...” Ao soar a meia noite, para o mundo constituía a retirada para o transpor de uma era. Aquela era havia começado em 1492, quando Cristovão Colombo partiu a procura do caminho marítimo para as Índias e descobriu a América. &lt;br /&gt;Em quase todos os estados e suas capitais as celebrações ocorriam com júbilo e de diferentes formas. Até mesmo os Intocáveis foram lembrados; lamparinas a óleo e velas foram oferecidas para que saíssem do escuro de seus barracos. Na velha Delhi alguns fanáticos muçulmanos diziam que haviam obtido o Paquistão por direito; entretanto obteriam o Hindustão pela força.  No mesmo instante, Hindus e Sikhs refugiados de Punjab acotovelavam-se em campos, ao redor de Delhi, ameaçados de tornar a capital dos Muçulmanos vizinhos em uma fogueira para celebrar a independência.  “Agora nossos pesadelos realmente começaram” disse V. P. Menon. &lt;br /&gt;Lahore estava totalmente devastada. Quase cem mil Hindus e Sikhs foram encurralados dentro dos muros da cidade. Calcutá, entretanto, encontrava-se sob uma inacreditável metamorfose.  Sikhs abriam as portas das mesquitas para os partidários de Kali, e eles convidavam Muçulmanos para seus templos para adorarem a repulsiva imagem da Deusa da Destruição.&lt;br /&gt; O palácio de Mountbatten passava por uma grande transformação. Louis não queria que sobrasse um só vestígio do antigo império.  O presidente da nova Assembléia convida-o para ser o primeiro Governador Geral da Índia. Louis aceita a honraria. &lt;br /&gt;Na velha Mansão onde Gandhi encontrava-se, voluntários Hindus e Muçulmanos, adeptos da não violência, faziam vigília. No grande dormitório comunitário, exatamente à meia noite, Gandhi dormia profundamente.  &lt;br /&gt;Benares, 15 de agosto de 1947&lt;br /&gt;No primeiro frio da manhã, multidões encaminhavam-se para o rio Ganges, o Supremo Doador da Vida. Realizariam o ritual de imersão em suas águas sagradas na velha cidade de Benares. Esse grande rio desaguava nas águas cinza da Baia de Bengala. Essa era uma das áreas mais tórridas e super populosas do globo. Esses ritos simbólicos uniam os Hindus ao seu rio. Desde o despertar da história, desde o tempo da velha Babilônia, Nineveh e Tyre, os Hindus vinham banhar-se nos Ganges e beber sua água, em honra a algum deus. Humildemente agradeciam aos deuses o nascimento da moderna Índia! Por séculos, morrer em Benares era a maior benção que um Hindu poderia aspirar. &lt;br /&gt;Na Mansão Hydari, não havia alegria no coração do velho homem. “A vitória pela qual Gandhi havia lutado tanto tinha gosto de cinzas” e a possibilidade da tragédia que viria. Como fazia sempre em momentos de crise, leu a canção celestial de Bhagavad Gita. &lt;br /&gt;Em Nova Delhi, Mountbatten dirigia-se ao trono, onde receberia a incumbência única de descolonização. Sob um pálio de veludo, estavam Nehru, Patel e outros membros do Congresso. “Mountbatten levantou sua mão direita e solenemente jurou tornar-se um humilde e fiel servidor de uma Índia independente.” “Era uma Índia como nenhum outro inglês em três séculos de história havia visto.”  &lt;br /&gt;Até mesmo a Índia mística dos faquires e contadores de estórias juntou-se à grande festa. Jinnah assumia seus plenos poderes em uma cerimônia oficial. Iria governar seu país como um ditador. &lt;br /&gt;Punjab, 15 de agosto de 1947&lt;br /&gt;O nascimento da Índia fora um dia de terror em Punjab. Em Amritsar, enquanto as autoridades procediam a seus rituais, hordas de Sikhs invadiam a cidade, matando os homens, mutilando-os e estuprando as mulheres repetidas vezes, que em seguida tinham as gargantas cortadas. A estação de trem de Amritsar tornou-se um campo de refugiados, mas os Sikhs esquartejaram e jogaram os pedaços de corpos por toda paragem. &lt;br /&gt;Em Calcutá uma magia aconteceu entre Gandhi, Hindus e Muçulmanos. Todos celebravam juntos em harmonia. Outra imensa comitiva aproxima-se dele, desta vez eram jovens meninas, que vinham buscar sua benção. Espontaneamente, Gandhi faz um discurso endereçado aos novos dirigentes da Índia e não à sua massa. “Cuidado com o poder... O poder corrompe... Lembrem-se, vocês estão na direção do país para servir os pobres das vilas da Índia.” Nessa tarde, trinta mil pessoas encaminharam-se para o encontro com Gandhi. &lt;br /&gt;Em Poona, no mesmo dia, a bandeira hasteada não era a da Índia independente, mas sim o triângulo laranja, que levemente modificado, havia aterrorizado a Europa por dez anos, a suástica. Era um símbolo ariano, trazido nas primeiras levas de conquistadores arianos. Os homens que se encontravam no sítio eram da R.S.S.S., esse movimento quase fascista. Acusaram Gandhi de ser responsável pela divisão da Índia! Esse foi um insulto jamais perdoado. &lt;br /&gt;A cerimônia oficial e subida da bandeira deu-se às cinco horas da tarde, em local aberto, perto dos portões de Nova Delhi.  Uma densa torrente de seres humanos inundara o ambiente, levando todos os preparativos cuidadosamente feitos, de roldão com eles. Mountbatten percebeu que seria quase impossível concluir a cerimônia, pois nem ele conseguiria chegar à plataforma. A multidão gritava “Longa vida a Mountbatten!”&lt;br /&gt;Balmoral, Escócia, 15 de agosto de 1947&lt;br /&gt;No coração das Highlands escocesas, o Rei George VI fora informado que a transferência de poder para as mãos indianas havia sido concluída. O último Secretário do Estado da Índia anunciou também que não ele não era mais George VI, Rei Imperador. Mas apenas Rei George VI.  &lt;br /&gt;Londres, 16 de agosto de 1947&lt;br /&gt;O primeiro ministro Clement Attlee ficara muito satisfeito com o resultado do trabalho de libertação, contudo Mountbatten envia seu Secretário, George Abell, para Londres a fim de que os políticos ingleses se detivessem em suas manifestações muito favoráveis. Attlee reconhece que haveria um preço a ser pago que haveria “um terrível derramamento de sangue na Índia que tinham deixado.”&lt;br /&gt;Quando os dois governantes responsáveis pelos novos governos indianos estudaram os documentos da divisão que haviam solicitado, seus rostos se contorceram e explodiram em graves protestos, apesar de Cyril Radcliffe ter seguido rigorosamente as instruções recebidas por eles. Na prática fora um desastre! Como por exemplo: de um lado, um país ficara com todos os campos de juta sem um único moinho e, no outro, com todos os moinhos sem nenhuma juta. Sem intenção, “talvez inadvertidamente, a divisão do inglês, oferecia à Índia a esperança de demandar a Caxemira.” Esses são dois simples exemplos dos gravíssimos erros que decorreriam em catástrofe. “Radcliffe sabia melhor do que ninguém o pesar e a consternação que as linhas iriam causar.”&lt;br /&gt;Punjab, agosto e setembro de 1947&lt;br /&gt;Por seis semanas um cataclismo varreu o nordeste da Índia.  Comunidades que por séculos haviam vivido lado a lado começaram a matar-se. Foi “uma convulsão e o colapso da sociedade”. A linha divisória de Radcliffe deixara sociedades Sikhs, Hindus e Muçulmanas posicionadas em lados desiguais. As massas muçulmanas do Paquistão achavam que todos os bens, como lojas, bares, fábricas etc., que haviam ficado do seu lado, pertenciam a eles. Isso fez com que caíssem sobre os outros. A Paris do Oriente, Lahore, estava em chamas e Atkins ficara horrorizado com o que vira, pois “um inteiro canal de irrigação estava repleto com centenas de corpos Sikhs e Hindus.” Sikhs perseguiam muçulmanos com se fossem participar da caça à raposa! O grito de guerra era quero matar mais. Um oficial inglês comentou: “Na Índia hoje o sangue flui mais frequentemente do que flui a água da chuva...” Esses atrozes acontecimentos deixaram marcas indeléveis na psique desses milhões de pessoas. &lt;br /&gt;Calcutá, Agosto de 1947&lt;br /&gt;Cem mil pessoas, misturados indiscriminadamente, formavam uma massa de Hindus e Muçulmanos que esperavam por Gandhi.  Ao vê-los pensou que era bom demais para ser verdade! Entretanto, havia alguns pontos na cidade que não caminhavam bem. Esse velho esquálido e desarmado fez o que 55.000 soldados fortemente armados foram incapazes de realizar em Punjab. A situação no Paquistão era bem pior. Jinnah não tinha qualquer condição de governar por causa dos tumultos generalizados. A economia entrara em colapso. O sistema bancário estava paralisado e a distribuição do equipamento armado da velha Índia também.  Munições, trens e outros aparelhamentos ou não chegavam ou eram em número pífio. As novas nações estavam sendo engolidas pela maior migração da história da humanidade! O êxodo foi sem precedentes, pois nem mesmo durante a formação do estado de Israel ou as pessoas que fugiram da Europa Oriental depois da guerra igualava-se a isso.  Até mesmo os enfermos foram acometidos por essa onda, pois os médicos Hindus ordenaram que eles saíssem de seus hospitais. Vinte mil pessoas deixaram suas casas, em uma hora, marchando em direção à estação de trem ao bater de um tambor! “Essa terrível migração alteraria para sempre a face e o caráter de uma das faixas de terra historicamente mais ricas do globo.” &lt;br /&gt;Calcutá, agosto de 1947&lt;br /&gt;Meio milhão de Hindus e Muçulmanos, lado a lado fraternalmente, cobriam as superfícies verdes dos campos de criket e pólo da Índia Britânica. Estavam lá, esperando a oração da noite que Gandhi faria. Quando ele apareceu na plataforma, uma explosão de entusiasmo veio da multidão. Precisamente às 19 horas, Gandhi juntou suas mãos e as levantou no tradicional sinal de agradecimento para a aglomeração. Sucede que para os Punjabis o seu primeiro instinto foi refugiar-se na organizada estação de trem inglesa. “Agora esses trens se tornariam para centenas de milhares de indianos a melhor esperança de fugir dos pesadelos que os cercavam... Essa multidão se atiraria nas portas e janelas dos carros.” Outros se apinhavam no teto dos trens, formando uma densa cobertura de refugiados!  Muçulmanos, gritando Deus é Grande, com armas e paus mataram e esmagaram cada Hindu que fosse visto nos trens. Nenhum trem chegou a seu destino sem seu enorme complemento de mortos e feridos! Os Sikhs distinguiam-se pela sua organização e selvageria em seus ataques. Cada um deles empunhava um sabre curvo esperando silenciosamente o próximo trem. Nenhum desses comboios estava imune aos ataques. Esses trens da morte fizeram parte das histórias e lendas de Punjab por muitos anos. &lt;br /&gt;Calcutá, agosto de 1947&lt;br /&gt;Com o correr dos dias, as pessoas que compareciam às orações de Gandhi aumentavam, tornando Calcutá um Oasis de paz e fraternidade. Com humildade, Gandhi dizia que era a Deus que deveriam agradecer, pois não passavam de brinquedos em suas mãos, dançando como ele o desejasse. Mountbatten rende suas homenagens a esse homem que equivalia a um exército completo. &lt;br /&gt;Punjab, setembro de 1947&lt;br /&gt;Nehru e Liaquat, ao invés de júbilo, mostravam um silêncio amargurado pela situação atroz em que viviam, tentando restaurar ordem no caos. Finalmente Nehru fala que tinham sido irmãos há tanto tempo e não compreendia como isso pudera ocorrer. “Nosso povo enlouqueceu” respondeu Liaquat. A crueldade que seu povo repentinamente havia demonstrado fora um choque para Nehru. Por outro lado, a paz de alguns dias em Calcutá terminaria com o ataque de jovens hindus fanáticos. Na maioria dos casos eram fanáticos do R.S.S.S. Gandhi, imediatamente, correu para esse sítio. O espetáculo o repugnou. Para restaurar a sanidade de Calcutá esse grande homem iria se submeter, com setenta e sete anos e alquebrado, a um jejum até a morte. Nas mãos de Gandhi, o jejum que era um ato comum na Índia, transformou-se na mais potente arma já usada naquela ocasião. Em um país de pessoas iletradas e sem rádio essa “crucificação lenta” representava muito. Para que um jejum político fosse efetivo, deveria ser acompanhado pela imprensa. O jejum continha regras. O de Gandhi era quebrado por um pouco de água com bicabornato de soda. “Ele estava jejuando não contra os Britânicos, mas contra seu próprio povo e o delírio irracional que os tinha acometido. Seus discípulos tentaram dissuadi-lo devido à sua idade e saúde, mas nada o demoveria de sua meta. Contudo, sua degradação física foi muito rápida, agravada pelo seu estado precário de espírito. Seus seguidores procuraram os líderes extremistas hindus, pois se ele morresse haveria o massacre de um enorme número de Hindus em Noakhali. Os estudantes universitários lançaram-se em um movimento para restaurar a paz na cidade. No terceiro dia, sua voz não passava de um murmúrio e seu coração havia enfraquecido expressivamente. Angústia e remorso apossaram-se de Calcutá e os líderes Muçulmanos e Hindus resolveram pedir perdão a Gandhi, implorando-lhe para que parasse de jejuar. Gandhi, emocionado, aceita perdoá-los, mas pede que nunca mais se voltassem uns contra os outros. Suas armas são depositadas no chão, como sinal de boa vontade. Assim, Gandhi quebra o jejum ingerindo alguns goles de suco de laranja, terminado seu martírio. Era dia 3 de setembro de 1947. “O Milagre de Calcutá” havia se realizado. Contudo outros locais ainda estavam em convulsão, mas esta havia sido a última no solo dessa cidade, outrora tão violenta. &lt;br /&gt;Nova Delhi, setembro de 1947&lt;br /&gt;Em 1947, Delhi ainda era, em muitos aspectos, uma cidade Muçulmana. Havia milhares deles procurando abrigo e salvação, pois fanáticos da R.S.S.S. lançaram-se contra a população em uma onda de terror, na manhã de 3 de setembro. O próprio Nerhu foi visto espancado rebeldes para manter a paz. No Mercado Verde milhares de barracas de frutas e vegetais estavam incendiadas. Um bando seqüestrou uma mulher muçulmana, ensopou-a de gasolina e ateou fogo, na frente da residência do primeiro ministro, como sinal de protesto! Esses grupos sabotadores ameaçavam toda Índia e a conclusão dos políticos foi unanime: “não havia uma administração efetiva em Delhi. A capital e o país estavam à beira de um colapso.”&lt;br /&gt;Simla, setembro de 1947 &lt;br /&gt;Louis, destituído de autoridade efetiva, viaja para Simla, que se achava intocada e calma. Contudo, recebe um telefonema de Menon, relatando a péssima situação de Delhi e a necessidade premente de sua presença. Louis recusa-se, mas Menon avisa-lhe que se mudasse de idéia mais tarde, não haveria nenhum sentido nessa atitude. Mountbatten volta e apenas três pessoas estavam presentes no encontro secreto que se seguiu: Nehru, Patel e Louis. &lt;br /&gt;Os líderes revelaram a Louis que a situação em Punjab estava fora de controle. Eles não sabiam o que fazer, pois haviam passado anos de suas vidas em prisões inglesas e a arte que dominavam era da agitação e não da administração. Então Nehru fez um pedido inacreditável. Solicitou a Mountbatten para que ele governasse o país, pois era um líder nato, um administrador profissional e de alto nível. Esse inglês, porém, nega peremptoriamente. Isso enfraqueceria os dois homens indianos. Implorando ao ex-vice-rei que aceitasse consegue demovê-lo de sua negativa, porquanto Louis gostava de um desafio e seu amor pelo país era grande, assim como seu senso de responsabilidade. Elege um Comitê de Emergência, com pessoas chaves que deveriam obedecê-lo cegamente: um diretor de Aviação Civil, um Diretor de Estradas de Ferro e ainda Serviços Médicos Indianos. Depois de décadas de luta pela liberdade, a Índia encontrava-se, ironicamente, novamente nas mãos de um inglês. &lt;br /&gt;Nova Delhi, setembro de 1947&lt;br /&gt;O palácio, em pouquíssimo tempo, parecia um quartel general em tempos de guerra. Louis tinha os melhores mapas de Punjab e solicitou o reconhecimento aéreo sobre metade da província. Instalou uma rede de rádio ligando a Casa do Governo às áreas chaves em Punjab. Os dirigentes indianos conheceriam a face pragmática e austera de Mountbatten. Toda vez que um trem fosse assaltado, os guardas responsáveis deveriam separar os feridos dos mortos e o resto seria fuzilado imediatamente, por uma corte marcial. Outras medidas duras foram tomadas para restaurar a ordem. Levaria semanas para que esses esforços tivessem impacto sobre a catástrofe que varria o nordeste da Índia. Uma onda de miséria humana sem precedentes cobriu Punjab. Foi a maior dimensão de refugiados que a história da humanidade produziu! Os novos líderes urgiam a população horrorizada que permanecesse em seus lugares de origem.  Um piloto relata que a multidão se arrastava como imensos rebanhos de gado! Tinham que caminhar não poucos quilômetros, mas centenas, sem nada para nutri-los além de poucos goles de água. Búfalos, camelos, cavalos, pôneis, carneiros misturavam-se a essa miséria. A jornada de quilômetros era uma trilha sem volta. Algumas estradas transformaram-se em verdadeiros cemitérios abertos e, além disso, parturientes haviam de carregar seus filhos recém-nascidos a pé. Como sempre, os piores ataques eram dos Sikhs. &lt;br /&gt;Peshawar, setembro de 1947&lt;br /&gt;Mahatma Gandhi, apesar de seu precário estado físico, viajou para Delhi, em 9 de setembro de 1947, para nunca mais partir. &lt;br /&gt;Nova Delhi, setembro de 1947  &lt;br /&gt;Ganhdi, o mais modesto e honrado homem do mundo, por sua condição deplorável, aceitou ficar em uma residência confortável de G. D. Birla, que era um riquíssimo industrial, o qual financiava o Partido do Congresso, após tornar-se um fiel seguidor de Gandhi. Os Muçulmanos de Delhi queriam fugir para o Paquistão. A situação era tão terrível que pessoas defecavam e vomitavam na mesma poça de água na qual as mulheres lavavam seus potes de cozinhar. A burocracia da cidade tornou-se inoperante pela catástrofe. Inevitavelmente a cólera surge! Apesar de tudo, os esforços do Comitê de Louis, Patel e Nehru começaram a ser sentidos. Esses dias contribuíram para que a amizade entre Nehru e Louis se aprofundasse. Para Gandhi as dimensões da violência em Delhi eram um choque e uma surpresa. Com o Milagre de Calcutá, Gandhi passa a ser o novo ídolo de Muçulmanos, tomando o lugar de Jinnah. Gandhi nunca foi tão obstinado com suas convicções, como nos últimos tempos de sua vida. Ele visitava os campos de refugiados todos os dias, tentando fazê-los se libertarem da vingança desejada. “Ofereçam-se com não violentos, desejosos de se sacrificarem” falava. “Morram com o nome de Deus em seus lábios se necessário, mas não percam seus corações.” Certa vez, orando em um desses campos, um fato dramático ocorre. Ao pregar o amor e a paz, alguém na multidão grita que sua família havia sido assassinada por isso e um coro seguiu-se a essa voz. Gritavam: “Morte ao Gandhi” e pela primeira vez em sua vida não pode terminar uma oração pública! &lt;br /&gt;Gandhi celebrou seu 78° aniversário e milhares de mensagens de todo mundo foram enviadas para sua atual casa. Cada visitante que chegava para cumprimentá-lo ficava assombrado com seu estado lastimável e a melancolia que havia se instalado em seu forte espírito. Queria que Deus o levasse, para não ter de presenciar o absurdo que sua pátria querida havia se transformado! &lt;br /&gt;Punjab, Outubro de 1947&lt;br /&gt;Houve, como já esperado, um estouro de selvageria. Mulheres e meninas eram, sem exceção, violentadas. Eram também leiloadas como gado ou mercadorias. Nos campos de refugiados ou nas novas capitais, o povo esperava por um milagre. Os pobres e ricos sofriam igualmente. “O cheiro de morte, decadência e doença parecia pairar sobre cada pessoa.” Edwina Mountbatten teve um papel crucial trabalhando para o bem-estar dos pobres e doentes indianos.  Dormia menos de cinco horas e às seis da manhã já se encontrava em seu escritório para deliberar as ordens do dia. “Gradualmente, uma aparência de ordem começa a emergir do caos...” O Comitê de Emergência começa a ter seus primeiros resultados. Finalmente chegara as chuvas das Monções, tão esperadas pelos indianos castigados pelo forte sol e calor. Mas vieram tão violentas e descontroladas que mais parecia a ira dos Deuses caindo sobre irmãos que haviam lutado uns contra os outros! Os transbordamentos dos cinco rios pareciam ser o ato final de uma destruição já avançada. A água varreu tudo e as pontes submergiram. Jamais saberemos quantos pereceram nessas horríveis semanas em Punjab. Clement Attlee perguntava a Lord Ismay, na Inglaterra, se não haviam apressado as coisas demais, mas uma coisa era certa: os próprios líderes indianos tinham forçado essa urgência. Gandhi também havia sugerido que Mountbatten saísse o mais rápido possível. “A violência que o acordo de divisão produziu em Punjab era muito pior do que qualquer coisa que Mountbatten ou seus experts conselheiros haviam imaginado... Eles pagaram o preço da liberdade de um quinto da humanidade e esse preço deixaria seu cunho amargo por anos que ainda viriam.” Era a sua pátria.&lt;br /&gt;Srinagar, Caxemira, outubro de 1947&lt;br /&gt;Uma horda de chacais estava encaminhando-se para Srinagar. Centenas de homens da tribo Pathan queriam por um fim no sonho de Hari Singh de ser independente.  Para Jinnah parecia impossível que a Caxemira com mais de três - quartos de muçulmanos não se tornaria parte do Paquistão.  &lt;br /&gt;Fronteira do Paquistão e Caxemira, 22 a 24 de outubro 1947&lt;br /&gt;A rota para Srinagar estava aberta para os invasores. Ao raiar do dia eles atacaram. Sairab Khyat Khan e sua guarda dominariam o palácio.  Mas quando buscou pela guarda ela havia desaparecido. Não havia mais ninguém! A cidade não iria pertencer aos Pathans naquela noite. &lt;br /&gt;Nova Delhi, 24 de outubro de 1947&lt;br /&gt;O Major General Douglas Gracey, soube do acontecido na Caxemira e informou o comandante em chefe da Armada Indiana, que avisou dois ingleses: Louis Mountbatten e o Marechal de Campo Auchinleck. Louis ficou atônito com a notícia e decidiu que se a Caxemira queria a independência, ela seria realizada por Hindus e não Britânicos. V. P. Menon foi ordenado para Srinagar a fim de apresentar os termos do Gabinete para o Marajá, enquanto os oficiais determinavam a situação militar do local. &lt;br /&gt;Srinagar, 26 de outubro de 1947&lt;br /&gt;Antes da meia-noite do dia 25, outro refugiado juntava-se a esse grande êxodo. Tratava-se de Hari Singh, o Marajá da Caxemira. Sua guarda o protegia durante a viagem. O exílio seria no palácio de inverno em Jammu, onde recebera o Príncipe de Gales. Menon volta para Delhi a fim de informar que o Marajá estava disposto a aceitar qualquer termo em troca de ajuda. Finalmente estava pronto para introduzir a Caxemira à Índia, mas os Pathans estavam próximos do aeroporto do local que poderia ser interditado. Menon chega tarde da noite e diz: “Aqui está, temos a Caxemira. O bastardo assinou o Ato de Adesão...” O estado continuaria dividido: o Vale da Caxemira em mãos hindus e os territórios do nordeste ao redor de Gilgit nas mãos dos Paquistaneses. Assim permaneceria em disputa por mais vinte e cinco anos. &lt;br /&gt;Poona, 1° de novembro de 1947&lt;br /&gt;Os fanáticos hindus de Poona tinham um novo herói, Savarkar, continuação da linha de Shivaji. Fisicamente não estava presente na reunião, mas sim sua imagem. Havia sido consumidor de ópio por anos e era homossexual, entretanto era um brilhante orador, era o “Churchill de Maharashtra.” Como Nehru, Jinnah e Gandhi completou seus estudos nas Cortes de Londres.  Havia sido preso, em 1910, pelo assassinato de um burocrata inglês. Ele detestava o Congresso com seus pedidos para a unidade Hindu-Muçulmana e a não violência de Gandhi. Vinha da alta casta de brâmanes, mas seu real interesse era a R.S.S.S. Os dois jovens extremistas que comandavam a reunião acionaram os botões para a impressão do jornal revolucionário Hindu Rashtra. Ambos também eram brâmanes. Eram eles: Nathuran Godse e Narayan Apte, que fundaram, a pedido de Savarkar em 1944, o jornal mais incisivo de Poona.  Esses jovens eram totalmente diferentes apesar de pertencerem à mesma casta. Godse era ascético, devoto e indiferente à comida.  Vivia numa cela de monge e levantava-se às 5.30 da manhã sendo fascinado por astrologia. Godse fora mau aluno, pois sua paixão era política e havia se tornado um seguidor de Gandhi. Desiludido segue Veer Savarkar e sua doutrina Hindutva, tornando-se um astuto pensador político. Apte era gregário e introduziu a seus alunos os segredos eróticos do kama sutra. Godse teve apenas um encontro sexual em sua vida e foi com seu mentor Savarkar. A pequena cidade de Panipat havia se transformado em um local de miseráveis refugiados ainda chegando à Índia provindos do Paquistão. Um vagão chega a toda velocidade na estação. Dele saiu a única força de ajuda dos Muçulmanos de Panipat, Mahatma Gandhi!  Quando surgiu, um clamor veio da multidão que gritava: “Sua esposa foi estuprada? Seus filhos foram cortados aos pedaços?” “Sim”, ele responde, “porque suas mulheres são minhas mulheres e seus filhos são meus filhos.” Sua única arma era suas palavras! Implorou-lhes que não desumanizassem seus corações. Após duas horas de pregações, saiu em triunfo do palanque. Essa ação salvou muitas vidas, mas não erradicou o medo dos Muçulmanos de Panipat. Apte, o administrador do jornal Hindu Rashtra, em seu disfarce preferido de túnica laranja e ar espiritualizado, executava suas atividades de traficante de armas. Badge, preso diversas vezes, tinha uma loja de armas, sob a fachada de livraria e Apte era seu melhor cliente, tramando algo muito grande.&lt;br /&gt;Nova Delhi, dezembro de 1947 &lt;br /&gt;Para seu secretário que o servia há anos, Gandhi “parecia o homem mais triste do mundo.” Uma barreira psicológica estava sendo erguida entre ele e seus colegas que já se encontravam no poder. Advertia constantemente Nehru e Patel sobre a corrupção crescente na Índia com seus banquetes requintados e glamorosos. Os intelectuais hindus desenhavam uma nova nação industrializada sem se importarem com o principal: os pobres camponeses. Gandhi dizia “... Deixe-os curvar suas costas sob o sol inclemente como eles fazem. Então, poderão começar a entender as preocupações dos camponeses.” Gandhi chamou Birla e confidenciou-lhe que gostaria de visitar o Paquistão, mas antes teria de colocar ordem na própria Índia, cuja capital se via sufocada e sem moral. Certa noite falou a um grupo de ingleses que pretendia ser guiado pelas palavras de Confúcio que dizia: “Saber o que é certo e não fazê-lo, é covardia.” &lt;br /&gt;Karachi, Paquistão, dezembro de 1947&lt;br /&gt;Jinnah encontrava-se piorando rapidamente após a conquista de seu sonho. Com a saúde gravemente debilitada não delegava a ninguém alguma autoridade e se agarrava ao poder e aos seus pertences. Imaginava que seus velhos inimigos Hindus não o deixariam que sua nação criasse raízes. Em meados de dezembro, depois de semanas de negociações os dois países chegaram a um acordo na divisão dos assuntos financeiros e matérias finais. O Paquistão deveria receber dinheiro como parte adicional que faltava. A Índia recusava a fazê-lo, pronunciando que o dinheiro seria usado na compra de armas. Finalmente vem a humilhação final de Jinnah: um cheque havia sido devolvido por falta de fundos. &lt;br /&gt;Nova Delhi, 12 de janeiro de 1948&lt;br /&gt;Muito havia mudado desde o encontro crucial. O Comitê de Emergência de Mountbatten havia sido dissolvido e agora ele possuía poderes limitados em relação aos líderes da Índia. Gandhi sentia que somente Mountbatten havia compreendido os significados de suas ações desde a independência. Gandhi possuía tanta fé neste inglês que achava que enquanto fosse Governador Geral não haveria nenhum ato de desonra no governo da Índia. Isso preveniria uma guerra entre Paquistão e Índia. Gandhi, conversando particularmente com Louis, revela que os muçulmanos de Delhi pediam seu conselho sobre permanecer ou não em solo indiano. Deveriam partir para o Paquistão? Ele não poderia continuar oferecendo conselhos sem que ele próprio se arriscasse. Havia decidido fazer um jejum de morte, até que houvesse “uma reunião de corações de todas as comunidades em Delhi.” Deveria surgir um senso de dever. Mountbatten confessa-lhe que “o admirava imensamente e, além disso, Gandhi obteria sucesso onde tudo o mais havia falhado.” O pacifista jejuaria até que a Índia respeitasse a carta de acordos internacionais e pagasse o que devia ao Paquistão. &lt;br /&gt;O Último Jejum: Nova Delhi, de 13 a 18 de janeiro de 1948&lt;br /&gt;Seu último jejum começou as onze e cinquenta e cinco na manhã de terça-feira. Fez sua última refeição às dez e meia e um serviço religioso, nos jardins de Birla House, marcou o seu início.  Gandhi, conhecedor da alma de seu povo, intuiu que outra explosão de violência estava perto de eclodir na Índia.  Sua decisão de jejuar já dividia a Índia; uns estavam a favor do pagamento da dívida e outros contra. Contudo, “havia lembrado a toda nação quem ele era e para que se posicionava.” &lt;br /&gt;Poona, 13 de janeiro de 1948&lt;br /&gt;Nos novos escritórios do jornal Hindu Rashtra, seus donos estavam perplexos com o que liam. Era a decisão de Gandhi que poria a baixo seus planos.  Godse comenta a Apte que a única saída seria matar Gandhi.  Isso era uma chantagem política. Nos jardins de Birla, Gandhi começou sua oração pedindo à multidão que purificasse suas almas e se fizessem iguais. “Hindus e Sikhs e Muçulmanos precisam decidir a viver aqui em amizade como irmãos... Se não puderem fazê-lo, minha vida neste mundo terá sido fútil.” Fez-se um grande silêncio. As pessoas “se perguntavam se iriam vê-lo novamente.” Cinco homens encontraram-se no escritório do Hindu Rashtra: um policial, os donos do jornal, Vishnu Karkare, dono do Deccan Guest House e Madanlal Pahwa, refugiado de Punjabi. Godse urgia por ação e pela morte de Gandhi. Foram para a loja de Badge, que colocara sobre um tapete as armas que haviam pedido. Tinham tudo exceto a pistola automática. Apesar de Godse ser um homem pobre deixou duas apólices de seguro de vida, agora poderia morrer. O peso de Gandhi diminuía, estava com 49,5 quilos. Desde o momento em que se envolvera com a política de não violência, as mulheres eram parte importante de seu fronte, pois elas não eram emancipadas. Faziam parte da metade do mundo subjugado. Nos primeiros momentos da luta pela liberdade tinham um papel igualitário ao dos homens. Nehru e Patel visitaram Gandhi e o motivo era o pagamento devido ao Paquistão. Isso tinha desagradado grande parte do Gabinete e Patel tentou dissuadi-lo. A posição de grande parte dos Hindus trouxe lágrimas de tristeza nos olhos de Gandhi, pois era a primeira vez que na liderança, seu povo não demonstrava desejo de salvá-lo. Sob o ponto de vista deles parecia uma tentativa de auxiliar os Muçulmanos. Um grupo de pessoas visitou-o e gritou: “Deixe Gandhi morrer”. O pacifista sentiu-se só.&lt;br /&gt;Bombay, 14 de janeiro de 1948&lt;br /&gt;Nos subúrbios da cidade estava Shavarkar que detestava Gandhi e seus princípios. Godse e Apte o cumprimentaram com um gesto de servilismo e depois eles mostraram um tambor cujo conteúdo era uma seleção de armas. Logo após, dirigiram-se a um hotel. Apenas quarenta e oito horas depois de começar o jejum, Gandhi estava em estado crítico. Encaminhava-se para a morte. Seus rins já não funcionavam adequadamente. Apesar dos apelos para quebrá-lo, acreditava nas palavras de Krishna. Nesse instante Apte e seu parceiro compravam passagens para concretizar seus planos. Gandhi insistiu em um enema que iria debilitá-lo ainda mais. Mesmo assim, proíbe Manu de pedir ajuda. Contudo dez mil pessoas ouviam Nehru suplicar: “A perda de Mahatma Gandhi significaria a perda da alma da Índia.” Por sua vez, Louis cancelou todas as refeições em respeito ao homem que tanto admirava. Um esforço para salvar o líder começara nas ruas de Delhi. Milhares de mulheres Muçulmanas pediam a misericórdia de Alá. O governo da Índia anunciou que fosse feito o imediato pagamento das 550 milhões de rúpias! &lt;br /&gt;Bombay, 15 de janeiro de 1948&lt;br /&gt;Apte contemplava com desânimo a última arma, a pistola. Era feita em casa. Ainda precisavam da pistola imprescindível para o assassinato.  Vendo os dedos ágeis de Badge, resolveram trazê-lo para Delhi, também. Chegando, dirigiram-se para Hindu Mahasabha Bhavan. Centenas de fiéis esperavam pela melhora de Gandhi em Birla House e seu discurso. No entanto sua voz não passava de um sussurro. Depois da oração, em fila, essas pessoas passaram para o gesto ritual do namaste. Depois de um jejum de quatro dias, parecia que o velho líder estava melhorando. Contudo, seu aparente vigor era uma ilusão. Desmaiou inconsciente no solo. Caso se salvasse, ficaria inválido para o resto de sua vida, diziam os médicos. Em 16 de janeiro, a Índia viu que sua vida estava em real perigo. Em todos os lugares, comitês empenhavam-se para salvá-lo. Os intocáveis de Bombay enviaram um telegrama dizendo: “Sua vida nos pertence.” Lojas e recintos comerciais fecharam em respeito à sua agonia. Hindus, Sikhs e Muçulmanos formaram a “Brigada da Paz”, marchando e pedindo para que ele desistisse do jejum. Ele pronunciou: “Eu desistiria de ter qualquer interesse na vida se a paz não for estabelecida por todos, em toda Índia e todo Paquistão. Esse é o significado deste sacrifício.” Os médicos declararam que se o jejum de cinco dias não fosse interrompido, a morte seria certa. &lt;br /&gt;Poona, 17 de janeiro de 1948&lt;br /&gt;Godse, na manhã desse dia, dirigia-se a Delhi para matar Gandhi, o qual apesar de estar com sua situação de saúde crítica, não mais sofria e esperava que seu sacrifício redundasse em uma ação efetiva e não apenas em um desejo de salvar a sua vida. Ele dita para seu secretário as condições desejadas para quebrar seu jejum.  Eram brilhantes e Nayar as entrega ao Comitê de Paz, rapidamente. Delhi estava em um estado de agitação como não estivera desde sua independência. Milhares de pessoas de todas as castas o apoiavam nas ruas. Nehru saiu de seu escritório para ficar ao lado de seu mestre e chorou ao ver suas condições. A voz do mestre estava ainda mais fraca, mas pronunciou: “Não está ao alcance do poder de ninguém salvar minha vida ou terminá-la. Está apenas no poder de Deus.” Enquanto isso os assassinos despediam-se de Veer Savarkar, que por sua vez fala muito baixo: “Sejam bem sucedidos... e voltem.” Um oceano de pessoas continuava pedindo pela vida de Mahatma. Nehru, ao microfone, reafirma que o único indivíduo capaz de salvar a Índia seria Gandhi. Pyarelal mostra-lhe o documento assinado pelo Comitê de Paz. Contudo ele não quebraria seu jejum até que as assinaturas de líderes importantes não se somassem às outras. Em 18 de janeiro, quase entrando no estado de coma, o presidente do Partido do Congresso foi alertado da necessidade da urgência das assinaturas. Seu desejo realizado, com grande dificuldade conseguem acordá-lo e ao vê-los, sorri de satisfação. Havia conseguido um milagre. Todos os líderes de Sikhs ao R.S.S.S. haviam assinado o tratado. Mahatma balbucia que o que haviam conseguido precisaria estender-se por toda a Índia. Os líderes confirmaram suas adesões. Gandhi começou a quebrar seu jejum bebendo pequenos goles de suco de laranja. Aos setenta e oito anos e doente havia jejuado por 121 horas e 30 minutos! Colocado em uma cadeira e aquecido por um cobertor, sua diminuta figura foi exposta à multidão que o admirava. Contrariando ordens médicas começou a trabalhar em seu tear, com dedos trêmulos, pois tendo começado a comer precisaria fazê-lo para se sustentar! &lt;br /&gt;Nova Delhi, 19 e 20 de janeiro de 1949&lt;br /&gt;Desde a Marcha do Sal em 1930, não havia obtido um episódio tão eficiente como seu atual jejum, o que resultou em uma grande esperança pela paz e harmonia. A mídia mundial não ficou indiferente a isso. Os seis conspiradores, agora, emergiam de trás do templo de Birla para testar as armas obtidas. Nenhuma funcionou! Jinnah, que guardava grande rancor contra Mahatma, ao saber do pagamento da dívida, abriu as portas da sua nova nação. Gandhi seria recebido por ele. Esse velho homem imaginava chegar ao Paquistão de forma dramática e surpreendente: iria a pé até o outro país! Entretanto teria de se recuperar. Como sempre uma aglomeração o esperava para a oração noturna e assim, pela primeira vez, Godse vê o homem que iria matar sem nenhuma emoção. Apte decide que o melhor momento para o assassinato seria durante a oração de 20 de janeiro. Às nove horas da manhã desse dia, um taxi levou os dois assassinos. Com o passar das horas a tensão entre eles é quase insuportável. Mas, à noite, Apte chegara “atrasado para o mais importante redezvous de sua vida.” A plataforma, onde Gandhi orava, era bem mais alta do que esperavam, mas o momento havia chegado. Calmamente pegou seu cigarro, curvou-se e pressionou sua ponta inflamada ao fuso da bomba a seus pés. O barulho da explosão sacudiu o local de oração, mas nada ocorreu e Gandhi pediu calma à multidão. Após o fracasso do atentado os homens voltaram para o taxi que os esperava. Godse e Apte são tomados por uma enorme sensação de fracasso! Um dos assassinos, Madanlal, estava sendo interrogado pela polícia e admitiu que pertencia a um grupo contrário às políticas de Gandhi, que ajudava os Muçulmanos. Admitiu ainda conhecer pessoalmente Savarkar Sadan. Descreveu Godse e citou sua ocupação. A polícia correu para a Marina Hotel, onde se achavam. Não encontraram ninguém.  Godse havia se registrado com nome falso na velha Delhi. A polícia encerra o interrogatório por essa noite, mas sabiam que Veer Savarkar estava envolvido no golpe. &lt;br /&gt;Nova Delhi e Bombay, 21 a 29 de janeiro de 1948 &lt;br /&gt;As primeiras palavras de Gandhi, após o atentado, foram para não punir ninguém, apenas por acreditarem ser má pessoa. Os investigadores mandam notícias sobre o ocorrido à Bombay, contudo os policiais de Delhi foram extremante “negligentes” e não levaram o documento com os depoimentos feitos, tampouco a identificação do nome do jornal  de Godse e Apte. O comissário da Polícia de Bombay, Nagarvalla, foi escolhido para solucionar esse caso devido à sua religião, pois era um Parsi. Esse homem foi impedido de prender Savarkar, contudo contava com a organização inglesa Watchers Branch, formada de pessoas disfarçadas, que o ajudariam. A investigação avança rapidamente até que cheguem à loja de Badge, que havia saído. Ao voltar passou a tricotar seu traje de malha à prova de balas.  Acreditava-se que havia se escondido nas florestas da cidade. No dia 23 a investigação deu um salto. Madanlal finalmente resolvera fazer uma declaração completa, assim conseguiriam encontrar o endereço e registro do jornal dos jovens conspiradores. Agora era outro homem quem dirigia o caso, D. J. Sanjevi secreto, vaidoso e ciumento de seu antecessor. Assim negligenciou provas importantes. Ele não fez nenhum esforço para conectar-se com outras polícias. Era impossível o nome de o jornal Hindu Rashtra ser estranho a ele! Com esse personagem faltava o principal: “o senso de urgência.” Os matadores estavam voltando: “um homem, uma arma; um fanático zeloso preparado para sacrificar sua vida para cometer esse assassinato.” Julgavam que o fracasso anterior ocorrera por terem muitas pessoas envolvidas. Desta vez a responsabilidade cairia sobre Godse e o principal elemento era a velocidade, a fim de confundir a ineficaz polícia indiana. “O dia 26 de janeiro de 1948 era memorável”, pois nesse dia, em 1930, milhões de congressistas tinham jurado que fariam a Índia independente.  Por outro lado Godse e Apte, em dez dias pela segunda vez, voavam para matar Gandhi. Haviam decidido partir de Bombay sem a arma, pois fora impossível achá-la. Gandhi estava feliz com a harmonia e paz entre as várias facções indianas, entretanto pressentia que não poderia realizar seu sonho de viajar ao Paquistão, marcado para 2 de fevereiro. A odisséia dos dois matadores havia chegado ao fim. Conseguiram obter a pistola com Gwalior, o famoso médico de ervas, que também era contra a política de Gandhi. A arma era uma pistola automática Beretta.  O grande trabalho de Gandhi estava quase feito.  A capital estava calma e a ordem restaurada. Como sempre Mahatma não desperdiçava um momento sem trabalhar, O dia todo fizera planos e escrevera uma dúzia de cartas, além de estudar Bengali. Elaborara um rascunho da nova constituição para o Partido do Congresso. Um grupo de Hindus e Sikhs aproximaram-se de Gandhi e um jovem com ódio gritou-lhe que já havia causado muita dor e que deixasse a Índia em paz. Essas palavras atordoaram o velho homem, que disse: “faço o que Deus comanda-me, procuro paz em meio à desordem.”! Sanjevi fizera um pequeno progresso e acreditava que os assassinos não voltariam mais. Jimmy, no entanto, continuava sua vigilância em Savarkar e pressentiu que outro atentado estava a caminho, pelo intenso movimento na casa do terrorista. Todavia Gandhi não permitiu um só policial perto dele, desse modo não havia muito a ser feito. Por fim, Rana, Inspetor Geral, descobre as identidades da “trindade vingadora” que havia jurado entrar nos recintos de Birla House. Esses homens estavam hospedados na estação de trem da Velha Delhi e às cinco horas da tarde de 30 de janeiro Gandhi seria assassinado. Mahatma Gandhi passou o resto do tempo disponível de sua vida trabalhando na nova constituição, mas não relaxara, pois não conseguia esquecer a face do jovem enfurecido que durante aquele dia havia praguejado contra ele.  Caiu em outro de seus silêncios melancólicos e balbuciou um verso: “Vida curta tem a primavera no jardim do mundo. Observe o esplêndido espetáculo enquanto dura.” Confiava que se morresse em consequência de um tiro, um atentado, ai sim ele teria sido um verdadeiro mahatma. Isso beneficiaria o povo da Índia. A manhã friorenta de 30 de janeiro de 1948 começou exatamente como as habituais. Com suas pernas cruzadas cantou com alguns discípulos os versos da canção celestial do hinduísmo, o Bhagavad Gita. Depois pediu a Manu para que cantasse as linhas de um hino: “Se cansado ou não, Ó Homem, não descanse.” Karkare, preso, descreve aos policiais que ele e Apte ficariam ao lado de Godse, que cuidadosamente colocou sete balas na pistola.  Ambos seguiram ao encontro de Nathuram, que já se encontrava no meio do jardim de Birla House. Depois de algum tempo Godse pressionou as palmas das mãos e disse aos jovens: “Namaste. Não sabemos se estaremos juntos novamente.” Sem olhar para trás prosseguiu para a casa onde Gandhi fazia suas orações. Mahatma tivera várias entrevistas neste dia e a mais difícil fora com Patel, que insistia em sair do governo. Louis Mountbatten havia alertado que Nehru e Patel eram importantíssimos para o país e teriam de aprender a trabalhar juntos. Depois disso, Gandhi volta para o tear. Enquanto girava sua roda do tear, os assassinos já se encontravam próximos a ele. Karkare relata à polícia que Godse estava absorto e parecia esquecer-se de seus companheiros. Manu estava nervosa, pois já passara dez minutos das cinco horas e seu tio-avô era muito pontual. Observando seu relógio sai apressado para a oração. No momento em que alcançou o último degrau, havia um sussurro da multidão: Bapuji, Bapuji. As mãos de Godse estavam nos bolsos de seu disfarce; sentiu a arma e calculou que estava na hora certa. Dois passos, três segundos, o assassinato seria fácil e mecânico. Manu o viu e pensou ser mais um dos seguidores de Gandhi e pediu-lhe para abrir caminho, pois já se encontravam atrasados. Ela calculou que ele queria beijar os pés do mestre.  Com a pistola escondida disse: “Namaste, Gandhiji”. Godse derrubou Manu e expos a Beretta em sua mão esquerda. “Godse apertou o gatilho três vezes... Nathuram Godse não havia falhado... os três tiros atingiram o peito da frágil figura que avançava em sua direção.” Manu viu as manchas vermelhas de sangue manchando seu traje branco. Gandhi ofegou: “He Ram!” (Ó Deus). Eram exatamente dezessete minutos depois das cinco. Mountbatten ao receber a notícia parte, imediatamente, para Birla House, que já se encontrava repleta de pessoas. A hipótese de o assassino ser um Mulçumano levaria a Índia ao maior massacre já presenciado. O diretor da All India Radio decidiu continuar a programação normal para evitar tumultos. Somente mais tarde, a informação sobre o assassinato do defensor da independência da Índia por um Hindu da casta brâmane foi divulgada. Seu corpo foi levado para o interior de Birla House. Dentre as pessoas que lamentavam sua morte estavam Nehru e Patel. A luz de mais de dezenas de lamparinas de óleo de cor alaranjada fizeram com que seu pequeno corpo tivesse uma aura triste e gentil. “uma inacreditável aparência de repouso cobria sua face.” Mountbatten iria repetir que “Mahatma Gandhi iria para a história ao lado de Buda e Jesus Cristo.” O mestre pedira que seu corpo fosse cremado em vinte e quatro horas, em estrito acordo com o costume Hindu. A remoção de seu corpo seria conduzida como uma operação militar. Todas as cidades indianas lamentavam sua morte assim como as paquistanesas, onde as mulheres choravam o desparecimento de seu protetor. Seu corpo foi elevado ao segundo andar em Birla House e quando Nehru discursou havia lágrimas em seus olhos. Chegaram mensagens de condolências de todas as partes do globo. Presidentes de diferentes países enviaram seus pêsames pela morte desse homem tão humilde e brilhante. Uma pirâmide funerária esperava recebê-lo em Raj Ghat, o local de cremação, às margens do rio Jumna.  Seu corpo havia sido coberto pela bandeira da Índia independente. Fora a primeira vez que as tropas de guarda do antigo vice-rei tinham honrado um indiano e estava recebendo, na morte, uma homenagem além dos sonhos de qualquer vice-rei. Suas cinzas foram jogadas nas águas do rio em direção ao mar, no décimo segundo dia depois da cremação. Três milhões de pessoas seguiram esse ritual!  &lt;br /&gt;Epílogo&lt;br /&gt;Gandhi, com sua morte, conseguiu terminar o que não conseguira em vida: a insensata matança entre vizinhos e irmãos das cidades e vilas da Índia.  Seu assassino, N. Godse foi levado em custódia, sem resistência, com a arma na mão. A prisão dos outros conspiradores foi rápida. Foram enviados para julgamento em 27 de maio de 1948 e Godse argumentou que era o único responsável pelo atentado. Ele e Apte foram condenados à morte. Louis Mountbatten renunciou ao cargo em junho de 1948. O último ato oficial de sua esposa foi visitar os campos de refugiados, aos quais ela devotara tanto de seu tempo e energia. Jinnah morreu em setembro de 1948, em Karachi, seu local de nascimento. Dois golpes de estado seguiram-se. Como Gandhi havia previsto a divisão do país ocasionou muitos problemas.  Em 1965 e 1971 as duas nações iriam confrontar-se e os contínuos conflitos enfraqueceram-nas.  No entanto, a Índia seguiria a tradição do século, com um vigoroso desenvolvimento industrial e uma nação unida e forte. Mountbatten continuou um homem de sucesso político e princípios irretocáveis, mas foi assassinado pelo IRA em 1979 e Edwina havia morrido em 1960, em Borneo, de fatiga por tanto trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Janeiro de 2010, REGINA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fotos:&lt;br /&gt;Da esquerda para direita: Gandhi, Gandhi e Nehru, Mountbatten, enterro de Gandhi,&lt;br /&gt;Vice-reis e Gandhi, Nehru, Jinnah e Gandhi, Birla House,&lt;br /&gt;Gandhi e esposa, Patel e Gandhi&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-2696693022729568622?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/2696693022729568622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=2696693022729568622' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/2696693022729568622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/2696693022729568622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2010/01/liberdade-meia-noite-india-e-gandhi.html' title='LIBERDADE À MEIA NOITE -   ÍNDIA E GANDHI'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/S18jPGYWiOI/AAAAAAAAB8Q/y-UOm9OtLi8/s72-c/gandhi-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-7298199215570060054</id><published>2009-11-09T17:34:00.006-02:00</published><updated>2009-11-09T17:39:50.567-02:00</updated><title type='text'>AS BRASAS DE SÁNDOR MÁRAI</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/Svhv3cQubVI/AAAAAAAABzg/n2UiVlOyS_M/s1600-h/sandor_marai.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 268px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/Svhv3cQubVI/AAAAAAAABzg/n2UiVlOyS_M/s400/sandor_marai.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402190751300742482" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SvhvukWp58I/AAAAAAAABzY/19ybgzfXspI/s1600-h/montes+C%C3%A1rpatos+as+brasas.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 250px; height: 200px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SvhvukWp58I/AAAAAAAABzY/19ybgzfXspI/s400/montes+C%C3%A1rpatos+as+brasas.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402190598854272962" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/Svhvmk2FLNI/AAAAAAAABzQ/XBrCA-O0ZYc/s1600-h/KOICE-~1.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 299px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/Svhvmk2FLNI/AAAAAAAABzQ/XBrCA-O0ZYc/s400/KOICE-~1.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402190461547130066" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SvhvcAFwYDI/AAAAAAAABzI/UIF2QcTZesY/s1600-h/bratislava-+eslovaquia.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SvhvcAFwYDI/AAAAAAAABzI/UIF2QcTZesY/s400/bratislava-+eslovaquia.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402190279882072114" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SvhvU_S4F5I/AAAAAAAABzA/KxWCUIifuhw/s1600-h/as+brasas+regi%C3%A3o.+do+C%C3%A1rpatos.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 264px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SvhvU_S4F5I/AAAAAAAABzA/KxWCUIifuhw/s400/as+brasas+regi%C3%A3o.+do+C%C3%A1rpatos.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402190159409584018" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia muito tempo que o general não abria sua correspondência, pois seu empregado encarregava-se disso. Um dia recebe uma carta e reconhece imediatamente a letra. Ao lê-la, enfia no bolso e pede a Kálmán que traga seu hóspede na melhor carruagem e a Nini, sua velha ama, para que prepare um jantar pomposo no salão principal do castelo. Fazia quarenta e um anos que esperava por uma notícia do remetente. A última caçada juntos fora em dois de julho de 1899. Nini tinha agora noventa e um anos e fora sua ama de leite. Era muito jovem quando perdera seu filho e amamentara aquele menino doentio. O general, que agora raciocinava em décadas, estava com setenta e seis anos. Pede a Nini que não se emocione, pois Konrad voltara. Nini e o general conheciam-se profundamente. “nenhuma palavra podia definir a relação entre eles.” Era verão, tudo “zunia e fermentava” e ele pediu que lhe preparassem um banho frio. Havia passado uma vida a espera desse momento de vingança.  Tudo era lembrado, mas estava desbotado como “essas fotografias de um passado distante.” Lembra-se do pai, capitão da Guarda, que trabalhara como adido na embaixada Austro-Húngara em Paris e da mãe, uma sensível condessa francesa, que largara tudo para segui-lo até sua terra Natal. “Mudara-se para aquele país oriental porque em seu espírito a paixão fora mais forte do que a razão e o bom senso.” Eram muito diferentes, mas se amavam. Seu mundo era seu castelo, cercado de montanhas e florestas. O castelo, agora, guardava “a memória dos defuntos... as maçanetas das portas conservavam o tremor das mãos...” Quando tinha oito anos, o general foi com a mãe para um castelo à beira mar da família francesa, na Bretanha. “Já se viajava de trem, muito vagarosamente.” Em Paris, sua avó o recebe, “mas tudo tinha um cheiro insuportável e o menino começou a sentir enjôo.” Finalmente ele adoece, pois precisava de afeto e decide morrer!  Na Bretanha, a condessa manda que Nini venha e ele melhora. Confessa-lhe que queria ser poeta como o pai, mas ela declara que será um soldado exatamente como seu pai. O garoto foi matriculado em um colégio militar nos arredores de Viena. Lá “cada coisa estava solidamente em seu lugar, como se ali fosse o único local do mundo onde tudo o que na vida é caótico e supérfluo estivesse finalmente arrumado e em ordem.” Konrad dormia ao seu lado e ambos tinham dez anos.  Konrad era robusto e magro e tinha um ritmo moderado. Sua expressão era típica de eslavos. Seus pais viviam agora na Galícia, eram nobres, mas muito pobres. Esses meninos viveram sempre juntos e possuíam uma “amizade silenciosa”, destinada a durar a vida toda. Esse sentimento continha “certa dose de pudor e de culpa...” Henrik era longilíneo e tinha problemas nos pulmões. O pai vai visitá-lo e passam uma temporada juntos em um hotel. “O garoto se sentava ao lado do pai, calado, com os bons modos de um velho...” O menino queria apresentar-lhe seu amigo e o pai o recebeu como se fosse seu amigo também. Na adolescência esses garotos sentiam-se seguros, pois tinham um ao outro. Passaram o verão juntos na casa de Henrik e sua mãe exclama, ao partirem: “Finalmente um casamento que deu certo.” Porém Nini não sorri. Descobriram todos os segredos dessa época juntos, mas o relacionamento era angustiado. Henrik tinha orgulho de Konrad e lhe era muito afeiçoado, mas Nini prevê que um dia ele o abandonaria. Konrad, pudico e sério, pede ao amigo que levem “uma vida casta”. O filho da condessa era mais inteligente e tinha uma memória genética das coisas, contudo Konrad era mais rígido e respeitador de todas as regras. Aos vinte e dois anos vão visitar os pais de Konrad e ele observa o sacrifício desses pobres nobres. Um relato muito pungente de suas vidas é narrado por ele e a carga pesada demais que carregava. Sufocado perdia a autonomia de sua própria vida. Konrad refugiava-se na música. No colégio não se falava dela, apenas era tolerada. “Konrad empalidecia toda vez que escutava. Qualquer tipo de musica, mesmo a mais vulgar...” Sua austeridade desfazia-se. Ela modificava tudo ao seu redor e o jovem não se sentia mais um soldado. Comparava a música à força de cavalos alados invisíveis, mas era um perigo. Tocando para os pais de Henrich, em um acorde a mãe reconhece a música do francês Chopin, que na verdade era parente da mãe dele. “Todos ficaram impressionados.” Contudo, depois da apresentação o oficial da Guarda afirma que ele jamais seria um soldado de verdade, pois era “um homem diferente”. Certamente com sua sensibilidade a flor da pele.  Viveram juntos em Viena e Henrik intuiu que o amigo escondia-lhe um segredo. “Sempre sabemos qual é a verdade, essa outra verdade que se esconde atrás dos papeis que representamos...” Konrad era calmo e autodisciplinado, cumpridor de seus deveres, como se isso o salvasse de algo maior. Locaram um apartamento juntos e Konrad alugara um piano, mas parecia ter medo dele, talvez temesse a explosão que a música lhe causaria. Konrad vivia uma vida monástica, como se “não vivesse neste mundo”. Passava longo tempo sem sair à noite e quando Henrik voltava de suas festas e encontros, sentia que traia o amigo, ao ver a fraca luz do quarto ainda acesa. As músicas lânguidas dos salões não agradavam Konrad. Ao contrário, sua música despertava paixões e remorsos, fazia crescer um sentimento de vida mais concreto. Henrik era outro tipo de jovem, mais sociável, extrovertido e entrosado na sociedade vienense, porém mais artificial.  O autor, Sándor Márai, fala muito de culpa quando se refere ao prazer. “Dançava-se todas as noites... Viena dançava sob a nevasca.” Viena com diversos impérios: húngaro, alemão, tchecos, morávios, croatas, sérvios e italianos formavam um só núcleo e esse núcleo acreditava que apenas o imperador era capaz de manter a ordem. Konrad era intelectual, cerebral e gostava de discorrer sobre suas leituras. Henrik era social e falava da vida, era mais pragmático. Konrad, aos vinte e cinco anos, contava cada centavo gasto e assim envelhecia... A diferença entre os jovens “conferia a Konrad um certo poder sobre o espírito do companheiro.” Como todos que são solitários, o primeiro “falava da sociedade com um tom levemente irônico, meio depreciativo, mas involuntariamente curioso”.  Sua figura era nostálgica e a voz “vibrava de desejos insatisfeitos”. Ambos possuíam dignidade interior em suas vidas. Verônica, a bailarina, e Ângela foram seus primeiros amores com todos os desejos, ciúmes e um sentimento de solidão. &lt;br /&gt;Voltamos para o início do livro, quando o general prepara-se para receber seu velho amigo de infância. Tirou do armário seu uniforme de gala e condecorações, mas preferiu usar um sóbrio terno preto, com gravata de piquê branca. Penteou os cabelos brancos. A vida havia lhe dado coisas inúteis e deveres. Procurou alguns objetos que lhe eram sentimentais e enfiou no bolso um caderninho fino, forrado de veludo amarelo. A arma antiga pegou da gaveta. Com seus olhos “acostumados com as grandes distâncias”, percebeu que seu hóspede se aproximava. Dirigiu-se para a ala social do castelo por um corredor repleto de velhos retratos. Esses homens retratados eram viris e “quando sofriam uma decepção, refugiavam-se nos silêncio.” Depois vinham os retratos dos estrangeiros, parentes de sua mãe francesa. “Uma leve linha cinzenta formava uma moldura no fundo do branco e indicava que no passado ali houvera um quadro pendurado.” A ama o esperava. Nini oferece-se para recolocar o quadro, mas o general nega, pois isso não mudaria nada. Ele lembra-se, detalhadamente, da cena que ocorrera, naquele exato lugar, há quarenta e um anos. Estavam presentes o amigo, Krisztina e ele. Somente. Naquele dia longínquo haviam recebido “um sopro de vida que dera sentido às suas existências. E agora voltavam a viver, como um mecanismo a que se dá corda...” Sopas, trutas, lagostins, rosbife malpassado, salada e sorvete flambado seriam servidos. Igualmente como naquela noite tão distante. O general, detalhista, prepara tudo com esmero, pois queria de Konrad a verdade. Não a conhecera. Nunca. Nina revela que quando sua mulher estava agonizando evocara seu nome, apesar dele estar espiritualmente muito distanciado dela. Konrad, velho como o general, chega e deram um aperto de mãos. Observaram-se minuciosamente com “atenção lúcida.” Haviam chegado a essa idade com dignidade e energia. A esperança de se encontrarem novamente manteve os dois velhos vigorosos. Konrad vivia, agora, nas cercanias de Londres. Havia morado em Cingapura. Contudo os trópicos tiravam o viço das pessoas, mas não o dele. Konrad senta-se na mesma poltrona de outrora e o velho caçador “vê enfim a caça presa na armadilha.” Seu amigo fora para lá com a intenção de matar alguma coisa dentro de si. Chegara aos trópicos com 34 anos e as dificuldades foram imensas. A região era pantanosa e terrivelmente quente. No final de alguns anos o homem sentia-se com raiva e mataria qualquer um que se aproximasse dele. As mulheres malaias eram belíssimas, mas impossível de se acostumar. Os ingleses, belgas e franceses depois de cinco anos no país também se tornavam embrutecidos. Lá há paixões de todo tipo e um “europeu que vem do trópico já não é mais um europeu qualquer, isso é certo” comentou seu amigo. (A mesa de jantar está servida e o cenário é maravilhosamente descrito, com suas cores, louças, pratarias e muitos outros detalhes). “No meio da mesa comprida decorada de flores e iluminada a velas, de costas para a lareira, há outra poltrona forrada de gobelin. Aqui, no passado, era o lugar de Krisztina, a mulher do general.” Os talheres eram de requintado vermeil. Os dois homens falavam aos sussurros. Konrad viera porque estava em Viena e queria ver o general, que não havia mais visitado por quarenta e um anos. Afirma que não tinha mais nada a tratar com o amigo, mas queria vê-lo antes de morrer. Lembrou-se que adorara Viena na juventude e que a cidade era como um amigo. “A música e tudo o que eu amava em Viena vibrava nas pedras, no olhar e na cortesia dos homens...” Quando voltou, encontrara uma cidade mudada, a que o general respondeu: “Aqui entre nós quase nada mudou.” Permanecera no serviço militar, mas havia pensado em se desligar. Fora amadurecendo e ficando obstinado. Foi para a reserva com pouco mais de cinqüenta anos, na época da revolução em 1917. Konrad estivera, durante essa época, trabalhando nos trópicos com cules chineses e malaios, pela segunda vez. Sabia que a guerra espalhara-se por todo o mundo, mas lá não tinha qualquer noticia. Um dia, porém, os dóceis cules pararam de trabalhar e se transformaram em chineses, reivindicando melhores condições de vida e trabalho. Só então ficou sabendo da revolução russa e que um homem chamado “Lênin retornara ao país num vagão chumbado, levando na bagagem o bolchevismo.” É possível que Konrad tivesse intuído a morte de Krisztina. Ela não estava sentada à mesa, só poderia estar na sepultura. O general concorda. Morrera oito anos após a partida do amigo. Teria agora setenta e três anos. Morrera de anemia perniciosa, uma doença rara na Europa, mas muito comum nos trópicos. Konrad havia pensado em voltar e lutar também, mas já era um cidadão inglês. Henrik observa que “não se pode mudar de pátria em nenhuma hipótese. Só se pode mudar de documentos.” Para Konrad a pátria era a Polônia e Viena, aquela casa, o quartel, a Galícia e Chopin. Tudo isso se fragmentara. A “pátria para ele era um sentimento.” O vinho que bebiam era “o passado”, 1886, ano em que Henrik prestara juramento de fidelidade ao imperador e nada mais restava. “Agora é um vinho velho.” Conclui o general. Depois de esgotarem os assuntos principais, a conversa se ameniza e o general confessa que todos esperavam seu retorno, inclusive Krisztina, mas ele sempre fora uma pessoa extravagante. Só a música importava-lhe. Henrik considera que com a velhice só nos lembramos de fatos importantes, o resto não tem mais importância. Durante o último jantar os três estiveram presentes. “A memória filtra tudo de uma forma inacreditável”, afirma. Konrad conta-lhe que o olhar das malásias tem a violência de um contato físico e a insistência de uma carícia. Lá se bebe muitíssima aguardente e se fuma tabaco doce. A chuva é intensa e penetra em tudo, e “depois chega a estiagem, que lembra um cintilar vaporoso. Nessa toada, a gente envelhece depressa.” Agora estavam comendo rosbife malpassado, “mastigando bem, com a voracidade e a concentração dos velhos”, pois para eles isso era “um ato ancestral e solene.” Seu avô costumava por à frente de cada convidado uma pinta de vinho, ou seja um litro e meio, para que bebessem a vontade. Os “vinhos de qualidade eram servidos à parte.” Recorda-se do momento em que tocara a Fantasie Polonaise com sua mãe. Konrad nunca mais a tocara. Levantam-se e seguem para outro recinto, a fim de tomarem café. Ai havia um piano de cauda e três poltronas. &lt;br /&gt;“Já não nos resta muito tempo de vida, diz o general de repente, como se tirasse as conclusões de uma conversa muda.” Existe uma força que “nos obriga a viver... O homem vive enquanto tem alguma coisa a fazer nesta terra... A solidão também é uma realidade muito singular...” O general passa a contar a Konrad sobre seus quarenta e um anos de distanciamento, na solidão. Que também se parece com a selva. Ele declara que um segredo como o que permanecia entre eles tem uma força particular. Preparara-se para esse momento como quem se prepara para um duelo. “e treina todos os dias, como fazem os espadachins profissionais.” Treinara graças às recordações, a solidão e ao tempo. “Mesmo sendo um duelo sem espadas, vale a pena preparar-se até o fim.” O hóspede concorda totalmente com ele. Lembra-se do que o pai falara a Konrad: “Você é amigo do meu filho. Honre esta amizade.” A honra para aquele homem era o mais importante, pois ela e a amizade eram a mesma coisa. O general reflete sobre esse sentimento e conclui que a às vezes a amizade se funda na simpatia e que esta é branda demais e talvez não “seja suficiente para levar duas pessoas a se responsabilizarem uma pela outra nas situações mais críticas de suas vidas.” (Esta reflexão é uma das mais verdadeiras deste extraordinário livro.) Ele continua a narrativa dizendo que a amizade é o relacionamento mais nobre entre os seres humanos. Desapontado diz nunca ter visto uma amizade sincera e que “as simpatias que vi nascer entre os homens sempre naufragaram, no final, em pântanos de egoísmo e vaidade.” Confunde-se, às vezes, confidências com amizade. Não, é para fugir da solidão! “E se um amigo nos decepciona porque não é um amigo de verdade, será que podemos acusá-lo, jogar-lhe na cara o seu caráter, a sua fraqueza? Quanto vale uma amizade que ambiciona ser premiada? Será que não temos o direto de aceitar o amigo infiel exatamente como o amigo fiel e cheio de abnegação?” Ele investigara em seus livros antigos e em sua alma sobre a verdade. Isso lhe ensinou “que não temos o direito de exigir franqueza e fidelidade absoluta de quem escolhemos como amigo...” Analisa profundamente, sobre a DÍVIDA e a FUGA. Durante os vinte e quatro anos em que foram amigos equivalera ao período mais belo da vida de Henrik. Ele não entendia a ofensa feita a ele, pois após aquele jantar havia desaparecido para sempre. O general fora procurá-lo em sua casa, para onde nunca fora convidado, e a encontrou vazia. E “a única coisa que nos separava, em nossa juventude era o dinheiro” concluiu. “Os pobres de origens nobres não perdoam.” Sua casa não era grande, mas possuía a magia da mão de um artista. Ele fora um soldado, deveria ter vivido em profunda solidão entre eles. Entre quadros, tapetes, móveis e objetos de arte observou, no grande piano, um vaso de cristal com três orquídeas, que só se cultivavam nas suas estufas. Konrad era um artista e havia criado algo especial entre seus livros e móveis raros. Cruzando os braços o general acrescenta: “Aquela casa era como o disfarce de alguém.” E foi exatamente nesse momento que Krisztina entrou. Henrik tinha várias indagações: quem era o amigo ou quem fora fiel ou infiel. “O que importa é que no final cada um responde com a própria vida.” A outra indagação era a natureza da relação entre os dois amigos. Quer saber que pressentimento o impeliu àquela casa naquele momento. Todos sabiam, até Nini, mas se calaram. Relembra a caçada daquela manhã. “O homem mata para defender alguma coisa... mata para se vingar de alguma coisa...” Konrad era um artista e será que possui tais sentimentos? Henrik havia estado no Oriente com sua mulher durante a lua de mel. Ficara com uma família árabe de grande nobreza de espírito. Notara que a altivez dessas pessoas, seu comportamento digno, a paixão e a calma, a disciplina, a segurança dos gestos, tudo isso refletia “uma nobreza de velha cepa, essa nobreza especial...” Notara também que tudo era limpo e fresco e a mais humilde pessoa possuía dignidade. “Aquela inércia digna que esconde o prazer de viver e as paixões”... Seu anfitrião degolara um carneiro, mas o ato de matar estava ligado a um “significado simbólico, religioso, ligado a algo essencial: a vítima.” Fora assim que Abraão levantara a faca sobre Isaac. Esse procedimento era muito usado na Antiguidade e, no Oriente, ele ainda era repetido nas mãos de cada homem. No Leste os indivíduos ainda conheciam o significado sagrado de matar e “seu significado erótico oculto.” Para os europeus o assassinato era “um ato jurídico e moral ou um problema médico...” “Ainda assim a caçada representa um sacrifício, um reflexo imperfeito de um rito religioso antiqüíssimo...” essa é a sensação que tem um animal que busca sua presa. “E é a que você também sentiu, talvez ela primeira vez na vida, quando justamente no bosque, levantou a arma e a apontou para mim com a intenção de me matar.” Henrik compreendera que por vinte e quatro anos Konrad o odiara de forma tão apaixonada, que tinha a “mesma força e o ardor das relações amorosas.” Konrad o odiara desde meninos e, no entanto era o mais culto e o mais virtuoso em todos os campos de conhecimento. “Era da raça de Chopin”. Há o desejo de sermos diferentes do que somos, mas é preciso nos conformar. Aceitarmos todos os nossos defeitos e fraquezas que nunca serão corrigidos, mesmo com muito esforço. Compreendermos nossos sentimentos não correspondidos. Tudo isso Henrik aprendera em sua solidão no meio do bosque! (Foi uma profunda tomada de consciência, realizada por exaustão e determinação). Henrik confessa que a velhice amplia os detalhes e os põe em foco. Konrad desprezava seu carisma, mas o invejava ao mesmo tempo. Sua ingenuidade e confiança nos seres humanos os atraiam para ele, na forma de benevolência. A amizade entre dois homens incluía uma aliança implicitamente concluída. O que Konrad fizera no bosque tinha muito a ver com a caça, pois isso deveria ter sido elaborado anteriormente. Terminara a ilusão da adolescência e a nova relação era ambígua e complicada. No passado, apesar de tão diferentes, eram ligados e se completavam mutuamente. “Eram amigos e não simples companheiros...”, pois se isso não fosse verdade Konrad não teria voltado tanto tempo depois. “Nem a morte consegue apagar a amizade nascida na infância.” Acreditava que quando levantou a arma para matá-lo a amizade estivesse mais viva do que nunca. Depois de apontá-la, lentamente a havia abaixado. Saíram do local e o silêncio de Konrad era um reconhecimento de sua intenção. E na noite daquele mesmo dia, ele apareceu para o jantar. Naquele anoitecer Krisztina estivera presente. Ela estava absorta lendo um livro que descrevia uma viagem aos trópicos. Ao deparar-se com o marido, o olha perplexa.  Olhava-o como querendo adivinhar seus pensamentos e se ele saberia da verdade.  Nesse momento resolve calar-se para sempre sobre o ocorrido. Ninguém jamais saberia! Mais tarde, vem a saber que ela havia encomendado aquele livro, junto com outros sobre o mesmo tema. E o círculo se fecha. &lt;br /&gt;O livro fora um sinal da traição das pessoas que mais amava. Isso significava que ela queria ir embora, porque não era mais feliz naquele lugar. Desejava uma vida diferente. Konrad pertencia a uma raça diferente. “Quem é parente de Chopin não pode ser músico impunemente.” Henrik vai procurar o diário encadernado de amarelo, mas ele sumira. Ela insistira que ele lesse suas anotações, mas Henrik sentia-se constrangido com essa persistência.  “Com tanta veemência na sinceridade é porque tem medo”. Medo dos segredos inconfessáveis! Krisztina lhe era grata, mas nunca fora apaixonada. Henrik fez uma retrospectiva daquele dia para Konrad. Depois do jantar, o amigo os deixara.  O general resolveu ir a casa dele, no dia seguinte, para perguntar-lhe... O que? As palavras valeriam bem pouco. A jovem, quando encontrou o marido na casa de Konrad, dissera que ele era um covarde por ter fugido. Ela despede-se da casa e dos objetos familiares, olhando altivamente para a cama turca. No olhar não há curiosidade, pois aquele esconderijo tão especial era seu lar. Assim, sai sem dizer uma palavra. No olhar do empregado que o recebera há uma infinita compaixão. Queria saber do amigo quando teve início a traição e qual a sua própria responsabilidade e culpa nisso tudo. (Sem dúvida era um homem sábio, honrado e justo). Konrad era amigo de Krisztina desde a adolescência, então porque lhe apresentara? Continuou seu raciocínio, dizendo que “o homem e seu destino se realizam reciprocamente, moldando-se um no outro”. O destino não se introduz sozinho, mas entra por alguma brecha deixada aberta deliberadamente. Krisztina, Konrad e sua mãe eram muito diferentes de Henrik e seus sentimentos pelos três eram os mesmos! “E ,assim como as pessoas que pertencem ao mesmo grupo sanguíneo são as únicas que podem doar sangue a quem é vítima de um acidente, assim também um espírito só pode socorrer outro se não for diferente dele...” Krisztina, formada de tantas raças diferentes, era orgulhosa de sua “fantástica independência de espírito”. O general admirava “a paixão, o orgulho, a consciência soberana de seus sentimentos indomados”. Ela sentia-se confortável no mundo. Era parte dele. Considerava a vida uma graça suprema. Quando Konrad partira para os trópicos eles nunca mais se falaram e ele se transferiu para o pavilhão de caça. Henrik odiava a música, não a compreendia e sentia que a melodia possuía algo de imoral dentro dela. Uma vez, com cinqüenta anos, e todos os entes queridos mortos, aproximara-se do pai de sua esposa e lhe contara tudo. Hoje, sobraram apenas Konrad, Henrik e Nina. Eram, sem dúvida, os mais fortes.  No fundo do coração do general, o que ele encontrou, após duas guerras e demasiado desejo de vingança? “Uma paixão que o tempo apenas atenuou sem conseguir extinguir suas BRASAS.” Sua vingança era o retorno do amigo, vindo de tão longe. Agora ele lhe responderá. “A sala com os dois velhos está quase no escuro.”&lt;br /&gt;Não queria mais saber sobre a traição ou sobre o quase assassinato. Disso tivera provas cabais. Não mais lhe interessava, pois já fora respondido pelo tempo. Pondera que a razão e o sentimento devem sempre andar juntos. Quer somente a simples verdade. Que valor tem, no final da vida, certos detalhes doloridos que já se passaram? “Quando exigimos fidelidade, como podemos querer que a outra pessoas seja feliz?” Como o passar dos anos até a vaidade ferida e a raiva desapareceram.  Henrik havia se fechado no pavilhão de caça e passou oito anos sem rever sua amada Krisztina. Somente a verá depois de morta. Ela estava doente e fora tratada pelos melhores médicos, mas, com sua dor, decide morrer e atinge seu desígnio. O general esperara por oito anos uma mensagem de sua mulher. Mas Krisztina nunca veio! Também ela havia sido ferida pelos dois homens: um fugira e o outro se trancara para sempre. Ela respondera a seus atos com a morte, que “dá repostas claras e completas.” Só restava a Henrik compreender a realidade.  Expõe que aos homens “pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais.” Primeiro ocorre o envelhecimento gradativo do corpo. “E então, de repente, sua alma envelhece... a alma ainda é movida por desejos e recordações... Quando desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidades das coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos.” O tempo e o instante preciso são determinantes para certos atos. Konrad abaixara a arma e partira para os trópicos. Contudo, ele ainda queria saber se Krisztina tinha consciência de que ele queria matá-lo. Aquele instante fora precedido de premeditação e “lúcida reflexão?” Krisztina dissera: Era um covarde. Depois se fechou dentro de si mesma até sua morte prematura. Quer saber “covarde” em que sentido? Que plano havia falhado para que fosse um covarde? Henrik é um personagem que não se preocupa com detalhes, mas unicamente com o essencial para poder morrer em paz. Ele acabara encontrando o diário amarelo de Krisztina, mas nunca tivera a ousadia de abri-lo, apesar de ter sua permissão. Ele o oferece a Konrad, que não estica o braço para pegá-lo. Finalmente é jogado nas brasas da lareira, para que o fogo o destrua lentamente.  Konrad que estivera na iminência de responder-lhe à pergunta crucial, ao ver o livrinho consumido às cinzas e às brasas cintilantes, nega-se a fazê-lo. O general estava quase indiferente. Já era aurora, e os velhos desgastados levantaram-se para se despedir. Já falaram tudo, só restara a Konrad partir para Londres. Não queria rever nada nem ninguém. Viveria na Inglaterra até morrer! O general solicita a resposta da primeira pergunta. Eles haviam sobrevivido à Krisztina e eram responsáveis por sua morte! Konrad havia se ligado à mulher de seu melhor amigo. “Não acredita que o significado da vida é simplesmente a paixão que um dia invade nosso coração, nossa alma e nosso corpo... e continua a queimar eternamente até a morte.” Pergunta-se: “A paixão é de fato tão profunda, tão má, tão grandiosa, tão desumana? Será que realmente é desejar uma pessoa específica, ou é apenas o próprio desejo?” Examinam-se longamente, “Konrad e o general despedem-se em silêncio, com um aperto de mão e uma profunda reverência.” Sentido-se mais calmo, o general, questionado por Nini, permite que reponha o retrato de Krisztina em seu lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota - É bom desejar, você se sente vivo, mas pode ser também um sentimento ruim e dolorido. O melhor para viver é ser sereno e equilibrado. A felicidade vem, muitas vezes, devagar e se instala na sua alma para sempre. AMAR – esse é o melhor sentimento do mundo. É universal e seguro, bem diferente da paixão que muitas vezes não passa de um momento, um cintilar das brasas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sándor Márai (1900-1989) nasceu na hoje Eslováquia. Tornou-se um escritor húngaro, formando-se numa das antigas cidades do Reino da Hungria. Eram vilarejos fundados por imigrantes alemães desde a Idade Média tardia. Márai tinha múltiplas raízes que permitiam considerar-se em casa. Na biblioteca de seus pais havia romances de Goethe, Schiller, Petöfi, Arany, também, romances simbolistas franceses e livros de grandes romancistas russos. Entretanto, o elemento unificador foi o húngaro, sua língua materna. Com a destruição da Monarquia, transfere-se para Budapeste e estuda direito. Viajou pelo mundo e casa-se em 1923, mudando-se para Paris. No final dos anos 20, convenceu-se a voltar para sua terra natal. Voltou pelo apelo da língua. Instalou-se em Budapeste. Quando sua obra é premiada pelo sucesso, aparecem os primeiros sinais de um profundo mal-estar existencial, que nunca mais o abandonará. Isso inspira o longo monólogo do velho e rancoroso general de As Brasas. Quando o nazismo provoca uma nova onda de imigração para o Ocidente, resolve exilar-se dentro de sua própria casa. Ele sobreviverá sendo mais forte que todo o resto. Em 1948, quando a Hungria aboliu a democracia parlamentar, abandonou o país para sempre. Seus livros foram banidos da Hungria por 40 anos. Recentemente voltou a ter fama em seu país e no exterior. Sua vida tem muito a ver com o duelo de quarenta e um anos revelados em As Brasas. “O homem compreende o mundo um pouco de cada vez e depois morre”, disse Henrik. &lt;br /&gt;Assim foi com o escritor, Sándor Márai.&lt;br /&gt;Fonte: Marinella d’Alessandro&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1309944541067339464-7298199215570060054?l=livrocomocultura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/feeds/7298199215570060054/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1309944541067339464&amp;postID=7298199215570060054' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7298199215570060054'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1309944541067339464/posts/default/7298199215570060054'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrocomocultura.blogspot.com/2009/11/as-brasas-de-sandor-marai.html' title='AS BRASAS DE SÁNDOR MÁRAI'/><author><name>Reca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10301231364281051415</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='27' src='http://2.bp.blogspot.com/-R5GkUy_tQCE/Tzlc90Q_7nI/AAAAAAAAD8M/HngqEfJ9xos/s220/P8090155.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/Svhv3cQubVI/AAAAAAAABzg/n2UiVlOyS_M/s72-c/sandor_marai.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1309944541067339464.post-1034201163333883636</id><published>2009-10-27T17:12:00.002-02:00</published><updated>2009-10-27T17:48:25.408-02:00</updated><title type='text'>DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SudNzXIOejI/AAAAAAAABx4/YJEkYL7ZxVE/s1600-h/Hw-augustus.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 349px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SudNzXIOejI/AAAAAAAABx4/YJEkYL7ZxVE/s400/Hw-augustus.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397368223204014642" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SudNs3fB9KI/AAAAAAAABxw/EDVRYtYcaG8/s1600-h/criseimperioromano-fig2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 265px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4EXWXhTziv4/SudNs3fB9KI/AAAAAAAABxw/EDVRYtYcaG8/s400/criseimperioromano-fig2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397368111630513314" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edward Gibbon&lt;br /&gt;Reduzido por Dero A. Saunders &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(98-180 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No segundo século da era cristã, o império de Roma abrangia a mais bela parte da terra e o segmento mais civilizado da humanidade.” Suas fronteiras eram muito bem guardadas e a influência das leis e costumes proporcionou a união das províncias. Com a morte de Marco Antonio surgiu o declínio e queda deste império. As principais conquistas foram feitas na época da República. Os objetos de conquista eram preservados, pois essa era a política do Senado. Nos sete primeiros séculos desse império houve uma seqüência de triunfos. Contudo, com Augusto as coisas mudaram e houve uma grande moderação, pois ele achava perigosa uma expansão contínua. “Seus generais tentaram a conquista da Etiópia e da Arábia Feliz (Iêmen)”, não obstante, o próprio clima abrasador os venceu. Quando morreu deixou um testamento com “a recomendação de confinarem o Império aqueles limites que a Natureza parecia ter-lhe estabelecido como baluartes e fronteiras permanentes: a oeste, o oceano Atlântico; o Reno e o Danúbio ao norte; o Eufrates a leste; e, para o sul, os desertos arenosos da Arábia e da África.” Esse conselho foi seguido por seus primeiros sucessores. A única conquista foi a aquisição da província da Britânia, pois “era um convite às armas”. A maior parte dessa ilha submeteu-se aos romanos. Essas tribos, que lutavam separadamente, foram subjugadas e escravizadas. Com o militar Trajano no poder, são rompidos os longos anos de paz. Ataca os belicosos dácios de além Danúbio. Esse povo desprezava a vida por acreditar nela após a morte. A Dácia passa a fazer parte do Império. Conquista, também, as ricas nações da Armênia, Mesopotâmia e Assíria. Com a morte de Trajano sobe ao poder Adriano, que livra essas províncias, restabelecendo os antigos limites de Augusto. Antonio Pio seguiu-se e era o oposto de Trajano, passando os vinte e três anos de sua administração fazendo longas jornadas a pé e de cabeça descoberta. “O sistema geral de Augusto foi igualmente adotado e uniformemente seguido por Adriano e pelos dois Antoninos.” Os reinados de Adriano e Antonio Pio foram de paz universal. “O terror das armas romanas dava peso e dignidade à moderação dos imperadores.” Todavia a paz era garantida por uma constante preparação para a guerra.  Com Marco Aurélio, ele e seus generais avançam contra os povos do Eufrates e Danúbio. “Mas à medida que se foi perdendo a liberdade pública pelo alargamento das conquistas, a guerra se aperfeiçoou gradualmente numa arte e degradou em negócio.” Os exércitos eram comandados por “oficiais de nascimento e educação liberal; os soldados rasos, como as tropas mercenárias da Europa moderna, recrutavam-se, contudo, entre as camadas mais baixas...” Quando um homem se unia ao serviço militar fazia um juramento que se cobria de muita solenidade, havendo assim patriotismo e honra. Existia grande rigor dentro do exército romano e os exercícios de guerra jamais eram relegados, mesmo em tempos de paz. “A ciência da tática foi cultivada com sucesso, e enquanto o Império logrou manter seu vigor, sua instrução militar era respeitada como o modelo mais perfeito da disciplina romana.” A Britânia compreendia toda a Inglaterra, Gales e as Terras Baixas da Escócia até Edimburgo.  Hispânia, Gália e Britânia eram habitadas pela mesma raça de selvagens. Augusto dividiu a Itália em onze regiões. A Áustria também se encontrava dentro do império romano. “Não obstante a mudança de senhores e de religião, a nova cidade de Roma, fundada por Constantino às margens do Bósforo, permaneceu sendo desde então a capital de uma grande monarquia.” Também as repúblicas imortais da Grécia passam a fazer parte do Império romano.  As províncias romanas da Ásia ficavam dentro do domínio turco. A Síria, conquistada, passou a ser a fronteira oriental do Império. A Fenícia ofereceu o alfabeto à Europa e América e a Palestina a religião. O Egito, por sua localização, foi colocado dentro da península da África, mas seu acesso feito através da Ásia, pela qual sempre foi influenciado.   O rio Nilo corta o país em oitocentos quilômetros, marcando com suas inundações as faixas de fertilidade. O Egito era a mais característica província africana desse império. A África separa-se da Hispânia pelo estreito de vinte quilômetros e através dele o Atlântico flui para o Mediterrâneo. No sopé da montanha européia temos instalado a fortaleza de Gibraltar. Os exércitos turcos conquistaram Creta, Chipre e muitas das ilhas menores da Grécia e Ásia. O Império romano tinha três mil quilômetros de largura, o limite da Dácia, seguindo ao Monte Atlas, e o trópico de Câncer, e seu comprimento era de 4.800 quilômetros do oceano ocidental ao Eufrates. A maior parte da terra era fértil e cultivável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alexandre plantou os troféus macedônicos nas ribas do Hyphasis”. Contudo Gengis Khan e seus mongóis estenderam, por um período, seus domínios do mar da China até o Egito e Germânia. O império romano foi preservado. Na época de Trajano e dos Antoninos, “o princípio geral de governo era prudente, simples e benéfico. O culto religioso era respeitado e poder-se-ia chegar até a “igualdade com seus conquistadores”. O domínio romano foi, nessa época, o melhor e as províncias unidas pelas leis e adornadas pelas artes. A tolerância reinava nesse vasto Império. As deidades dos milhares de rios e bosques exerciam, em paz, influência local. “Era tal o espírito conciliador da Antiguidade que as nações atentavam menos na diferença que na semelhança de seus cultos religiosas”. Os filósofos da Grécia preocupavam-se mais com a natureza do homem que da de Deus. Os estóicos e os platônicos tendiam a reconciliar “os interesses conflitantes da razão e da piedade”. Os epicuristas tinham uma índole menos religiosa. “Cícero condescendia em empregar as armas da razão e da eloqüência, mas a sátira de Luciano era uma arma muito mais adequada e eficiente.” Os filósofos da Antiguidade postulavam a dignidade e a liberdade da razão, mas se submetiam aos ditames das leis e costumes. Sendo os próprios magistrados filósofos, as escolas de Atenas proveram as leis ao Senado. Encorajavam os festivais religiosos que “humanizavam os costumes do povo.” Esse era um cômodo instrumento político. Roma estava sempre repleta de forasteiros dos mais diferentes locais do mundo, os quais podiam introduzir as superstições favoritas de seus países de origem. Em Atenas, no seu auge, o número de cidadãos decresceu de 30 mil para 21 mil. “Num governo democrático, os cidadãos exercem os poderes de soberania; se esses poderes forem outorgados a uma multidão insubmissa, serão a princípio malbaratados e mais tarde se perderão”. A Itália pretendia-se a residência dos imperadores e do Senado.  O Estado e cidades livres que concordavam com Roma obtinham uma aliança nominal mas, devagar, acabavam em servidão.  Sêneca observou que “onde quer que os romanos conquistem, aí se fixam.” Quarenta anos após a submissão da Ásia, 80 mil romanos foram mortos, em um dia, por ordem de Mitriades (inimigo dos romanos). As colônias romanas eram a “imagem de sua grande pátria-mãe.” A maior parte dos súditos adquiria o benefício das leis romanas. Os romanos obrigavam o uso da língua latina sobre os povos conquistados, assim como fizeram os árabes mais tarde. “Os países ocidentais se civilizavam pelas mesmas mãos que os subjugavam.” Os gregos eram diferentes, pois há muito eram civilizados e corrompidos. Tinham muito gosto e vaidade para se submeterem aos conquistadores, que desprezavam. “Em suas cortes pomposas, esses príncipes uniam a elegância de Atenas ao luxo do oriente.” A Síria e o Egito também foram dominados, mas rechaçavam a cidadania e costumes romanos. “Roma vitoriosa foi subjugada, ela própria, pelas artes da Grécia.” Não obstante, a língua latina era mantida na administração do governo civil e militar.  A língua grega e latina era falada por quase todos os súditos mais versados. O direito de vida e morte de um escravo foi reservado apenas aos magistrados e aboliram-se as prisões subterrâneas. Os escravos inteligentes eram ensinados nas artes e nas ciências. Um escravo liberto poderia enriquecer, se fosse culto. O número de escravos aproximou-se ao número de cidadãos livres do mundo romano. A autoridade dos Imperadores se difundia por toda a extensão do domínio. Os belíssimos monumentos romanos pouco resistiram ao tempo e à barbárie. Várias dessas obras foram edificadas pela iniciativa privada, visando o benefício público. Trajano e os Antoninos encorajaram as artes. Entre os beneficiadores privados estava Herodes Ático, ateniense da época dos Antoninos. Ele foi educado pelos melhores e capazes preceptores da Grécia e Ásia, tornando-se um orador famoso, retirando-se para Atenas e em pequenas vilas. Dedicou à sua esposa um teatro com proporções não vistas no Império. Esses monumentos eram adornados com belíssimas pinturas e esculturas gregas. Havia também bibliotecas, balneários, arcos, templos, anfiteatros e tudo isso à disposição de todos os cidadãos. Na África e Ásia a numerosa população dependia dos suprimentos de água fresca trazida artificialmente. Nas florestas da Britânia as cidades de York, Londres e Bath foram beneficiadas pelos romanos.  Nas cidades da Gália – Paris, Marcelha, Arles, Nimes, Narbona, Tolosa, Bordeaux, Autun, Viena, Lyon, Langres e Treves também houve grandes construções edificadas pelo Império.  “No tocante à Hispânia, esse país floresceu como província e decaiu como reino”, já que foi vitimado pela América e pela superstição. Nas províncias do Oriente o contraste entre a beleza romana e a barbárie turca era verificada. Todas essas cidades estavam interligadas à capital por estradas públicas que partiam do Foro de Roma, terminando nas fronteiras do Império. A extensão delas alcançava 4800 milhas romanas (6018 quilômetros).  Eram construídas de várias camadas de areia, cascalho, argamassa e pavimentadas com pedras grandes ou, em determinados trechos próximos à capital, com granito! As comunicações por mar estavam desimpedidas. O mundo ficara livre para o intercambio. Diversos artigos eram importados do Oriente como flores, ervas, frutos e a vinha. O cultivo do linho trazido para a Gália. As pastagens artificiais ocasionaram a garantia de alimento durante o inverno. A atividade da pesca e a agricultura foram disseminadas. “No Império Romano, o trabalho das pessoas diligentes e engenhosas era variado, mas incessantemente utilizado a serviço dos ricos.” Diversos países do mundo antigo foram saqueados a favor de Roma. As mercadorias orientais eram luxuosas e fúteis como a seda, substâncias aromáticas, pedras preciosas e pérolas.   Por parte do Império somente a prata era exportada. “Essa longa paz e o governo uniforme dos romanos instilaram um lento e secreto veneno nos órgãos principais do Império.” “Os espíritos de maiores aspirações recorriam à corte ou ao estandarte dos imperadores; e as províncias desertadas, privadas de união ou força política insensivelmente decaíam na lânguida indiferença da vida privada.” Homero e Virgílio eram traduzidos, a física e a astrologia aceitas. Os grandes nomes da Antiguidade eram estudados e abrigados, porém não havia nenhum progresso próprio a fim de avançar o intelecto humano. Os romanos, acomodados, não criaram nada de novo e assim foram enfraquecidos e dominados pelos “impetuosos gigantes do norte” que os abateram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Monarquia é um sistema, onde uma só pessoa, “incumbe a execução das leis, o controle da fazenda pública e o comando do exército.” Essa autoridade geralmente se transforma em despotismo. A influência do clero é sempre muito mal vinda, pois raramente se dispõe a cuidar do povo. Desse modo, “todas as barreiras da Constituição romana haviam sido arrasadas pela vasta ambição do ditador, todos os obstáculos extirpados pela mão cruel do triúnviro.” Surge Otaviano e Augusto. A constituição se enfraquecera e o Senado perdera a dignidade. Os republicanos tinham perecido no campo de batalha ou ido ao exílio. Os políticos traziam desonra ao Império. Augusto, eleito censor, juntamente com Agripa, expulsou poucos membros e estimulou alguns a renunciar para evitar o descrédito. Ele destruía a independência do Senado. “Os princípios de uma Constituição livre se perdem irrevogavelmente quando o Poder Legislativo é nomeado pelo Executivo.” Augusto, ambicioso e populista, consente em aceitar o governo das províncias e “o comando geral das tropas romanas sob os notórios títulos de proconsul e imperator”, por dez anos. Essa farsa era uma atitude já conhecida no Império Romano, com monarcas perpétuos. Como príncipe, tornava-se senhor de Roma e da Itália. Augusto permitiu ao “Senado conferir-lhe, por toda a vida, os poderes dos cargos consular e tribuníci.” Tornara-se totalitário e despótico, mas exercia “uma monarquia absoluta disfarçada em forças republicanas.” A deificação dos imperadores romanos foi bastante longe, transferindo-se dos reis para os governadores da Ásia. Os magistrados eram adorados como deidades provinciais. A adulação espalhava-se por todos os rincões. Era possível tornar-se Deus por decreto solene. O título de Augusto era uma distinção pessoal e o de César familiar. O primeiro era sempre reservado ao monarca e o segundo a seus aparentados.  Caráter de Augusto: “cabeça fria, coração insensível e disposição covarde o haviam induzido a assumir desde os dezenove anos de idade, a máscara da hipocrisia que nunca mais pôs de lado.” Contudo acabou como pai do mundo romano. Ele tinha certeza de que a humanidade era governada por títulos.  A insolência dos exércitos preocupava Augusto. Os imperadores “eram eleitos pela autoridade do Senado e com o consentimento dos soldados.” Mas um trono desocupado é um momento cheio de discórdias e perigos. Diversos imperadores se seguiram, segundo a tradição romana. Sob o reinado de Adriano o Império floresceu em paz e prosperidade, encorajando as artes, reformando as leis e assegurando a disciplina militar. Sua personalidade era curiosa e vaidosa. Ele escolhe dois Antoninos para sua sucessão, que governaram o mundo com sabedoria por 42 anos.  Eles foram bons e justos administradores. “A idade áurea de Trajano e dos Antoninos fora precedida por uma idade de ferro.” Foram eles Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Vitélio e Domiciano... “Durante oitenta anos Roma gemeu sob uma tirania ininterrupta, que exterminou as antigas famílias da República...” Os romanos foram subjugados e oprimidos. Os pensadores assimilaram dos filósofos gregos as mais justas e generosas noções da dignidade humana e da origem da sociedade civil!  O império romano se espalhava pelo mundo e quando caiu nas mãos de um só indivíduo, esse mundo se transformou numa prisão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(180-248 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A brandura de Marco era a parte mais falha de seu caráter.  Seu discernimento era enganado pela sua bondade. Cômodo, filho de Marco e da depravada Faustina, aos quinze anos sobe ao poder. Durante os 31 anos de seu reinado, os sábios conselheiros de Marco tiveram ascensão sobre o homem.  Em 183 D.C. um assassinato, a mando do Senado, é articulado, mas o ato é frustrado e o criminoso revela o nome dos conspiradores. Tratava-se de sua irmã Lucila, que é morta. Cômodo depois de matar várias pessoas leais, confia os assuntos públicos a Perene, ministro servil e assassino. Ele aspirava ao trono, mas é executado. Isso se deveu às legiões da Britânia, que marcharam até Roma e exigiram a punição de Perene. Cleandro sucede Perene e era um ex-escravo. Todos os sentimentos virtuosos já haviam se extinguido da mente de Cômodo que era odiado pelo povo, totalmente oprimido. ‘“No original, o restante deste capítulo e os três subseqüentes, são um melancólico registro da crescente inquietude militar...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(248-285 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dos grandes jogos seculares celebrados por Felipe, em 248 D.C., até a morte do imperador Galieno, em 268 D.C., decorreram vinte anos de opróbrio e infortúnio.” Surgem os godos da grande ilha da Escandinávia. Eles e os suecos eram membros diferentes da mesma monarquia.  Além deles, a oeste, espalhavam-se tribos de vândalos. As semelhanças entre esses povos denotavam que eram originalmente um só povo. Na época dos Antoninos estavam na Prússia. Em setenta anos houve a segunda migração dos godos do Báltico ao Euxino. Eles se predispunham às aventuras mais perigosas. As nações da Germânia combatiam sob o estandarte dos godos. Esses povos e da Sarmácia se distinguiram “por cabanas fixas ou tendas móveis, por uma vestimenta apertada, de peças graciosas, pelo casamento com um ou mais esposas, por uma força militar consistente... e, sobretudo pelo uso da língua teutônica ou eslavônica, a qual foi difundida pela conquista desde os confins da Itália até as vizinhanças do Japão.” Décio haveria de combatê-los e enfrentá-los, contudo, vitorioso, reforça as defesas do Danúbio. Valeriano, censor, seria eleito pelo Senado. Décio perde a vida lutando contra os godos, que preferiam a morte à escravidão. Seu filho também morre. Os bárbaros eram mais altos e acostumados com o charco. O título vai para seu filho Hostiliano. Instala-se uma guerra civil. Os bárbaros foram desbaratados e expulsos por Emiliano além-Danúbio. O assassinato de Galo e de seu filho pôs fim à guerra civil. Emiliano era moderado, porém vaidoso. Quatro meses depois ele cai e Valeriano, perto de sessenta anos, veste a púrpura. Os inimigos mais perigosos do império, nos reinados de Valeriano e Galieno, foram os francos, os alamanos, os godos e os persas. Nesse período um incontável número de assaltos dos bárbaros acontece e continua e escalada de conquistas dos godos. Trezentos anos de paz entre os habitantes da Ásia aboliram os exércitos e foi dissipada a apreensão de perigo. Os godos continuam a avançar até que a frota gótica ancora a oito quilômetros de Atenas, apossando-se da Grécia. Valeriano decide pessoalmente defender o Eufrates. Foi vencido pelos persas e feito prisioneiro por Sapor em 260 D.C. Émeso pilha os bens dos seguidores de Zoroastro. Sapor após por sítio a Cesaréia, capital da Capadócia, é acusado de ter sido inexorável e injusto com seus prisioneiros. O oriente tem o cruel Sapor. Valeriano foi o único imperador romano a cair em mãos persas. Galieno, seu filho, tornou-se proprietário único do Império Romano.  Logo que tomou posse do Império seu péssimo e frívolo caráter desnudou-se. Ele insultava com luxo a pobreza geral. Uma turba de usurpadores levantou-se contra ele. “Dos dezenove tiranos que começaram com o reinado de Galieno, não houve um só que tivesse desfrutado uma vida de paz ou sofrido uma morte natural.” Quando caiam, levavam junto exércitos e províncias. A fome e a epidemia que se seguiram, por alimentação escassa, devastaram o Império Romano de 250 a 265 D.C. “Cinco mil pessoas morreram diariamente em Roma...” Após Cláudio, inicia-se um período de notável recuperação para o Império. A pestilência foi o fato de assolação do povo godo em 270 D.C. e alcançou Cláudio que nomeou Aureliano para propor mais entendimento com o godos. Iniciaram a fortificação de Roma. Entregariam a Dácio os povos góticos. “Tanto a viúva Zenóbia quanto a Tétrico permitiu-se uma vida privada de opulência e bem-estar e o luxo da morte natural, mas o próprio Aureliano teve morte violenta através dos ardis de um secretário matreiro.” A capitulação de Zenóbia, presa e trazida a Roma foi a mais formidável celebração do Império Romano. O idoso Tácito é feito imperador e isso lhe apressou a morte, seis meses depois de eleito. Foi substituído por Pobro, que por seis anos conseguiu repelir inúmeras invasões bárbaras. Seu sucessor, Caro, combate os persas e é morto, sendo seguido por Diocleciano que assume em 285 D.C. “O mais ambicioso e o mais bem-sucedido reformador entre os últimos imperadores de Roma.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(285-313 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diocleciano rege com Maximiano, Galério e Constâncio. Diocleciano tivera os pais como escravos, mas seu pai tornou-se um escriba com ótima posição. Seu inteligente filho distinguiu-se com o governo da Mésia, as honras do consulado e como comandante do palácio. Seus talentos na guerra da pérsia foram inegáveis. Assim como Augusto, Diocleciano fundou um novo Império.  Ele admirava a filosofia humanitária de Marco Antonio.  Atendia a defesa do Oriente e do Ocidente. Maximiano nascera camponês como Aureliano. “A guerra era a única arte que professava.” Era moldado mais para obedecer do que para comandar, sendo valente e fiel soldado. Apesar das diferenças entre esses homens, mantinham no poder uma valiosa amizade. Os bárbaros atacavam o Império por todos os lados, exigindo grande vigilância e ótimo exército. Por problemas referentes à extensão do Império, Galério e Constâncio recebem “as honras segundas da púrpura imperial.” O império passa a ter quatro príncipes. Gália, Hispânia e Britânia ficam com Constâncio. Danúbio com Galério. Itália e África com Maximiano. Diocleciano reserva-se a responsabilidade da Trácia, Egito e das ricas regiões da Ásia. Inveja do poder era impensável. Apesar da habilidade política de Diocleciano, manter uma tranqüilidade constante foi impossível, em um reinado de vinte anos. O Oriente obteve uma grande calma por quarenta anos até a morte de Tiridates, quando uma nova geração empreendeu uma longa guerra “contra os príncipes da casa de Constantino.” Logo após um período de magníficas vitórias, os imperadores deixaram de vencer e “Roma deixa de ser a capital do Império.” Maximiano funda Milão que passa a ser, por sua localização, um local ideal para os imperadores. Enquanto residiam em Roma a presença dos príncipes era constante. O Senado fica acéfalo e a assembléia negligenciada. O império divide-se em quatro partes, sendo o Oriente e Itália as principais, contudo Danúbio e Reno eram mais trabalhosos. “A união política do mundo romano foi se dissolvendo aos poucos” e no decorrer dos anos a perpétua separação entre Ocidente e Oriente impõe-se. A manutenção desse Império era muito dispendiosa, com aumento de impostos e opressão ao povo. As províncias viram-se exploradas pelo peso dos tributos. Deste modo, “foi no vigésimo primeiro ano de seu reinado que Diocleciano levou a cabo sua memorável decisão de abdicar o Império...” Retira-se para Dalmácia. Maximiano abdica com muita relutância. Fora obrigado por Diocleciano a fazê-lo. Houve incursões de bárbaros, abusos, despotismo após sua abdicação por parte dos filhos de Diocleciano. A intelectualidade fenecera. “A voz da poesia emudecera.” Houve o surgimento dos neoplatônicos. “A escola de Alexandria silenciou as de Atenas e as antigas seitas se alistaram nas hostes de mestres mais em moda, que encareciam seu sistema pela novidade do método...” “Todo o âmbito da ciência moral, natural e matemática era negligenciado pelos neoplatônicos.” Esses homens “exauriram seu talento nas disputas verbais da metafísica”... e se empenharam em reconciliar Aristóteles com Platão acerca de assuntos em que ambos os filósofos eram tão ignorantes quanto o restante dos homens.” “Jactavam-se de possuir o segredo de desembaraçar a alma de sua prisão corpórea....converteram o estudo da filosofia em estudo da magia...Os neoplatônicos dificilmente mereceriam um lugar na história da ciência, mas na Igreja a menção de seus nomes ocorrerá com freqüência.” &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;(305-324 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder moderador de Diocleciano só subsistiu aos longos anos de seu império por sua mão “firme e destra.” Tão logo Diocleciano e Maximiano abdicaram a púrpura foram substituídos por dois Césares: Constâncio e Galério. O primeiro príncipe continuou a administrar a Gália, Hispânia e Britânia, com seu caráter afável. Tinha a modéstia de um príncipe romano. O impetuoso Galério era muito diferente, “o triunfo da guerra persa lhe havia exaltado a mente soberba”. Eles foram elevados à posição de Augusto. Dois novos Césares tomaram-lhes o lugar.  Eram Maximino, homem rústico, com o Egito e Síria e Severo com Itália e África. Os planos gloriosos desses homens não se realizaram. Constâncio obteve uma fácil vitória sobre os bárbaros da Caledônia e terminou a vida no palácio imperial de York. Sua morte imediatamente elevou Constantino, que só se apresentou quando o saudaram como Augusto e imperador. Ele informa ao outro imperador a morte de seu pai. Galério, irado, ameaça por fogo na carta, mas o reconheceu como o soberano das províncias além-Alpes, porém com o título de César e no quarto lugar entre os príncipes. Seu favorito, Severo, foi ao lugar vacante de Augusto. Constâncio estava com 32 anos e em plenitude física e mental. A longa ausência de imperadores fez com que os romanos sentissem descontentamento e indignação. Os privilégios da Itália “não eram mais levados em conta”. Novos tributos foram criados. Um obscuro estrangeiro foi elevado ao trono da Itália, para que ele pudesse governar sem obstruções de outros. Surge uma conspiração. O imperador Severo corre para Roma a fim de pacificá-la, mas encontra os portões da cidade fechados e as muralhas repletas de soldados. Sua frota, por mar, viria em seu auxílio da Ilíria e do Oriente, todavia Maximiano levou-o cativo para Roma e só pode obter “uma morte tranqüila e um funeral imperial.” Ele “confere ao genro e aliado o título de Augusto.” Maximiano pensara em um prudente sistema de defesa. Galério faz a primeiras tentativas de reconciliação com o astuto imperador, mas em vão. Galério deu finalmente a ordem de retirada. “Os atos de Constantino eram guiados pela razão e não pelo ressentimento”, assim não mais detestou Galério, que foi investido na púrpura. Maximino ao saber da promoção, no Oriente, desdenhou o título inferior de César. Pela primeira vez o Império romano é administrado por seis imperadores e o Império fica dividido em dois poderes hostis. Quando Maximiano abdicou do Império os oradores subornáveis aplaudiram sua filosófica moderação. Constantino era casado com a filha de Maximiano, imperatriz Fausta. Uma invasão dos francos obriga Constantino partir para as margens do Reno e outra parte do exército estaciona na Gália. Constantino ataca o sogro que tenta apoderar-se da púrpura imperial. Maximiano mata-se. Galério morre em Nicomédia. Dois imperadores disputam o domínio. As mortes desses dois príncipes reduziram a quatro o número de imperadores. Licínio une-se a Constantino, o qual brilhava em suas atitudes. Maxêncio era depravado e cruel.  “A riqueza de Roma supria fundos inesgotáveis para cobrir as fátuas e pródigas despesas de Maxêncio, e os ministros de seu fisco eram hábeis nas artes da rapina.” Maxêncio, o execrável, considera-se o único imperador. Nutria aversão pelo Senado, o que “caracterizava a maioria dos anteriores tiranos de Roma.” A vida dos senadores ficava à mercê de suas suspeitas. Os únicos a quem respeitava eram os soldados, enchendo Roma e a Itália de tropas armadas, contudo nunca conseguira a estima de seu exército, por suas terríveis faltas. Constâncio, apesar de não gostar de Maxêncio não lutou contra seus atos, mas, por fim, em nome do senado e do povo, os embaixadores conjuraram-no a livrar Roma do tirano detestado. Desse modo resolveu “atacar o inimigo e levar a guerra até o coração da Itália.” Maxêncio tinha uma notável força militar de 80 mil soldados e Constantino 90 mil na infantaria e 8 mil na cavalaria. Marchou ao encontro do inimigo. Maxêncio encontrava-se certo da conquista, mas sofreu pela falta de experiência e fraco caráter. Os Alpes eram naturalmente guardados pela Natureza. Susa é atacada, no entanto, preservada da destruição total. Os soldados do oriente usavam armaduras, assim como seus cavalos o que conferia um aspecto assustador. Contudo, derrotados, fugiram em desordem para Turim, que lhes fechara os portões. O vitorioso, entrando no palácio imperial de Milão, recebeu o reconhecimento de todas as cidades italianas entre os Alpes e o Pó, que abraçaram sua causa. “A luz do novo dia iluminou a vitória de Constantino e um campo de carnificina coberto de milhares de cadáveres de italianos vencidos.” “Verona rendeu-se incondicionalmente.” Constantino se destacava no campo de batalha, porém Maxêncio preocupava-se apenas com o prazer e seus recursos eram consideráveis, apesar de tudo. Ele não tinha a menor intenção de chefiar pessoalmente seu exército, mas foi forçado a “sair a campo”. Contudo o povo romano já o desprezava. Constantino continua em um célere avanço e “58 dias decorreram entre a rendição de Verona e a decisão final da guerra.” Constantino acreditava que o inimigo preservaria seus homens e os vastos depósitos de víveres de seu povo. Nada disso ocorreu e deparou-se, em Saxa Rubra, com o exército de Maxêncio. Constantino atacou em pessoa a cavalaria do rival e os bravos pretorianos não conseguiram recuperar a vitória. Os soldados atiraram-se, aos milhares, nas fundas e rápidas águas do Tibre. O imperador foi forçado para dentro do rio, onde se afogou com o peso da armadura. Sua cabeça exposta para o povo persuadiu os romanos de sua libertação, aplaudindo o vencedor Constantino. Ele havia conseguido a neutralidade de Licínio, o imperador ilírio: prometera sua irmã Constância em casamento. Uma invasão dos francos obrigou-o a partir para o Reno e a aproximação do soberano da Ásia forçou a presença de Licínio. O imperador do Oriente tinha um exército de 70 mil homens e Licínio 30 mil, o que não foi fundamental para uma vitória com soldados disciplinados. Maximino foge derrotado, morrendo em Tarso. Esse fato não foi lamentado por ninguém. O mundo romano tinha dois senhores, Constantino no Ocidente e Licínio no Oriente. Após um ano da morte de Maximino os dois imperadores “voltam suas armas um contra o outro.” Atacado por Constâncio, Licínio retira-se prudentemente, outorgando o título de César a Valente, seu general de fronteira. A batalha trava-se na Trácia e a tropa de Licínio retira-se para as montanhas da Macedônia. Valente é obrigado a abdicar e morre dias depois de receber a púrpura. Constantino, porém, não vê com bons olhos um terceiro confronto armado e permite ao inimigo a posse da Trácia, da Ásia Menor, da Síria e do Egito. Mesmo assim os domínios de Constantino vão dos confins da Caledônia até a extremidade do Peloponeso. A reconciliação de Constantino e Licínio permitiu mais oito anos de tranqüilidade. Os godos respeitaram o poderio do Império romano, mas uma nova geração precipita-se contra eles. Constantino triunfa e eles se retiram. Constantino não suportava continuar com um parceiro como Licínio no Império e busca sua destruição, mas o idoso imperador contra ataca Constantino, entretanto não aproveita sua supremacia naval e deixa-se derrotar pela conduta intrépida de Constantino.   Licínio possuía tal habilidade e talento que arregimentou, apesar de todas as derrotas, outro exército de 60 mil homens na Bitínia, enquanto o inimigo estava voltado para o sítio de Bizâncio. As tropas de Licínio, apesar de sua bravura, foram forçadas a uma derrota total. Ele se retira para Nicomédia e sua esposa, irmã de Constâncio, intercede a favor do marido. “Licínio teria permissão de passar o restante de sua vida em paz e opulência.” Constâncio passa a unificar o Império romano sob uma só autoridade. Como conseqüência advém o estabelecimento do cristianismo e a fundação de Constantinopla. O cristianismo firma-se graças ao zelo dos europeus, que levaram a religião a outros continentes, inclusive ao Mundo Novo. Entretanto, falta de informações esclarecedoras impossibilita desvendar claramente os primórdios do cristianismo. Essa religião pura e humilde foi insinuando-se na mente dos homens, crescendo silenciosa e obscuramente. A bandeira da Cruz se eleva por sobre as ruínas do Capitólio. Após catorze séculos, a religião é ainda professada nas nações da Europa. Ela se difundiu grandemente até as distantes regiões da Ásia e África e se estabeleceu do Canadá ao Chile, “num mundo desconhecido dos antigos.” “O escândalo do cristão piedoso e o falaz triunfo do infiel devem ter fim tão logo se disponham a lembrar não apenas por quem, mas igualmente a quem, foi dada a Revelação Divina... Por que meios obteve a fé cristã vitória tão notável sobre as religiões estabelecidas no mundo. A tal indagação se pode dar uma resposta óbvia, mas satisfatória de que foi graças à convincente evidência da própria doutrina e à divina providência de seu grande Autor.” O desenvolvimento do cristianismo parece ter tido cinco causas. I. O inflexível zelo e intolerância dos cristãos. II. A doutrina de uma vida futura recebida como importante verdade. III. Os poderes miraculosos da Igreja primitiva. IV. A pura e austera moralidade dos cristãos. V. A união e disciplina da república cristã, que formou um Estado independente no seio do Império romano. O judaísmo, definhado e escravizado, volta sob os sucessores de Alexandre, suscitando curiosidade em outras nações. Esses homens com ritos peculiares “mal escondiam sua implacável aversão ao resto da raça humana.” Augusto concedeu, em prol de sua prosperidade, que sacrifícios fossem feitos no templo de Jerusalém.  O apego pela religião judaica igualava seu ódio pelas religiões estrangeiras. Essa religião se adequava à defesa, mas não à conquista, pela sua intransigência. Através de Abraão, a Deidade conferiu-lhe um sistema de leis e cerimônias, declarou-se o Deus privativo e nacional de Israel e separou esse povo das outras nações. A conquista sangrenta de Canaã deixou-os irreconciliáveis para todos os vizinhos. O cristianismo oferece-se com mais brandura. O judaísmo considerava que o Profeta seria um rei conquistador e não mártir e filho de Deus. A iniciação não era mais pelo sangue, mas sim pela água. A promessa do favor divino torna-se universal e não mais de um só povo. Toda a humanidade beneficiar-se-ia de conforto espiritual e de um lugar no céu. Os judeus convertidos parecem ter alegado a origem da lei mosaica e as imutáveis perfeições de seu Autor. Entretanto alguns teólogos explicaram a linguagem ambígua do Velho Testamento. Os nazarenos da época continuaram a insistir na necessidade e validade das leis mosaicas, mas voltaram a integrar-se no corpo da Igreja cristã. “o relato mosaico da criação do homem era tratado com profana derrisão pelos gnósticos”, que não suportavam a teoria do repouso após seis dias de trabalho, da costela de Adão, do jardim do Éden, das árvores da vida e do conhecimento, da serpente falante, do fruto proibido e do pecado venial de seus pais primeiros. Toda arte que possuísse ornamentação de ídolos era considerada como idolatria. Isso era considerado espírito infernal em qualquer ramo das artes. As obras dos filósofos da Antiguidade testemunhavam erros e ignorância quanto à imortalidade da alma para essas pessoas. A razão desses sábios foi guiada pela imaginação e esta incitada pela vaidade. Os antigos cristãos possuíam um desprezo pela vida presente e absoluta confiança na imortalidade. Na igreja primitiva era crença geral que o fim do mundo e o reino dos céus estavam iminentes. Ao mesmo tempo em que a glória e felicidade de um reinado temporal eram prometidas aos seguidores de Cristo, as mais horríveis calamidades contra o mundo incrédulo eram anunciadas.  A igreja cristã, desde os primeiros tempos, alegava uma sucessão ininterrupta de poderes miraculosos, desde o dom de línguas até ressuscitar os mortos e curar os enfermos. No fim do século II, a ressurreição de mortos não era considerada um feito muito raro. A moralidade pura e austera dos cristãos era demonstrada por meio de suas virtudes. O arrependimento dos pecados e a defesa da sociedade em que se haviam engajado eram exemplos de virtude. Eles reconhecem que alguns de seus santos foram grandes pecadores, antes de professar a fé cristã e se arrependeram. À medida que eram muito perseguidos uniam-se mais uns aos outros. Para colocar o Evangelho acima da sabedoria filosófica, os fundadores da Igreja levaram “os deveres de purificação, de pureza, de paciência a um extremo quase impossível de atingir e menos ainda de manter em nosso presente estado de fraqueza e corrupção.” A casta severidade da natureza sensual do homem era ressaltada.  “A ligação carnal se refinava num símile da união mística de Cristo com sua Igreja...” Mas seu amor à ação nunca pode ser eliminado de todo. A segurança dessa nova sociedade suscitava um sentimento patriótico igual aos dos primeiros romanos com relação à república. “Optaram por tolerar antes alguns escândalos de faccionismo e divisão do que excluir os cristãos de uma época futura de liberdade de variar suas formas de governo eclesiástico, em conformidade com as mudanças dos tempos e circunstâncias.” A funções públicas da Igreja eram confiadas aos ministros oficiais, aos bispos e aos presbíteros, mas logo seria necessário um presidente. Foi quando o alto título de bispo começou a sobrepujar a humilde designação de presbítero. Isso ocorre antes do século I. Quando morria o portador da presidência episcopal, escolhia-se um novo presidente pelo sufrágio de toda a congregação, pois os membros se julgavam investidos de caráter sagrado e sacerdotal. Cada comunidade formava uma república separada e independente. Os cristãos não estavam unificados por nenhuma autoridade suprema ou assembléia legislativa. Uma correspondência regular foi estabelecida e a “Igreja católica assumiu a forma e adquiriu a solidez de uma grande república federativa.” No século III os prelados converteram “a linguagem da exortação em linguagem de comando... suprindo com alegoria e retórica declamatória das escrituras suas deficiências de força e de razão.” Os bispos tornaram-se os delegados de Cristo e sucessores dos apóstolos. A diferença de mérito e reputação entre os bispos começaram a ser sentidas agudamente.  A multidão era dominada pela eloqüência de poucos. Uma rivalidade surge entre os bispos. A Igreja romana era a maior e mais numerosa do Ocidente além de tudo a mais antiga de todas as Igrejas cristãs. Os bispos de Roma “reivindicavam a herança de quaisquer prerrogativas que fossem atribuídas ou à pessoa ou ao cargo de São Pedro.” O amor ao poder dos bispos e mártires aumentou o número de seus súditos, conseqüentemente do Império cristão. Adotavam recompensas e punições a seus fiéis. Estes vendiam tudo para doar o dinheiro às Igrejas, empobrecendo, assim, sua prole que se tornava miserável. “Uma parte razoável desse dinheiro estava reservada à manutenção do bispo e seu clero.” O dinheiro era também distribuído para os órfãos, viúvas, aleijados, enfermos e peregrinos. As congregações menores recebiam esmolas de seus confrades mais abastados. Dentre as punições da igreja primitiva estava a excomunhão temporal e espiritual. O indivíduo tornava-se objeto profano de aversão das pessoas que mais havia amado. As doutrinas de excomunhão e penitência eram a parte mais importante da religião. Seria mais fácil desobedecer às leis de Deus do que desprezar as censuras e autoridade de seus bispos. O cristianismo espalhou-se pela Síria, Chipre, Creta, Corinto, Esparta, Atenas. Assim a igreja ortodoxa multiplicava-se, pela sua antiguidade. “O intenso comércio de Alexandria e sua proximidade da Palestina propiciaram fácil ingresso à nova religião.” Os cristãos de Roma, na época de Nero, já formavam uma enorme multidão e os cristãos africanos eram um dos membros principais da Igreja primitiva. Na gélida Gália o progresso da Igreja cristã foi mais lento. Lá não havia nenhum autor eclesiástico. “A nova religião, um século após a morte de seu Divino Autor, já havia visitado todas as partes do globo. Não existe nenhum povo, grego, bárbaro ou de qualquer outra raça de homens... que não ofereça suas preces, em nome de um Jesus crucificado, ao Pai e Criador de todas as coisas.” Entretanto, os bárbaros da Cítia e da Germânia viviam mergulhados nas escuridões do paganismo. Um evangelho imperfeito foi difundido na Caledônia, Reno e Danúbio. A filosofia, finalmente, se instaura entre os cristãos, entretanto “o saber foi tão amiúde pai da heresia quanto da devoção...” A ciência é relegada a favor da geometria e reverenciam nomes como os de Euclides, Aristóteles, Teofrasto e Galeno. O reino dos céus é prometido aos pobres de espírito e como conseqüência “os sábios abusam, em dúvidas e polêmicas, da vã superioridade da sua razão e do saber.” Sêneca, Plínio, Plutarco, Galeno, Epiteto e o imperador Marco Aurélio, entre outros, acreditavam na dignidade da natureza humana e livraram-se da superstição popular através da filosofia. A Igreja primitiva passa por 40 anos de paz e desenvolvimento. Os imperadores eram indiferentes a ela. Com Diocleciano as coisas mudaram radicalmente por uma década. “Gibbon calcula em cerca de 2 mil o número total de cristãos executados nesse período.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(300-500 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Constantino legou a herança do Império Romano, com nova capital, nova política e nova religião.  Roma foi se igualando aos reinos dependentes. O novo Imperador raramente visitava a antiga capital. “A memória de Diocleciano era justificadamente detestada pelo protetor da Igreja, e Constantino não se mostrava insensível à ambição de fundar uma cidade que pudesse perpetuar-lhe a glória do nome.” A posição de Bizâncio era incomparável, resguardada pela natureza contra os inimigos e ainda acessível ao intercâmbio comercial. Constantinopla, a cidade imperial, com suas sete colinas, dominava. Seu clima era ameno, o solo fértil e a baía grande e segura, tendo um fácil acesso pelo continente. Os mais variados e importantes produtos eram comercializados na região. Produtos coletados das florestas da Germânia, Cítia, bens da Europa, Ásia, Egito eram levados ao porto da capital, que por séculos atraiu o comércio do mundo antigo. Novas muralhas foram construídas nas cinco colinas, a fim de proteger a cidade de avanços bárbaros. Constantino exigiu que os mais valiosos ornamentos da Grécia e Ásia fossem depositados em Constantinopla, a fim de embelezar e glorificar ainda mais a cidade.  Ele concedeu a seus favoritos palácios construídos em vários bairros da cidade além de conceder terras e pensões, para aumentar o número de habitantes importantes.  A antiga capital ficara relegada ao esquecimento e a solidão. “Como o desenvolvimento de Constantinopla não pode ser atribuído ao desenvolvimento geral da humanidade e da indústria, tem-se de admitir que essa colônia artificial criou-se à custa das antigas cidades do Império.” Outra classe de habitantes surge: os serviçais, artífices e mercadores que tiraram seu sustento trabalhando para as classes dominantes. Constantinopla e Roma disputam em grandeza e número de habitantes. Gradualmente os cidadãos de Roma foram-se se corrompendo pela pompa grandiosa da Ásia. Surge o despotismo dos imperadores. A pureza da língua latina também se corrompia. A simplicidade dos primeiros tempos do Império romano é que proporcionou sua força, sustentabilidade e poder. Com o luxo e os gastos extraordinariamente altos, o Império veio abaixo.  “Os próprios imperadores, que desdenhavam a pálida sombra da república, tinham consciência de que se aureolavam de esplendor e majestade adicionais sempre que assumiam as honras anuais da dignidade consular.” Os cônsules e patrícios voltavam-se para a administração civil e militar desse mundo romano, adquirindo poder. Havia quatro prefeitos sob Constantino: O prefeito do Oriente, das importantes províncias da Panônia, Dácia, Macedônia e Grécia, o prefeito da Itália e o prefeito dos gauleses. Todos com imensos territórios. Tudo o que pudesse interessar à prosperidade pública era ajuizado pelo poder dos prefeitos pretorianos.  “Embora os imperadores não mais temessem a ambição de seus prefeitos, cuidavam de contrabalançar o poder desse alto cargo mercê da incerteza e brevidade de sua duração.” O poderoso Império foi dividido em 116 províncias, com uma cara e suntuosa estrutura governamental. Os governadores possuíam os poderes do próprio soberano. Constantino instituiu um cuidadoso equilíbrio entre os poderes civil e militar, contudo permitiu, com seus hábitos de luxo e negligência, que o Império fenecesse.  Os filhos de veteranos deveriam, por herança, devotarem-se ao exército tão logo chegassem à idade certa; “sua recusa era punida pela perda da honra, da fortuna e até da vida.” O alistamento de bárbaros no exército romano fez-se necessário. Eles eram citas, godos e germanos de grande bravura e ousadia e achavam mais rendoso defender do que pilhar as províncias inimigas.  Os ministros do palácio também contavam com grande influência e sofisticados títulos. Gibbon afirma que no fim de seu reinado, Constantino transformara-se em um “monarca cruel, mas dissoluto”. Seus vícios agravaram a “secreta porém geral decadência” visível em todo Império. Ele morre aos 64 anos e seus três irmãos dividiram o Império entre si. O cristianismo ia se estabelecendo como religião oficial, apesar do declínio do Império e das guerras, alterando sua estrutura social. A conversão de Constantino ao cristianismo foi gradual, tendo sido batizado em sua última enfermidade. “Os bispos e mestres cristãos tinham fácil acesso ao trono” e a Igreja recuperou-se e ainda obteve título legal das terras e propriedades perdidas sob Diocleciano. Os santuários foram sendo transferidos para as Igrejas cristãs. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(312-362 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os interesses dos romanos e dos bárbaros envolveram-se nas disputas teológicas do arianismo. Platão tenta entender Deus e o Universo. Logos poderia ser o filho de um Pai eterno e Criador e Regente do mundo. Essas doutrinas foram entendidas após um estudo de 30 anos. Os mais brandos judeus seguiram a filosofia de Platão. Todavia isso não satisfazia uma mente racional. Alguns admitiam que o filho de Deus tivesse nascido de uma virgem, mas todos discordavam da anterior existência e as divinas perfeições de Logos, ou Filho de Deus, tão bem definidas no evangelho de São João. A dificuldade da aceitação de Jesus como divindade para os filósofos foi grande. “O nome respeitável de Platão foi usado pelos ortodoxos e abusado pelos hereges como sustentáculo tanto da verdade quanto do erro...” O grande teólogo Atanásio quanto mais tentava entender isso “mais incapaz era de exprimir seus pensamentos.” Seis anos depois, no Concílio de Nicéia, formou-se a “consubstancialidade do Pai e do Filho”, como o artigo fundamental da fé cristã através das Igrejas latina, grega, oriental e protestante. Católico, etimologicamente, significa universal.  Com o tempo surgem dezoito modelos diferentes de religião e “desafrontou a violada dignidade da Igreja”. Hilário dizia que “É coisa de igual modo deplorável e arriscada, que existam tantos credos quanto opiniões entre os homens, tantas doutrinas quanto inclinações, e tantas fontes de blasfêmias quanto faltas entre nós; pois elaboramos credos arbitrariamente e arbitrariamente os explicamos.” Os ocidentais eram menos cultos e indagadores do que os orientais, assim aceitaram com docilidade a nova doutrina. Os latinos haviam recebido o conhecimento divino “pela via obscura e duvidosa de uma tradução.” Seu idioma era menos sofisticado do que o grego e palavras não adequadas e uma deficiência verbal podia acarretar uma série de equívocos ou perplexidades.   Mesmo assim mantiveram com firmeza a nova doutrina. O espírito de discórdia que se apossou das províncias do Oriente perturbou o triunfo de Constantino. Ele aconselha ao clero de Alexandria que siga o exemplo dos filósofos, que argumentavam sem perder a calma, afirmando “sua liberdade sem romper os laços de amizade.” Constantino ratifica o credo niceno e ameaça com o exílio os resistentes. Porém esses exilados, após três anos, foram chamados de volta e Eusébio volta ao trono episcopal. O governo de Constantino “não pode ser isentado da censura de leviandade e fraqueza.” Os filhos dele também adiaram o batismo. Amiano, estudando Constâncio, afirma: “As estradas reais se cobriram de bandos de bispos que, vindos de todas as partes, galopavam rumo à assembléia, que chamavam de sínodos; o sistema de postas públicas quase se arruinava por suas apressadas e repetidas jornadas.” Constâncio vivia atormentado pelo seu espírito que ora aceitava ora condenava os mesmos conceitos. O cristianismo é imposto por Constâncio. Ele impôs ao mundo uma “profissão de fé que estabelecia a aparência, sem exprimir a consubstancialidade, do Filho de Deus.” Atanásio, o arcebispo da Alexandria, ficou para sempre ligado à doutrina da Trindade. “O conhecimento da natureza humana era a primeira e a mais importante das ciências de Atanásio.” Esse homem sábio jamais “perdeu a confiança dos amigos ou a estima dos inimigos.” Porém, advém uma disputa entre as Igrejas ortodoxa e latina. O sucessor indicado de Atanásio foi o famoso Jorge da Capadócia. Os mosteiros egípcios estavam instalados em pontos desolados, no topo de montanhas ou ilhas do Nilo, com milhares de monges saudáveis e decididos: campônios da região circunvizinha. Atanásio passa seus anos de afastamento na companhia dos monges, os quais trabalhavam para ele como mensageiros, guardas ou secretários. Ocorre que os abusos do cristianismo geraram novas causas de tirania e insurreição no governo romano e os vínculos sociais civis foram “despedaçados pela fúria das facções religiosas.” Havia a prática de autodestruição dentro de algumas seitas religiosas. A experiência de Amiano prova que a inimizade dos cristãos entre si era pior do que a fúria dos animais selvagens contra o homem. Os filhos de Constantino aumentavam os hábitos de rapina e opressão e aceitavam o comportamento ilegal dos cristãos, assim como a demolição dos templos era tida como uma ocorrência auspiciosa do reinado de Constante e Constâncio. O culto pagão volta durante o período de governo desses homens, tanto no Oriente como no Ocidente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(360-363 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Juliano recebia entusiásticos louvores de todas as partes do império romano, a exceção do palácio de Constâncio. Ele era querido e amado por seus soldados e provincianos. Porém, suas virtudes eram alvo de inveja dos favoritos que se haviam oposto à sua elevação. Era o inimigo da Corte. Ofensas eram dirigidas a sua pessoa, mas esse vencedor dos alamanos e francos não podia mais ser motivo de desconsideração. Constâncio desejava roubar-lhe as glórias de seus esforços. O monarca enviou ordens ao jovem Juliano, em Paris, para que quatro legiões competentes inteiras – celtas, petulantes, hérulos e batavos - se desligassem de seu estandarte. Trezentos bravos jovens deveriam chegar às fronteiras da Pérsia. Desse modo a honra pessoal de Juliano estaria comprometida. Esse procedimento provocaria opressão nos guerreiros independentes da Germânia, que consideravam a “independência como a mais valiosa de suas posses.” Eles amavam Juliano e odiavam o imperador. Temiam o calor, “as setas dos persas e os desertos escaldantes da Ásia.” Estavam habituados ao clima frio. Juliano temia por seus soldados e não mais podia recorrer aos leais conselhos de Salústio, afastado de seu cargo. Esse general atormentado que era importunado por constantes mensagens imperiais, exprimiu “seu desejo e até sua intenção de renunciar à púrpura...” Porém teve de reconhecer que devia obediência e envia uma parte das tropas para os Alpes. Os homens de Constâncio alarmaram-se e finalmente marcharam por Paris, ao contrário do que Juliano havia aconselhado. O general dirigiu-se à multidão que o rodeava e advertiu-os sobre a subordinação devida. Depois de um silêncio foram enviados de volta aos quartéis. O ressentimento dos provincianos se transformou em conspiração e queixas. Perto da meia-noite, uma multidão armada cercou o palácio e gritou: “Juliano Augusto”. Ao amanhecer, os soldados, à força, “guardaram Juliano com espadas desembainhadas ao longo das ruas de Paris” e o aclamaram imperador. Os soldados preferiram a gratidão de Juliano à clemência do imperador. Ele só cedeu porquanto foi ameaçado de morte se não o fizesse. Entregou-se nas mãos de Júpiter, do Sol, de Marte, de Minerva e todas as outras deidades. Estava “predestinado a restaurar a antiga religião da humanidade.” Estava disposto a evitar um confronto com Constâncio, que era o imperador do Oriente, o mais poderoso. Em uma negociação reivindica somente o que já possuía: Gália, Hispânia e Britânia. Juliano, apesar da paz, se prepara para a guerra, como nos primeiros tempos do Império. Ele conquistou uma tribo de francos, considerada inacessível. Inspecionou os territórios recuperados dos alamanos e fixou-se em Vienne para o próximo inverno. Vadomair, príncipe dos alamanos, foi detido e enviado para a Hispânia. Juliano, após várias vitórias, tenta “renunciar”, mas é aclamado Augusto. “Leu-se posteriormente uma parte da carta em que imperador censurava a ingratidão de Juliano”, a quem havia educado e protegido desde a infância. Juliano professa: “Então o assassino de minha família censura-me por eu me ter tornado órfão?” Juliano renuncia ao catolicismo e à amizade de Constâncio. A testa de seu exército, corajosamente, atravessa o território bárbaro e emerge entre Ratisbona e Viena, onde embarcaria suas tropas no Danúbio. As margens estavam cheias de admiradores da pompa militar e do homem “à frente das inumeráveis forças do Ocidente.” Constâncio morre aos 45 anos no 24°ano de seu conturbado reinado. Antes de morrer consta que Constâncio havia escolhido Juliano como sucessor, pois estava casado com uma mulher jovem, carinhosa e grávida. O filósofo Juliano, aos 32 anos, é proclamado Imperador. Teria certamente preferido “os bosquetes da Academia e a sociedade de Atenas”, mas vê-se obrigado a aceitar, seguindo as palavras de uma bela metáfora de Aristóteles. Abraçou uma dieta leve e parca formada de verduras e legumes, “que lhe deixava a mente e o corpo sempre purificados e dispostos para as diversas e importantes atividades de quem era, a um só tempo, escritor, pontífice, magistrado, general e príncipe.” Juliano era um gênio ágil e frugal. Distanciava-se de diversões frívolas e devotava todo o seu tempo ao interesse público e ao aperfeiçoamento de seu espírito. Apenas dezesseis meses transcorreram-se entre a morte de Constâncio e a de seu sucessor, para uma batalha persa, mas sua dedicação fez com que deixasse uma magnífica literatura. Sua obra foi escrita durante longas noites de somente dois invernos, em Constantinopla e Antioquia. Ele se converteu ao paganismo em Atenas com 20 anos. Sua rígida educação cristã, durante a infância e adolescência, fez com que desprezasse a Igreja católica. Contudo, era totalmente aberto a qualquer culto que seus súditos deliberassem professar. Gostava de chamar os cristãos de “os galileus”. Suspendeu toda e qualquer regalia que a Igreja já tivera no passado, excluindo os cristãos do estudo de gramática e retórica! Morrendo na batalha persa, seu sucessor, Joviano, foi obrigado a devolver cinco províncias além-Tigre e Nisibis. Joviano restabeleceu o cristianismo, mas morreu poucos meses após sua elevação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(363-384 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valentiniano é aceito como novo imperador. Era um grande militar da África e da Britânia. Após a morte de Joviano o trono ficou sem dono por dez dias. Tão logo se cogitou no nome de Valentiniano ele foi imediatamente aceito. Ele tinha uma feição viril, era alto e majestoso. Por ser um militar, havia se afastado da literatura, língua grega e retórica. Na época de Juliano seu mérito era reconhecido. Foi convocado à púrpura, aos 43 anos, apenas por seu mérito, perícia e eficácia. Algumas de suas palavras ao receber o trono: “Julgando... que eu merecia reinar colocastes-me no trono. É agora meu dever cuidar da segurança e do interesse da causa pública O peso do universo é, sem dúvida, demasiado para as mãos de um fraco mortal. Tenho consciência dos limites de minha capacidade e da incerteza de minha vida... estou ansioso por solicitar a ajuda de um colega condigno...Tal deliberação será da minha responsabilidade... e esperai o costumeiro donativo pela elevação de um novo imperador.” As tropas atônitas aceitaram o comando do novo imperador. Acabou por escolher seu irmão Valente, de 36 anos, o que não agradou aos romanos. Valentiniano fica em Milão e seu irmão, Valente, em Constantinopla, com a rica prefeitura do Oriente desde o baixo Danúbio até a Pérsia. Para ele reservou as belicosas prefeituras da ilíria, Itália, e Gália, desde o extremo da Grécia até o sopé do monte Atlas. Um duplo contingente de magistrados e generais foi organizado. As artes mágicas eram censuradas. A mistura de traição, magia, adultério e veneno causavam motivos para processos julgados por juízes, por vezes, apaixonados. Da Itália e Ásia todo tipo de indivíduo era trazido para punições e cruéis torturas. Valente tinha índole tímida, Valentiniano colérica. Quando o último tornou-se imperador entregou-se “às furiosas paixões de seu temperamento numa época em que lhe foram desastrosas e fatais...” Toda sua crueldade foi exposta aos cidadãos romanos. Ursos enormes, agora, comiam as vítimas de Valentiniano. Contudo em momentos importantes e de reflexão, ele retomava as idéias e uma conduta condizente com o “pai da pátria”. Os irmãos, finalmente, reformaram os abusos da época de Constâncio e aperfeiçoaram os métodos de Juliano. Roma possuía 14 bairros. Os princípios de uma universidade moderna surgem com Valentiniano para educar a juventude. As artes da retórica e gramática seriam ensinadas nas línguas grega e latina. Era necessário que os estudantes trouxessem certificados dos magistrados de suas províncias. Seus nomes, profissões e locais de residência ficavam registrados em um Registro Público. Seus talentos seriam utilizados pelos governantes. As finanças eram gerenciadas pelos dois irmãos acostumados “à rígida economia de uma fortuna particular.” Valentiniano conseguiu manter uma firme e moderada imparcialidade nas lutas religiosas.  Valente alivia o povo de impostos muito altos, mas Valentiniano aumentou os impostos da classe rica privada, para beneficiar o Estado. Manteve uma respeitável imparcialidade em “uma época de lutas religiosas.” Pagãos, judeus e várias outras seitas cristãs estavam protegidos para exercer seus cultos sem tumulto ou iniqüidade. Houve moralização no seio do clérigo e das doações testamentárias, pois alguns homens mal intencionados vinham dos confins do Oriente para tornarem-se clérigos, a fim de influenciar e espoliar viúvas ricas e desorientadas.  Eles fraudavam as expectativas dos herdeiros naturais. A opulência dos papas do século IV era inteiramente vergonhosa, totalmente oposta à humilde pobreza do seu primeiro representante. Valentiniano soube defender seu império dos bárbaros e dos fanáticos. “Tão logo a morte de Juliano livrara os bárbaros do terror de seu nome, as mais ardentes esperanças de rapina e conquistas animaram as nações do Oriente, do norte e do sul.” Durante os doze anos de reinado, Valentiniano soube proteger seu povo dos fanáticos e bárbaros. Os cinco grandes palcos de guerra eram: Germânia, Britânia, África, Oriente e Danúbio. Essas regiões possuíam regimes muito menos sofisticados do que no interior do Império. Na Britânia havia o canibalismo. O presidente de Trípole, na África, foi executado em público. Os conspiradores eram executados e outros, com crimes menores, tinham ambas as mãos amputadas. O rancor dos rebeldes fundiu-se em medo e, por fim, em uma “respeitosa admiração”.  A África se perdera pelos vícios dos romanos. Nesse tempo, a Armênia torna-se uma província persa. Na região do Danúbio, o grande Hermanrico, rei dos ostrogodos reinava da Germânia à Cítia. Esses povos eram vigorosos e bravos. Valente após uma vitoria contra eles “volta em triunfo para Constantinopla.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(365-398 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os góticos, em 40 anos, invadiram o Atlântico e tomaram tribos ainda mais hostis do que eles próprios. Os guerreiros hunos da Ásia Oriental, muito antes da era cristã estabeleceram um amplo domínio que exercia poder até sobre o império chinês, mas seu imperador da dinastia Han, derrotou-os e destruiu-lhes os aliados. Os hunos dividiram-se em três grandes grupos: um permaneceu no país natal; um segundo no Sudoeste da China e um terceiro, mais audaz, voltou-se para o Ocidente. O terceiro dividiu-se em dois: um à volta do mar Cáspio, o outro atravessou a Ásia e Europa oriental. Deste modo no fim do século IV, surgiu essa população entre os povos bárbaros, nas fronteiras ao nordeste do Império Romano. Eles “absorveram a grande nação dos alanos e então se precipitaram sobre os aterrados godos...” que acreditavam que esse povo eram os filhos das bruxas da Cítia com espíritos infernais do deserto.  A nação visigótica refugiou-se para as margens do Danúbio e solicitaram a proteção do Imperador romano do Oriente. Valente conclui a guerra gótica e percorre seus domínios da Ásia. Esse príncipe vê-se enriquecido com a solicitação de ajuda dos bárbaros. Permitiu-se até mesmo que eles entrassem nos botes com suas armas. Uma nação de bárbaros exigia mãos duras e firmes para governá-las. Entretanto o descontentamento, nos acampamentos bárbaros, se difundiu lentamente pelos maus tratos que recebiam. Com o título de juízes, Alavivo e Fritigerno eram os chefes dos visigodos na paz e na guerra.  O último cultivou secretamente a amizade dos ostrogodos, enquanto obedecia às ordens dos generais romanos e avançava vagarosamente à capital da baixa Méseia, a cem quilômetros das margens do Danúbio.  Advém uma vitória gótica sobre os romanos. Valente é desprezado por seu povo. É mortalmente ferido na batalha de Adrianópolis e, finalmente, morre vitimado por um incêndio, em uma cabana. “A juventude e a inexperiência de Valentiniano o tornaram, contudo, alvo fácil para um usurpador ambicioso. Assim que Teodósio voltou a Constantinopla, as rédeas reais do poder foram parar nas mãos de certo Arbogates, um franco que comandava os exércitos da Gália. Encontrou-se o corpo de Valentiniano estrangulado pouco depois de uma discussão com Arbogastes, que elevou à púrpura um associado de nome Eugênio.” É deposto por Teodósio  que voltou a governar o Império todo. Poucos meses depois morre, legando o Império aos seus filhos débeis, deixando os romanos com uma administração anêmica e dividida.  Seus nomes eram Arcádio e Honório, que fracassaram definitivamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(398-408 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teodósio morrera em janeiro e a nação gótica estava em guerra. As barreiras do Danúbio foram destruídas, os selvagens guerreiros saíram das suas florestas e “rolavam seus pesados carroções sobre o dorso plano e gélido do rio indignado.” A invasão dos godos ajudou a eliminar os restos do paganismo e os mistérios de Ceres, que tinham 1800 anos, sucumbiram à destruição “de Elêusis e às calamidades da Grécia.” Estilício avança contra os invasores da Grécia, mas a perseverança do romano venceu os inimigos.  Os godos retiraram-se para as altas montanhas de Foloé.  Tempos depois Alarico é proclamado, por seus feitos e glórias, rei dos visigodos.  O presunçoso imperador Honório assusta-se ao saber que Alarico acercara-se do palácio de Milão. Ao invés de pegar as armas, refugia-se nas províncias da Gália. Entretanto a disciplina bárbara era frouxa e deste modo a capital foi salva pela diligência de Estilício. “Enquanto a Itália se rejubilava de sua libertação dos godos, uma furiosa tempestade surgia entre as nações da Germânia...” Os germanos são vencidos e vendidos como escravos “ao preço vil de uma moeda de ouro cada.” Nas margens do Reno e Tibre, viam-se, em um cenário de paz, casas elegantes e quintas bem cultivadas. Porém isso mudou e com um ataque sobrou apenas ruínas fumegantes. No curso desses fatos, o rei dos godos sofreu uma perda considerável, mas os romanos se opuseram a negociar com um rei bárbaro. Entretanto 4 mil libras de ouro foram oferecidas para garantir a paz da Itália e a amizade do rei godo. Após vários e constantes embates e a invasão dos germanos na Gália, Estilício cai em desgraça e morre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(408-410 D.C.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As tropas auxiliares estrangeiras que haviam auxiliado Estilício preocupavam-se com a segurança de suas famílias, reféns na Itália.  Contudo o rei godo, Alarico, mantinha superioridade em negociações com o fraco Imperador romano. Em marchas rápidas “estendeu suas devastações pelo litoral Adriático e meditou a conquista da antiga senhora do mundo.” O rei dos godos instalou seus acampamentos sob os muros de Roma. Durante 690 anos o Império romano jamais recebera em seu seio um inimigo. A grandeza de Roma é afetada pelos inescrupulosos, ostensivos e corruptos senadores. A hospitalidade romana, famosa em outros tempos, pois “socorria ou recompensava qualquer forasteiro que pudesse alegar seu mérito ou infortúnio”, estava totalmente mudada. Os visitantes tinham seu nome e procedência rapidamente esquecidos. Os nobres se encontravam fatigados com as vantagens dos livros e do saber. As bibliotecas herdadas encontravam-se fechadas, entretanto instrumentos de teatro, flautas, órgãos e música vocal eram ouvidos pelos palácios. Esperavam uma herança ou um legado, sendo um cidadão rico e sem família o mais poderoso romano.  A classe média era a parte mais útil e respeitável dessa sociedade decadente. A situação dos lavradores era péssima, pois se viam obrigados a abandonar o cultivo de suas granjas, durante o serviço militar. Suas terras foram sendo usurpadas pela nobreza. Os atuais governantes doavam trigo para aliviar a pobreza, mas não os ajudavam com trabalhos honestos e a distribuição mensal de trigo se converteu em uma cota diária de pão! Os palácios eram construídos e decorados com os mais finos e caros materiais. Sobrepujaram em opulência os reis da Ásia e nas ruas das cidades plebeus eram vistas em andrajos e sujos. “Mas a diversão mais animada e mais grandiosa da turba indolente eram os jogos e espetáculos públicos promovidos com frequência.” Os terríveis combates de gladiadores era a distração mais procurada. “A felicidade de Roma parecia depender do desfecho de uma corrida.” Essa era a situação no reinado de Honório, quando o exército godo atentou contra a cidade. Alarico apoderou-se dela e insultou a capital do mundo. “O último recurso dos romanos estava na clemência, ou, ao menos, na moderação, do rei dos godos.” Ele empregou um método de conquista mais benévolo. Alarico exigiu que a cidade se rendesse incondicionalmente. O medo e a fome, com a destruição dos estoques de alimento, venceram o Senado, que colocou no trono um novo imperador, Átalo. Esse homem conseguiu, nos primeiros dias de reinado, prosperidade, mas a maior parte da Itália se submeteu ao poderio godo. Os governantes consentiram “em reconhecer a legalidade da eleição de seu competidor e em dividir as províncias da Itália e do Ocidente entre os dois imperadores.” Átalo prometeu que se Honório abdicasse imediatamente ao governo, poderia passar o resto de sua vida em alguma ilha remota. Honório tremia à aproximação de qualquer serviçal, mas um reforço de 4 mil veteranos desembarcou em Ravena e “entregou ele a guarda das muralhas e portas da cidade...” Átalo cometeu medidas imprudentes sem conhecimento de Alarico. Numa grande planície, Átalo em meio a romanos e bárbaros foi publicamente despojado do trono. Alarico enviou-lhe o diadema e a púrpura, emblemas de realeza, como prova de amizade. A degradação de Átalo propiciou a conclusão da paz e Alarico surgiu sob as muralhas de Roma e o fraco Senado preparou-se para retardar a ruína de Roma.  À meia-noite, após 1163 anos de sua fundação a cidade imperial, que conquistara e civilizara quase toda a humanidade, viu-se despertada “ao som tremendo da trombeta gótica” e entregue “à fúria licenciosa das tribos da Germânia e da Cítia.” Segundo Gibbon “a venerável matrona retomou a coroa de louros, que havia sido amarrotada pelas trombetas da guerra, e ainda se entreteve, no último momento de sua decadência, com as profecias de vingança, de vitória e de eterno domínio.” Pela Gália, Itália e Hispânia passavam os conquistadores bárbaros indo até a África, o celeiro da Europa. A ilha da Britânia e as províncias marítimas francesas entre o Sena e o Loire desligaram-se do Império e formaram governos independentes.  Gibbon destaca que um governo romano que “parecia a cada dia menos temível a seus inimigos, mais odioso e opressivo a seus súditos” acabaria em mãos de qualquer oponente mais poderoso. O declínio de Roma deu-se por sua grandeza desmedida e é de se assombrar que tenha durado tanto tempo. A corte bizantina viu com indiferença a perda do Ocidente, pois a ajuda dos romanos orientais foi ineficaz. A fundação de Constantinopla cooperou para a preservação do Oriente. A discórdia teológica tem grande papel nesses fatos, pois a Igreja e o Estado dividiram-se em várias facções religiosas conflitantes entre si. O declínio do Império foi apressado pela conversão de Constantino, mas por outro lado, amorteceu a violência dos conquistadores. “A índole benevolente do Evangelho se reforçou, embora confinada, com a aliança espiritual dos católicos”. Os bárbaros agitaram-se com a agilidade da guerra e paz na Gália e Itália. Os hunos marchavam para o Ocidente e os bárbaros pressionaram o Império romano com um peso ainda maior. Havia um novo mundo mais civilizado. O arado, o tear e a forja foram introduzidos na Rússia. “O reino da barbárie independente se reduziu hoje a uma estreita faixa e os remanescentes dos calmucos ou dos uzbeques, cujas forças quase podem ser contadas, não logram suscitar quaisquer sérias apreensões à grande república da Europa” declara Gibbon. Os árabes que haviam conquistado desde a Índia até a Espanha, agora enfraquecidos, foram revigorados com o atilamento e bravura de Maomé. A pobreza, o cansaço, o frio e muitos perigos vitais fortaleceram a bravura dos bárbaros. A arte militar transformou-se imensamente com o advento da pólvora. As ciências da matemática, física, arquitetura, química e mecânica foram aplicadas no novo procedimento bélico. “Podemos, portanto, chegar todos à aprazível conclusão de que cada época da história do mundo aumentou e continua a aumentar efetivamente a riqueza, a felicidade, o saber e quiçá a virtude da raça humana.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excertos da segunda metade da obra original&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Até aqui Gibbon descreveu a primeira parte da História do Declínio e Queda do Império Romano. Continua narrando a trajetória do Império do Oriente, maometismo, Cruzadas, Gengis-Khan e Tarmelão. O resto deste resumo consiste em alguns trechos seletos da segunda metade do original. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O IMPÉRIO DO ORIENTE NO SÉCULO IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I - O primeiro ato de Justiniano no poder foi dividi-lo com Teodora, a quem amava. Acácio morre e deixa três filhas: Comito, Teodora e Anastácia, que foram env
